Família

Mãe conta como é possível ter uma boa relação com o ex-marido pelo bem da filha

O amor era tanto, que foi triplicado e provou que ultrapassa qualquer barreira, mesmo a biológica, para se tornar incondicional

Marina Paschoal

Marina Paschoal ,Filha de Selma e Antônio Jorge

Conheça a história da Família Parada (Foto: Thalita Castanha)

Uma construção familiar, no mínimo, fora do comum – e muito, mas muito divertida e amorosa. Assim é a família de Thelma Parada, nossa embaixadora, mãe biológica de Guilhermina e madrinha (ou, como ela diz, mãe de coração) de Juliane e Gabriela. A casa, que fica na Mooca, em São Paulo, nunca está vazia. Além delas, circulam por lá diariamente Everton, que é pai biológico de Guilhermina e ex-marido dela, a mãe biológica de Juliane, a avó Sueli, que é mãe de Thelma, e uma funcionária do lar. Ufa! 

Mas, antes de falar sobre a rotina da família, precisamos voltar alguns anos nessa história. Thelma é a filha mais velha e perdeu o pai muito cedo. Por conta disso, Sueli, mãe dela, tinha como rede de apoio uma babá, a Fátima. “Ela era minha segunda mãe. Quando ela engravidou eu meio que obriguei que ela me desse o cargo de madrinha do bebê. Foi assim que eu batizei a Juliane, minha primeira afilhada”, Thelma conta. Não foi muito diferente com Gabriela, pouco tempo depois, que é prima biológica dela. “Eu sempre tive uma ligação muito forte com elas, desde bebê. Fui uma madrinha muito presente. Elas ficavam comigo de férias, feriados e fins de semana desde pequenas”.

O relacionamento foi amadurecendo conforme as coisas foram acontecendo na vida de Thelma, que se formou, fez especialização, mestrado e doutorado, além de se casar com Everton. Depois de 8 anos de relacionamento, ela entendeu que ser madrinha era bom demais, mas que ela poderia ser mãe de um bebê dela também. “Sempre tive esse instinto maternal, mas para ter filho biologicamente eu demorei, porque não sabia se queria mesmo ter”. Muito esforçada e focada na carreira, ela sempre adorou ficar no meio das crianças e matava a vontade com as afilhadas. Até que um dia pensou: “Já que é pra ser mãe, vou ser mãe de um filho meu!”.  

O sonho tão (in)esperado 

Thelma e Guilhermina (Foto: Thalita Castanha)

E foi preciso apenas um mês sem anticoncepcional para que o positivo chegasse. “Eu costumo brincar que a Guilhermina estava me esperando lá no céu”, ela conta. Mas a notícia só chegou em Juliane e Gabriela depois de três meses de gestação – e as reações foram as melhores. “Elas ficaram muito felizes! A Gabi, que é toda amorosa, fez até um diário para a bebê. Elas já eram grudadas comigo, aí ficaram ainda mais”. Naturalmente, com o nascimento da caçula, Ju e Gabi começaram a frequentar mais (e durante mais tempo) o apartamento de Thelma. “Elas sempre tiveram coisas delas na minha casa e quando fui perceber, elas já tinham ficado de vez!”. 

Sempre cabe mais um (ou dois) 

Nos anéis, os nomes das meninas (Foto: Thalita Castanha)

Com a mudança definitiva de Juliane e Gabriela, a casa e a família finalmente ficaram completas. “Elas se chamam de irmãs, mas a Guilhermina sabe que elas são irmãs do coração”, conta Thelma, que é chamada pelo nome pelas mais velhas, mas que leva o título de “mãe” quando o papo é entre as meninas. 

Além da chegada delas, nesse meio tempo Thelma e Everton se divorciaram. “Entendemos que o casamento acabou, mas a família não. A Guilhermina continua tendo pai, mãe e família dos dois lados”, ela acredita. E é com esse pensamento que eles convivem, quase que diariamente, com a presença dele dentro de casa. E o dia lá começa cedo: Thelma faz seus exercícios, enquanto Juliane, Gabriela e Guilhermina se arrumam para a aula. Ju estuda educação física e Gabi, psicologia. As duas fazem estágio e no final do dia, Everton aparece para o jantar, para dar banho e colocar a filha para dormir. Fátima, a mãe de Ju e eterna babá de Thelma, dorme lá pelo menos uma vez por semana. Fora isso, a avó Sueli é presença marcada o tempo todo.

As regras da casa 

Apesar de não serem biologicamente uma família, todas as meninas respondem à Thelma como mãe. Isso significa que ordem, disciplina e permissão fazem parte dessa relação. “Tento ser o mais justa possível com essa tríade, as regras e os valores são os mesmos, independente da idade”. Por isso, da porta pra dentro dois lemas devem ser seguidos: 1. Quem faz, faz para si; 2.Você é capaz. “São valores que aprendi com a minha mãe e faço questão de passar para elas”. Isso, na prática, significa que ninguém as obriga a estudar ou escovar os dentes, por exemplo. Mas elas sabem as consequências – que são individuais – de não fazê-los. “Costumo dizer que eu mostro o caminho certo, mas não posso fazer por elas. Então, espero que elas vão atrás do que querem e façam mesmo, porque elas são capazes, e eu acredito nelas”. 

Amor é amor 

O clima do lar é uma delícia, com muita alegria e risadas. É nítido o objetivo comum de que essas meninas sejam felizes, independente do caminho que tomarem. E que o que Thelma recebe em troca é muito amor e gratidão. “Minha casa é meu porto-seguro. Sei que lá sempre fica tudo bem, a família que eu escolhi é meu ponto de paz”, define Gabriela. E para Juliane, não é muito diferente. “A gente se entende e, acima de tudo, nos amamos muito, não consigo nem explicar! É muito intenso o que a gente vive”, ela conta. Para a mãe, não existe outra definição para tudo isso a não ser o amor. “Sou a prova de que o amor de verdade não vem só dos pais. Eu não sou mãe biológica delas, mas o meu amor é incondicional”. 

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