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“Quando uma mãe não quer dar de mamar, temos que escutá-la.”

Psicanalista afirma que mãe pode estar querendo proteger o filho

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Amamentar é recomendável, claro, mas não pode ser obrigatório. Como neste mês o assunto da nossa campanha contra culpa é amamentação, resgatamos a entrevista dada para a Pais & Filhos pela psicanalista Claudia Fernandes Mascarenhas, mãe de Pedro, especializada em psicopatologia do bebê pela Universidade de Paris-Nord. “Quando uma mãe não quer dar de mamar, temos que escutá-la. Quando qualquer tipo de profissional obriga a mãe a amamentar, é catastrófico. Quando uma mãe não está querendo amamentar tem que ver se ela não está protegendo o filho de algum tipo de pulsão mais agressiva que ela pode ter”, diz Claudia.


Por Larissa Purvinni, mãe de Carol, Duda e Babi e Alexandre Barroso, pai de Pedro

Às vezes a mulher se descobre esperando um filho, mas ainda demora a se sentir grávida. Em que momento nasce a mãe?
Gravidez é uma coisa e ter filho é outra. A mulher pode ter um desejo de gravidez, de se sentir completa, que tem muito mais a ver com ela mesma do que com o desejo de ser mãe. E tem a outra coisa que é ter o filho. É bem provável que a mulher queira muito ter um filho, mas odeie estar grávida. Muitos dizem que ela não vai ser boa mãe porque não está gostando de estar grávida, mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Quando o filho nasce, também vai ajudar a mãe a ser mãe. É preciso que o filho seja ativo o suficiente para fazer daquela mulher a mãe dele. Não é um instinto, não tem nada de natural nisso. É, na verdade, a construção de uma relação.

Não está implícito que mulher tem de ser mãe?
Não, assim como não está implícito que ser mãe é um mar de rosas. A gravidez deixa a mulher péssima, gorda. Depois do parto, todo mundo só olha para o filho. Quando ela começa a descobrir que não é uma situação fácil, começa a ficar mal, porque não está correspondendo àquele ideal de maternidade, em que não pode se queixar de nada, porque tem de achar que tudo o que o filho faz é uma maravilha. Acordar a noite inteira não é fácil! Mas, como ela gosta do filho e quer constituir a sua família, ela ultrapassa essa parte horrível.

É comum a mãe querer ser melhor do que foi a dela e acabar percebendo na prática que isso não é tão simples?
Quando a mãe ou o pai dizem que não vão fazer da mesma forma que os pais, significa que consideram como referência a maneira como foram criados. A situação mais complicada, de patologia, é quando há um estranhamento em relação àquele filho. Mas, quando se diz que vai fazer igual ou diferente, significa que esse filho pertence a uma linhagem.

Como é isso de a mãe estranhar o filho?
Isso pode acontecer quando o filho mostra um tipo de problema, e a mãe olha e diz que não se parece com nada nem ninguém da sua família. Em algumas situações em que o casal recorre à fertilização assistida, quando aparece qualquer dificuldade na relação com o filho, imediatamente vem a interrogação: “Será porque o óvulo não é meu? Será que é porque o espermatozóide não é do marido?”

Isso acontece na adoção também?
Pode acontecer. Mesmo com fatos corriqueiros, existe o questionamento: “Será que essa atitude do meu filho é parecida com a da mãe biológica?” Muitas vezes essa mãe e esse filho precisam de uma certa ajuda para ir refazendo esse desconhecimento/reconhecimento.

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Como se dá o processo de reconhecer aquele filho?
A construção dos filhos na cabeça dos pais já vem bem antes. Os pais estavam pensando no filho há dez anos, querendo o filho, buscando, escolhendo, mas aquela criança que foi escolhida, não. Isso tem que ser esclarecido. Às vezes, a mãe fica arrasada porque a filha só quer comer com o pai. Nessas situações, a relação com o ideal é muito mais aguda. Quando chega aquela criança concreta, que chora, que chateia, que briga, que rejeita, que diz “eu não gosto de você”, como qualquer filho faz, eles se estranham. Já tive situações em que, se não houvesse uma intervenção, a criança seria devolvida.

Fala-se em mãe que rejeita filho na gravidez. Diz-se que, como ela rejeitou o filho na barriga, haverá uma distância entre eles depois. É fato?
A pergunta mais boba que existe é você chegar para uma mãe e perguntar: “Você desejou seu filho? Essa foi uma gravidez desejada?” Uma coisa é desejo, outra coisa é querer, outra ainda são as condições da mulher naquele momento. O que pode acontecer é a mãe estar vivendo uma situação de perda, de luto, de tristeza, ou o pai dessa criança a ter abandonado… Muitas vezes ela não consegue separar isso do que é o filho dela, que na verdade ela gosta, que ela estava querendo… Misturadas as coisas, pode-se chegar a esta frase: “Eu rejeito meu filho!” É preciso, então, fazer um trabalho para separar: isso aqui é uma coisa, isso é outra. As
situações patológicas são aquelas em que a mãe não é afetada pela gravidez, não percebe que está grávida até 8, 9 meses. Se está com raiva, tem alguma coisa que está fazendo com que ela se relacione com essa gestação.

O Ministério da Saúde afirma que amamentar fortalece o vínculo entre mãe e filho. As mães que têm dificuldades para amamentar se sentem culpadas. A amamentação desempenha um papel realmente tão importante?
A amamentação é um momento de grande proximidade da mãe com o bebê, principalmente de proximidade física. É um momento privilegiado de contato, mas isso não significa que em outros momentos essa mãe não consig