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Escritor fala sobre benefícios do corpo em movimento desde a gestação: “O trabalho começa no útero”

Esse bate-papo vai te mostrar que qualquer estímulo, desde a gestação, faz toda a diferença na vida do seu filho

Marina Paschoal

Marina Paschoal ,Filha de Selma e Antônio Jorge

Ivaldo Bertazzo (Foto: Kiko Ferrite)

Fomos recebidos pelo coreógrafo Ivaldo Bertazzo, filho de Angelo e Iracema, e educador durante uma manhã de terça-feira, na escola do Movimento, em São Paulo. Autor do livro “Fases da Vida – da gestação à puberdade”, ele se dedicou a estudar o potencial psicomotor do ser humano ao longo de 40 anos, e nos deu uma palhinha de tudo que aprendeu durante uma conversa enriquecedora. Além disso, Ivaldo nos convidou para sentir na pele (literalmente!) como tudo isso funciona em uma aula do Método Bertazzo.

Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre tudo isso que você aprendeu ao longo desses anos?

IVALDO BERTAZZO: Eu sou um professor do movimento e, aos poucos, fui estudando o desenvolvimento motor. Isso trouxe muitos ganhos para o meu trabalho, que é feito com adultos. Mas, se a gente parar para pensar, nós como espécie humana fazemos parte de um desenvolvimento ao qual pertencemos a uma rede. Não entender como a criança se organiza após o nascimento e as dificuldades que ela enfrenta são hiatos que depositam em nós fragilidade e que vão nos acompanhar para o resto da vida. Se você vê dificuldades na fala de um adulto, por exemplo, isso poderia ter sido atendido na infância. O livro foi pensado para replicar esse conhecimento para arte-educadores.

O que significa elaborar uma psicomotricidade?

IB: É construir uma identidade que não é só psíquica, é motora também. Ou seja: eu vou criando bases que me dão segurança para eu sentir aquilo. É como se eu tivesse uma percepção do meu corpo e ele conversasse comigo, é bem simples.

Mas se é bem simples, por que não aprendemos isso durante a infância?

IB: Isso. Nos meus projetos sugeri uma sala de psicomotricidade nas escolas. Mas não consegui colocar em prática. Parece que eu queria mexer no ensino formal, mas não é isso! Só gostaria de ajudar o professor para que ele não tenha um aluno hiperativo. Muitas vezes a agressividade da criança é um mal-estar que reside no corpo dela, então ela age desse maneira querendo mostrar: “Olha, eu não estou dando conta”. É uma angústia. Se ela socialmente vem de um esquema familiar com conflitos, isso se manifesta no corpo dela.

Levando isso em consideração, quanto mais cedo esses estímulos começarem, melhor. É isso?

IB: Exatamente. Trabalhar tudo isso ajuda a construir um intelecto, uma percepção de quem você é no mundo – e aqui quero dizer se destacar como potencial de identidade, de individualidade. Tudo isso começa desde muito cedo, sendo possível iniciar quando o bebê ainda está no útero, onde os primeiros movimentos do corpo acontecem. Além disso, é importante reservar momentos para fazer exercícios de estímulos pré-natais, que ajudarão a estabelecer o vínculo afetivo. Falar com o bebê, alternar a exposição de luz na barriga e deitar de lado ou de costas, são alguns exemplos.

Ivaldo durante a aula (Foto: Kiko Ferrite)

No livro você dedica um capítulo inteiro para falar sobre essa relação. Como é isso na prática?

IB: Primeiro, imagine que a gestação acontece dentro de um útero, onde temos um invólucro das paredes uterinas, que abraçam o bebê, e uma flutuação no líquido amniótico, do qual ele também bebe. A medida que uma criança nasce, ela se submete a um sofrimento que é agravado com a gravidade, que achata o corpo dela e causa um sufocamento respiratório. O choro às vezes é porque ela inspira, sente as costelas expandir – e isso é assustador. Imagina um bebê, que nunca passou por nada disso, sentir essas coisas? Ele tem angústias de sufocamento e o contato pele a pele da mãe é capital, porque ele ainda está na fase simbiótica com a mãe. A criança precisa da relação com o olhar da mãe e da sonoridade da voz, assim como acontecia no útero. Esses estímulos são superimportantes.

