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Relato de mãe: “Preciso escutar mais e melhor o meu filho”

Nossa embaixadora Ana Castelo Branco fala sobre as fichas que caem durante a maternidade

Redação Pais&Filhos

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(Foto: iStock)

“Então, eu tenho um filho com síndrome de down (e insisto no meu pequeno protesto pessoal de nunca escrever o nome da danada com letras maiúsculas). O Mateus, o Má, completou quatro anos em setembro. Um mocinho já. E, durante estes 53 meses, tenho escrito, escrito, escrito, falado, falado, falado e postado pra caramba. Fiz um site, escrevi para revistas, participei de eventos, palestrei. Virei ativista. Quase a louca da causa.

Parece até que eu já sei lidar com toda esta história, né? Pois, então. Não é bem assim.

Ultimamente, percebi que preciso encarar alguns preconceitinhos (preconceitozinhos? preconceitosinhos?) que ainda existem aqui dentro deste coração amoroso e bem intencionado.

É difícil admitir. Mas caiu uma ficha de que preciso escutar meu filho mais e melhor.

Por exemplo: notei que é muito fácil me aproveitar (claro que sem querer) do não falar do Mateus. Puxa, como dá trabalho lidar com Helena, minha filha mais nova, quando ela está segurando um objeto perigoso. Tem que explicar, tem que argumentar, ameaçar, aguentar chororô. Um saco. Cansa.

Com o Má, é muito mais tranquilo. Explico uma vez e já tomo o tal objeto da mão. Ponto. Assunto resolvido. Ele não fala. Ele não argumenta. Ele é um doce que não reclama. Ele é sempre um doce.

Não me julgue. Já me julgo demais. O tempo todo. Não estou gostando de admitir. Mas, mesmo com vergonha, acho que preciso. Para dizer que o preconceituoso não é necessariamente uma pessoa muito do mal.

Para dizer que aprender é um processo diário. Requer atenção e vontade. Para dizer que, desde que senti esta intuição de que o Mateus precisa ser mais ouvido, ele passou a se comunicar muito mais comigo. Sílabas saem com mais facilidade. Gestos e olhares fazem mais sentido do que nunca. Eu decidi ouvir melhor. Ele passou a falar melhor.

Sinto um pouquinho de vergonha de quem eu era ontem. Mas ficar escrevendo textos, postando e posando de boa mãe, mãe engajada, mãe ativista é fácil. Difícil mesmo é a vida ali, na prática. Por isso, estou sempre prestando atenção nele e em mim. Nas minhas atitudes e nas reações que elas causam. E encontrando erros que sei (espero) que ainda posso corrigir.

Escrever sobre estes erros é um compromisso que faço para não repeti-los e um jeito de mostrar que todos nós podemos corrigir nossos preconceitos. Hoje. Agora. Pode ser amanhã também. Não importa.

É só começar. Dá tempo.”

*Por Ana Castelo Branco, redatora publicitária, embaixadora Pais&Filhos e mãe de Helena e Mateus

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