Criança

Entenda o que muda na BNCC e como isso irá preparar melhor seu filho para o futuro

Acompanhar a transformação do mundo não é fácil, e, aos poucos, o modelo de escola como conhecemos está prestes a mudar

Marina Paschoal

Marina Paschoal ,Filha de Selma e Antônio Jorge

(Foto: Ericka McConnell)

O mundo não pára e tudo muda o tempo todo Mas, se tem uma coisa que não tem se transformado tão rapidamente assim, é a escola. Claro que muitas instituições investem cada vez mais em oferecer a melhor e mais tecnológica estrutura, mas, cá entre nós, as salas de aula são as mesmas há décadas. 

Não quer dizer que o professor à frente e os alunos de olho na lousa, está errado, mas que apenas essa abordagem não prepara as crianças para o que elas encontrarão no futuro. “Ficarem sentados o tempo todo não faz o menor sentido e não favorece a aprendizagem. Movimento, envolvimento, trabalho em equipe, exploração e descobertas tornam a escola espaço de aprendizagem interessante e instigante”, esclarece Roberta Bento, mãe de Taís, especialista em educação e neurociência cognitiva, fundadora do SOS Educação, embaixadora e colunista da Pais&Filhos. 

E essa mudança favorece mais do que o aprendizado teórico, seu  lho desenvolve também a capacidade de argumentar, ouvir e compreender os colegas. “Criar oportunidades e espaços para que eles possam falar sobre sentimentos e compreender os dos outros é fundamental para que desenvolvam empatia e respeito”, explica Karine Rodrigues Ramos, orientadora educacional do Colégio Santa Maria.

O centro das atenções 

Apesar da  gura do professor ser essencial para a organização e realização das aulas, os novos métodos desconstroem esse modelo e trazem o foco no aprendizado voltado para o aluno. “A criança se torna protagonista do próprio aprendizado e o professor é um facilitador”, acredita Peter Visser, diretor acadêmico da Maple Bear. 

Para incentivar a autonomia do aluno e as mudanças estruturais que o modelo sugere, o professor aprende a lidar com a imprevisibilidade do cotidiano, tendo que planejar a aula mais de uma vez, por exemplo. “É preciso que ele leve em consideração, a partir de metodologias ativas, a interação entre os alunos, criando situações de aprendizagem para desenvolver competências e habilidades”, explica Ana Lúcia Rodrigues coordenadora de segmento e orientadora pedagógica do Colégio Franciscano Nossa Senhora Aparecida. 

E tudo isso é possível a partir da construção de condições específicas, que instigam os alunos. “É superimportante que eles vivam e explorem experiências e atividades problematizadoras, aplicando os conceitos trabalhados [teoricamente]”, explica Christina Sabadell, diretora das Escolas Premium do Grupo SEB, como Pueri Domus. 

Por isso a presença do professor é imprescindível, que mais do que apresentar teorias para que as crianças decorem, ensina também como lidar com todo esse conteúdo e aplicá-lo em situações reais. “Na prática, o professor é mediador dessa construção, sistematizando conteúdos e orientando os estudantes para a direção do conhecimento científico, mas sem abrir mão da liberdade investigativa de cada um, prezando pela construção do pensamento crítico”, acredita Danilo Costa, fundador e presidente da Vereda Educação. 

Na prática, as crianças deixam de passar a maior parte do tempo dentro da sala de aula e fazendo as atividades sozinhas para dar mais espaço aos trabalhos em grupos, que proporcionam a troca de opiniões e experiências. “O aprendizado por projetos possibilita o envolvimento do estudante de forma colaborativa e espontânea, o que contribui para o seu desenvolvimento”, pontua Cláudia Simone Gomes, mãe de Nathália e Mikaella e gerente educacional do Colégio Objetivo. 

Tecnologia importa, mas não é tudo 

Educar para o futuro não significa apenas ter salas de aulas supertecnológicas. Claro que isso faz diferença, mas não é tudo. “O legal é desenvolver aulas que tenham o equilíbrio entre o global e o local, o individual e o coletivo, o digital e o desplugado, a história e contemporaneidade… enfim, preparar os alunos para as profissões existentes e as que ainda estão por vir”, esclarece Silmara Casadei, diretora pedagógica educacional do Colégio Visconde de Porto Seguro. 

E para que isso aconteça, as escolas já começaram a se movimentar em relação às aulas, que dão cada vez mais espaço para que as crianças falem, se expressem e criem. “Precisamos colocar o aluno no centro do processo educativo, dando mais voz e, ao mesmo tempo, o escutando”, acrescenta Joana, do LIV. 

