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Ter duas mães é bom para as crianças

Redação Pais&Filhos

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Mãe só tem uma? Nem sempre. Cada vez mais, casais de mulheres decidem ter filhos, seja por meio de adoção ou inseminação artificial. A notícia é que novos estudos mostram que ser criado por duas mulheres é bom para as crianças

Por Mariana Setubal, filha de Cidinha e Paulo


As crianças estão bem. Essa é a tradução literal do título do filme “The kids are all right” ou “Minhas mães e meu pai”, como foi chamado por aqui. A história da família formada por duas mães e seus filhos Joni e Laser, concebidos por inseminação artificial, mostra isso: que fica tudo bem – mesmo sem um pai por perto.

Entre 8 milhões e 10 milhões de crianças crescem em famílias homoafetivas nos EUA, com dois pais ou duas mães, segundo o Child Welfare Information Gateway.

Essas crianças podem ter sido geradas por um casal heterossexual que se separou e depois foram criadas  pela mãe e sua namorada (ou pai e namorado) ou ter sido fruto de uma inseminação ou adoção planejadas pelo casal homossexual. No Brasil, por enquanto, não há estatísticas sobre essas novas famílias. Em 2010, pela primeira vez o Censo coletou dados sobre os casais homoafetivos, mas os resultados ainda não foram divulgados.

Uma pesquisa do Datafolha feita no ano passado mostrou que 39% das pessoas já são favoráveis à adoção por homossexuais, enquanto 51% são contra. A tendência é que o grau de aprovação aumente com o tempo, já que entre os mais jovens, entre 16 e 24 anos, a prática é apoiada por 58%, enquanto que entre os que têm 60 anos ou mais, por apenas 19%. Quanto maior a escolaridade, menor o preconceito também. Assim como, logo que o divórcio foi aprovado, em 1977, a preocupação com o futuro das crianças de pais separados era grande, o mesmo acontece com os filhos de duas mães ou dois pais. Mas, assim como é melhor ter pais separados do que viver numa casa em que o conflito e as agressões entre os pais são constantes, pode ser bom ter duas mães.

Um estudo publicado em julho do ano passado no periódico médico Pediatrics mostrou que filhos de mães lésbicas têm mais autoestima e confiança, além de terem melhor desempenho na escola e menos probabilidade de ter problemas comportamentais, como agressividade.

Não está muito claro o motivo dessas diferenças, mas a pesquisadora Gartrell tem uma teoria: as mães homossexuais são muito envolvidas na vida dos filhos. Ser presente, ter uma boa comunicação e estar informada sobre os eventos escolares são alguns dos ingredientes para formar uma criança saudável, lembra a pesquisadora.

Apesar desse envolvimento não ser exclusividade das mães lésbicas, Gartrell mostra que, para elas, isso é uma prioridade. Como seus filhos estão mais vulneráveis ao preconceito, essas mães têm mais facilidade em abordar tópicos complicados, como sexualidade, diversidade e tolerância. Essa base pode dar às crianças mais confiança e maturidade para lidar com diferenças sociais e preconceitos conforme ficam mais velhas.

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Em janeiro deste ano, duas mulheres conseguiram na Justiça brasileira o direito de aparecer como mães na certidão de nascimento de seus filhos gêmeos, Ana Luiza e Eduardo, que já tinham 1 ano e 8 meses na época. Os gêmeos são filhos de Munira e Adriana e foram gerados por inseminação artificial no útero da Adriana com os óvulos de Munira. Alguns casais já conseguiram certidões como duas mães ou dois pais ao adotar uma criança.

Como a legislação ainda é omissa em relação à adoção por casais homoafetivos, os casos são analisados individualmente e depende do juiz conceder ou não a adoção. O mais comum é adotar primeiro em nome de uma das mães e, depois, fazer o pedido para a outra também entrar no registro como mãe. O primeiro caso de adoção por duas mães aconteceu em abril do ano passado, na cidade de Bagé, no Rio Grande do Sul. Em relação à inseminação artificial, o Conselho Federal de Medicina divulgou novas regras em janeiro deste ano, possibilitando às pessoas solteiras e homossexuais também recorrer ao método para ter filhos.

Nos EUA, alguns grupos se referem a essas famílias como “intencionais” ou planejadas, em oposição a famílias cujos filhos nasceram de uniões heterossexuais e agora são criados por dois pais ou duas mães, mas nem todo mundo gosta desse termo. “Se eles são intencionais, eu sou o quê?”, disse uma menina de 13 anos para a escritora Abigail Garner, autora do livro (e agora site) Families Like Mine: Children of Gay Parents Tell It Like It Is” (Famílias como a Minha: filhos de Pais Gays Contam Como é). O pai de Abigail contou para ela que era gay quando ela tinha 5 anos.

Em seu site, Abigail conta que sofreu durante a adolescência principalmente por causa do preconceito da sociedade. “Não é fácil crescer ouvindo todo dia dos meios de comunicação, líderes políticos, professores e vizinhos que pessoas gays são más, pecadoras ou erradas. Quando falam dos gays assim, eles ofendem a mim e a meu pai e seu parceiro, dois homens que eu amo e respeito.”

Em alguns países, estimular a convivência com as diferenças, incluindo famílias homoafetivas, é política pública. A antropóloga Érica Renata de Souza apontou, em sua tese de doutorado intitulada “Necessidade de filhos: maternidade, família e (homo)sexualidade”, feita em 2002, que as escolas públicas de Toronto, no Canadá, têm programas contra a homofobia desde a primeira série do ensino fundamental. Isso já acontecia no Canadá há quase uma década. Por aqui, as escolas pouco ou nada falam sobre o assunto. Os livros infantis traduzidos para o português ou escritos por autores brasileiros também são escassos. Há algumas publicações sobre crianças com dois pais, mas praticamente nada a respeito de duas mães.

Aos poucos, vamos caminhando. O filme “Minhas mães e meu p