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Mulheres são mais capacitadas que homens para empreender, mas ganham menos

Pesquisa inédita feita pela Rede Mulher Empreendedora mostra que as mães têm menos tempo para se dedicar ao negócio por precisarem cuidar dos filhos

Yulia Serra

Yulia Serra ,filha de Suzimar e Leopoldo

Os dados não surpreendem, mas chamam atenção (Foto: Getty Images)

Não é novidade para ninguém que o mercado de trabalho não é justo com as mulheres, principalmente, após ela se tornarem mães. As portas se fecham por muitas vezes e, independentemente da justificativa que o RH dê, você sabe lá no fundo, que o único motivo da demissão é a maternidade. Vários estudos já provaram o quanto essa ideia é ultrapassada, mostrando que elas se dedicam ainda mais. Uma pesquisa norte-americana, feita pelo Federal Reserve Bank, provou que mulheres com filhos produzem até mais do que as que não são mães. Com toda essa bagagem e vontade de fazer algo pelo mundo, o caminho é empreender. 

Não à toa, uma pesquisa realizada em 2016 pela Rede Mulher Empreendedora apontou que 75% das mulheres brasileiras que abrem negócios próprios são motivadas pela chegada de um filho na família. Desde então, a RME vem fazendo levantamentos anuais para apresentar os dados do empreendedorismo no país. “O objetivo é nos ajudar a ter informação e estatísticas para trabalhar ações de apoio às empreendedoras e divulgar para que outras instituições também possam dar esse suporte”, explica Ana Fontes, fundadora da instituição, mãe de Daniela e Evelyn.

Ana Fontes é especialista em empreendedorismo feminino (Foto: reprodução)

Igualdade de gênero? 

Divulgada nesta terça (22), a pesquisa “Empreendedorismo no Brasil: um recorte de gênero nos negócios” é a maior do Brasil sobre o tema, comparando o perfil e motivação de homens e mulheres nesse setor. A nova análise confirmou essa onda após a maternidade, já que mostra que a maioria empreende após os 30 anos de idade (início da faixa etária em que as mulheres mais têm filhos). Para elas, o maior desafio é gerenciar a carreira e família, enquanto os homens entendem que a maior dificuldade é ter acesso a recursos financeiros. 

“As mulheres têm menos oportunidades por construções sociais que ainda as colocam no ambiente doméstico ou como a principal responsável por esse espaço”, opina Ana Fontes. Isso, somado à realidade do mercado, faz com que elas sejam “empurradas” para o empreendedorismo, segundo a especialista. 

É preciso quebrar a corrente

Os dados não surpreendem, mas chamam atenção para um assunto recorrente na sociedade e, muitas vezes, esquecido. Mulheres empreendedoras têm menos tempo para o negócio do que os homens, pois dedicam mais horas à casa e aos filhos. De acordo com a pesquisa, passam 24% mais tempo junto à família. Isso fica claro também pelo resultado dos locais de trabalho. Mais da metade das mulheres trabalham em casa. A explicação é simples: é a única forma que encontraram de conciliar carreira e maternidade

A própria motivação para empreender já mostra a diferença de prioridade entre o casal. As mulheres procuram maior flexibilidade de horário e tempo para a família, enquanto os homens estão em busca de uma renda extra ou encaram o empreendedorismo como vocação natural. 40% tanto dos homens quanto das mulheres começam o negócio sem dinheiro, mas as semelhanças terminam por aí. Só 34% delas se sentem capazes de planejar uma empresa, enquanto o número aumenta para 50% no caso deles.    

(Foto: Getty Images)

“Os dados que chamaram atenção foram em relação à falta de confiança das mulheres na gestão dos negócios comparados com os homens”, acrescenta Ana Fontes. E isso não é por despreparo ou incapacidade. Muito pelo contrário. O mesmo estudo mostra que 69% das mulheres possuem algum tipo de graduação ou pós-graduação, em comparação aos 44% no público masculino. O resultado se estende na questão financeira: 28% das mulheres se sentem seguras para realizar o gerenciamento do próprio dinheiro e 50% dos homens.

Empreender é uma atividade solitária

Mesmo no universo empreendedor, os resultados são diferentes entre os dois sexos. Metade das mulheres tem uma renda mensal de até R$ 2.500,00 contra 30% dos homens. Por isso, qualquer ajuda é bem-vinda. “Uma rede de apoio para mulheres neste momento de reinserção é fundamental, apoiar com indicações, oportunidades e entendimento sobre o momento da mulher”, sugere Ana. Outra visão desconstruída nesse estudo foi da competição feminina. As mulheres preferem contratar mulheres

Esses dados deixam ainda mais evidente que o empreendedorismo é uma importante ferramenta de transformação profissional, econômica, social e pessoal na vida das mulheres. O trabalho de uma ajuda no crescimento de outra e assim por diante, como uma verdadeira rede de apoio. Mas ainda há muito a ser conquistado dentro e fora do mercado tradicional, principalmente na equidade de gêneros, e essa mudança começa dentro de casa, na relação homem, mulher e família. 

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