Laboratórios superequipados, aulas de robótica e até de programação na grade curricular é o que você vai encontrar no momento de pesquisar escolas para o seu filho. E além de levar tudo isso em consideração, procure saber como são as aulas na prática. “Se a abordagem pedagógica não desafiar o aluno a buscar soluções de forma criativa, significativa e autônoma, tudo isso torna-se mero adereço”, pontua Thamila Zaher, diretora executiva e membro do conselho do Grupo SEB, que inclui a Escola Concept. E é a partir da resolução de problemas e tomadas de decisão que a criança é preparada para encarar profissões que ainda nem existem.

No caminho do sucesso 

E é de olho no futuro e nas pro ssões que ainda nem existem que a Base Nacional Comum Curricular, a BNCC, incluiu dez competências gerais que devem ser desenvolvidas em paralelo aos conteúdos acadêmicos durante a educação básica. Todas são importantes, mas destacamos e explicamos as mais populares e diferentes. Se liga:

Encarando as emoções 

A educação socioemocional faz parte da competência “autoconhecimento e autocuidado”. Na prática, a criança cria a capacidade de reconhecer e validar os próprios sentimentos e emoções, além de fazer o mesmo com os outros. “Esse é um grande passo para a construção de uma educação mais integral e humana. Ter um futuro em que as pessoas se escutam mais signi ca ter relações mais saudáveis”, acredita Joana London, gerente pedagógica do Laboratório de Inteligência de Vida, o LIV.

Além da matemática 

Se você acha que a educação financeira veio para ensinar às crianças sobre taxas de juros, in ação, aplicações financeiras e impostos, está certo. Mas não é só isso: a nova competência também contextualiza situações do cotidiano e valoriza hábitos comuns como economizar água e energia elétrica, e a preservação do meio ambiente, por exemplo. “A diferença dela e da matemática tradicional é que conseguimos dar significados a conceitos teóricos importantes”, explica Luís Carlos de Carvalho, mestre em educação matemática e professor do fundamental no Colégio Santa Maria. “O tema ainda favorece o trabalho interdisciplinar em dimensões culturais, sociais, políticas, econômicas e, sobretudo, as questões relacionadas ao consumo, trabalho e dinheiro”, acrescenta.

Aprendendo inglês pra valer 

A segunda língua que antes era obrigatória a partir do Ensino Fundamental II, agora passa a ser a língua inglesa, que foi denominada franca, ou seja, uma língua que todo mundo precisa para se comunicar no mundo. Por isso, muito além de aprender a ler e escrever em inglês, seu filho vai desenvolver todas as competências da língua, incluindo interpretação, por exemplo. Na prática, as crianças têm aulas de inglês a partir do 5º ano, mas muitas escolas apostam na língua desde cedo. “É uma tendência que favorece o desenvolvimento das habilidades de comunicação”, comenta Roberta Bento. “Oferecer a oportunidade de aprender outra língua é garantir um futuro de melhore oportunidades, além de um presente mais rico em experiências e de riqueza cultural”, completa Taís. 

Quem ensina também aprende 

E tem mais: é extremamente importante que vocês, pais, procurem saber como o corpo docente é preparado e atualizado para acompanhar as novidades – como é o caso das competências da BNCC, que devem ser aplicadas até 2020. Segundo dados de acompanhamento do Mathema, que presta assessoria em diversas escolas e oferece cursos de formação para pro ssionais da área de ensino, professores que participam de cursos de formação continuada apresentam resultados positivos na sua própria aprendizagem e, consequentemente, na formação dos estudantes. “Para que isso aconteça, é preciso investimento em estrutura e valorização dos professores, para que eles tenham tempo para se dedicarem a entender a BNCC, por exemplo, e pensar de forma criativa a sua implementação”, completa Roberta Bento. 

Papo reto 

Procurar saber como os professores são preparados para ensinar o seu filho é superimportante. Fizemos um checklist com a ajuda de Maria Ignez Diniz e Cristiane Chica, do Mathema, para aquele bate-papo com a coordenação 

– Como é feita a seleção de professores e coordenadores? 

– Qual a exigência mínima de formação e experiência? 

– Os professores têm cursos além da graduação em pedagogia? 

– A escola promove ou incentiva a formação continuada para a equipe docente?

Direto ao ponto

– Localização da escola… Afinal de contas, o tempo de brincar, dormir, fazer o dever de casa e ficar em família é muito precioso para ser gasto no trânsito 

– Entenda a proposta pedagógica… E veja se ela tem coerência com os valores que vocês prezam dentro de casa 

– Visite-a durante o período de aulas… E aproveite para ficar de olho na rotina e no comportamento das crianças, professores e funcionários 

– Converse com pais de estudantes… Que já fazem parte da turma e ouça sobre suas experiências 

– Explore a metodologia… E se for diferente do que vocês têm em casa, pense que ela pode complementar ou trazer novas referências para a vida do seu filho

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