Essa conexão de mãe e bebê desde o útero tem relação com o amor que eles levam para a vida?

IB: Eu acho que, como a gente já tem informações fundamentais que vêm de Freud, toda essa fase da amamentação e do processo do desmame é muito forte. Então o elo após o desmamar é o olhar, a voz. Por isso que precisamos desenvolver isso antes, ainda durante a gravidez. E é muito violento quando você se desprende de uma ação que te organiza motoramente. Então sim, a conexão será para o resto da vida, mas serão processos a serem enfrentados.

Engatinhar, por exemplo, quais os estímulos que a criança sofre nessa etapa?

IB: O engatinhar, além de muitas coisas, estimula os membros a funcionarem como uma unidade de coordenação. O bebê que pula essa etapa não tem o peso da cabeça trabalhado nos músculos cervicais, por exemplo. E hoje isso é ainda mais grave devido ao uso precoce de celulares e tablets. Não é uma crítica à tecnologia, ela é muito necessária nesse mundo novo, mas como a gente preenche esse tempo que a criança se envolve com eles usando estímulos ao mesmo tempo? Existe uma inércia no sistema de educação que não vê o psicomotor como fundamental para a saúde humana.

Marina Paschoal, editora da revista, e Ivaldo (Foto: Arquivo Pessoal)

E como tudo isso, essa prática, favorece a vida adulta e o futuro dessa criança?

IB: Favorece o corpo virar um instrumento de comunicação e uma ferramenta de ação para diferentes atividades. O psicomotor te permite ser um bom cozinheiro, jardineiro ou marceneiro. A prática ajuda o indivíduo a construir uma capacidade para se articular com o mundo – e isso é diferente de ter autoestima, que é algo interior, uma revelação para o seu eu. A gente precisa ajudar essa pessoa a crescer ensinando alguma coisa para ela, e não só massageando o ego para ela se sentir bem.

Um dos seus capítulos tem o nome de “brincadeira é coisa séria”. Por quê?

IB: Brincar e jogar são atividades que ensinam a criança a utilizar o corpo de forma coordenada, em diferentes ações. Estimular as sensações e percepções é fundamental para o desenvolvimento dela. Por isso, esse tempo que os pais se dedicam ao filho para se desenvolver, por meio de brincadeiras, é fundamental principalmente na fase entre 3 e 5 anos, que é um período crucial até que ela chegue à escrita.

E qual é o papel da narrativa na questão de prender a atenção da criança durante a brincadeira?

IB: É muito a questão fonética: como a palavra se organiza, como eu falo, como eu organizo o dental da criança com a palavra – tudo isso aliado ao movimento. Organização da palavra mexe muito com o cérebro. Não devemos falar “carrinho”, por exemplo, mas sim a palavra “carro”, sem modificar e criando uma imagem para aquilo que está sendo dito.

Qual a sua dica para que os pais aproveitem ao máximo esse tempo de brincadeiras pensando no desenvolvimento do filho?

IB: Antigamente nós tínhamos mais tempo livre para nos dedicar a isso – principalmente as mulheres, que ainda não eram tão presentes no mercado de trabalho. Por isso, é importante que nos momentos de lazer os pais programem os processos e não só fiquem no sofá vendo a criança brincar sozinha. A gente é muito preguiçoso, dá o celular pra ela e pronto. Devemos nos envolver com nossos filhos, eles querem companhia, estar do nosso lado.

Então a participação da família nesses momentos faz toda a diferença!

IB: A questão da família é a seguinte: você tem filhos para que também crie modificações na sua vida, e não só adaptá-los a você, induzindo-os a serem como você é. É preciso mudar seus hábitos e criar situações novas, como por exemplo, caminhadas aos fins de semana – situações motivadoras que a criança vai se integrando e colocando seus gestos no que a vida impõe e necessita. Você tem que modificar seus hábitos enquanto família.

Para você, família é tudo?

IVALDO BERTAZZO: É uma parte fundamental que vai construir o meu jeito de viver, como eu me relaciono com as coisas e com o mundo. A família é o ponto de partida para eu me encontrar nesse mundo, algo que não podemos abdicar. Somos seres sociais, mas aprendemos primeiro em casa o que vamos replicar no mundo socialmente.

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