Mamãe não quero mamar!

Patricia Smith, mãe de Adam, saiu do hospital recebendo elogios das assistentes de lactação, mas no segundo mês, tudo mudou

Patricia Smith mãe de Adam participa da campanha Culpa,Não! O tema do mês de Junho é  “Não dou leite comum, dou fórmula”  se você também quiser participar siga a nossa página no Facebook.

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Como assim, meu filho não quer mais mamar?!Se tem uma coisa que toda grávida sonha (ou tem pesadelos) é sobre a hora da amamentação. Seja porque é o que esperam da gente enquanto mamífera ou porque a sociedade estimula e impõe.

Nos dias de hoje são muitas as bandeiras hasteadas em torno da alimentação do bebê: amamentação exclusiva até os seis meses, livre demanda, milhões de anticorpos, QI elevado, saúde eterna e, provavelmente em alguns anos, irão atribuir o sucesso na vida aos que foram amamentados exclusivamente no seio até os seis meses.

Para os que ultrapassaram essa etapa, como muito se tem alardeado sobre o “attachment parenting”, o céu é o limite e a capa da Forbes estará garantida.

Sou nutricionista, e se tinha um pecado capital que eu não queria cometer e correr o risco de ter meu CRN cancelado era o “não darás complemento ou leite artificial até os seis meses de idade do seu filho”.

Me preparei de todas as formas possíveis: tomava sol no seio, fiz a festa do “estica e puxa” nos bicos e dessa forma, se a dor existisse, seria minimizada pela dessensibilização já provocada. Eu andava na rua e tinha orgulho do meu peito. Foi ele, antes da barriga, que anunciou a minha gravidez por onde passava. Minha barriga só apareceu depois dos seis meses, mas os seios, ah, os seios, esses foram a prova de que a fartura estava por vir.

Já diz o ditado: tamanho não é documento, não é garantia de produção, mas mesmo assim acreditei que conseguiria alimentar meu filho ao menos até os seis meses.

Vida passa, filho nasce e quanta emoção ele chegando pra mamar. “Perfeito”, assistente de lactação do hospital elogia a pega e a minha desenvoltura. Menino mama muito.“Esganado” diziam amigos e parentes. “Menino é assim!”,ouvia das auxiliares. Meu conto de fadas acontecia.

Os dias foram passando, sem rachadura, sem peito esfolado, sem falta de leite. Criança feliz, mãe realizada.Mas o que era bom durou pouco e logo no segundo mês, após cada mamada, uma sirene de choro tocava.

Ele não tinha refluxo ou cólica, era só a carinha de dor, muita dor. Depois de alguns episódios, eu sofria por antecipação. A hora da mamada ia chegando e a tensão só aumentava. Conto de fadas com bruxa,será que ela envenenou meu leite?

Depois de alguns dias fomos consultar o pediatra e começamos um verdadeiro rastreamento.

Primeiro diminuímos o tempo de mamada: a livre demanda virou 30 minutos para ele comer o máximo que conseguisse. O choro continuava e eu não sabia se era de fome ou dor.

Em nova consulta ao pediatra, ele perdeu mais de 10% do seu peso e tomamos medidas mais drásticas. Mantínhamos os 30 minutos no peito, complementando com 30ml de fórmula e antiácido 3x ao dia.

Bingo!  Ele tinha uma secreção aumentada dos ácidos do estômago então, quanto mais sugava, mais ácido produzia. A tríade funcionou até a metade do terceiro mês e acredito que o stress, o cessar da livre demanda e a fome continuada do pequeno, aliados a facilidade de saciar a fome rapidamente via mamadeira favoreceram a rejeição ao peito.

Tentei tirar o leite para colocar na mamadeira, mas sem estímulo continuado a produção do leite enfraqueceu. No meu caso, relactar nunca foi uma opção. A mamadeira foi uma realidade difícil de aceitar, junto com o antiácido que acompanhou ele até os sete meses.

Hoje, passados 29 meses, estamos todos bem, felizes, saudáveis e afetivos. Não há sinal visível da privação do leite materno, meu CRN ainda está ativo e somos bem sucedidos como família. Forbes, Veja ou a capa de vários álbuns de família, vamos aguardar.