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Novembro roxo: também precisamos cuidar das mães de bebês prematuros

As mães de bebês prematuros também precisam de atenção especial, pois têm de enfrentar uma situação inesperada no momento mais frágil de sua vida

Jennifer Detlinger

Jennifer Detlinger ,Filha de Lucila e Paulo

A prematuridade está cada vez mais frequente (Foto: Getty Images)

São poucas as mães que pensam na possibilidade de o seu filho nascer prematuro. Mas esta é uma realidade não tão distante no Brasil. Prematuro é todo o bebê que nasce com menos de 37 semanas de gestação. Segundo dados do Ministério da Saúde, mais de 300 mil bebês nascem de forma prematura todos os anos no Brasil. Isso significa mais de 30 partos de prematuros por hora.

De acordo com a ONG Prematuridade.com, o nascimento prematuro é a principal causa de mortalidade infantil até 5 anos de idade em todo o mundo. Já no Brasil, a cada 30 segundos, um bebê morre em consequência do parto antecipado. Só esses números por si já deveriam trazer mais luz e atenção para a temática da prematuridade.

A campanha Novembro Roxo surge justamente com o intuito de mostrar os perigos e cuidados que devemos tomar caso nos tornemos vítimas desse tipo de parto de risco. Os avanços da medicina indiscutivelmente trazem uma maior expectativa de sobrevivência ao prematuro, porém o nascimento de bebês antes da sua completa gestação (seja por causas externas ou não) precisa de mais diálogo e atenção por parte de órgãos públicos, população, imprensa e até mesmo nas redes sociais.

Cuidando das mães de prematuros

“Fiquei dois dias internada antes de ter que ser submetida a uma cesariana de emergência, pois minha pressão chegou ao pico de 22/14 devido à pré-eclampsia que tive. Chiquinho nasceu de 30 semanas (7 meses), pesando 1,500 kg e medindo 41 cm no dia 15 de novembro de 2018 mas só pude vê-lo após o parto 2 dias depois, pois também tive de ficar internada na UTI. Todo o estresse me gerou falta de leite (nunca consegui amamenta-lo), uma segunda cirurgia que precisei fazer com 9 dias depois da cesárea, e um trauma pessoal que venho tratando com acompanhamento psicológico até hoje”, relata Marina Barbieri, roteirista, escritora e mãe de prematuro.

As mães de bebês prematuros extremos também precisam de atenção especial, pois têm de enfrentar uma situação inesperada no momento mais frágil de sua vida. Por isso, o atendimento de um psicólogo pode ser de grande ajuda nessa fase, até porque alguns bebês chegam a ficar internados por períodos longos.

Talvez você se culpe pelo estado do filho, associando o nascimento antecipado a alguma postura inadequada durante a gestação – alimentação incorreta, estresse no trabalho, brigas com o marido etc. Esses sentimentos podem até desencadear uma depressão pós-parto e fazê-la pensar que qualquer um pode cuidar melhor do bebê do que você. Acima de tudo é importante respirar e aceitar ajuda. Não é culpa de ninguém. A situação é difícil e você precisa ter paciência, principalmente com você mesma. Algumas UTIs adotam o Método Canguru, que permitem que você tenha um contato mais próximo com o bebê, ficando com ele sobre o peito durante algumas horas por dia.

(Foto: Reprodução/Instagram/@amarinabarbieri)

“Tive de esperar 9 dias para poder pegar meu filho no colo pela primeira vez. Vê-lo tão pequeno e indefeso através de uma caixa de acrílico ligado a fios e respiradores foi a pior experiência da minha vida”, conta Marina.

Talvez você se culpe pelo estado do filho, associando o nascimento antecipado a alguma postura inadequada durante a gestação – alimentação incorreta, estresse no trabalho, brigas com o marido etc. Esses sentimentos podem até desencadear uma depressão pós-parto e fazê-la pensar que qualquer um pode cuidar melhor do bebê do que você. Acima de tudo é importante respirar e aceitar ajuda. Não é culpa de ninguém. A situação é difícil e você precisa ter paciência, principalmente com você mesma. Ter um filho prematuro já é uma situação delicada por si só, e os conhecidos, amigos e familiares que mais deveriam apoiar e ajudar os pais, às vezes são justamente os que mais pisam na bola e acabam falando ou perguntando a coisa errada, e mesmo não sendo por maldade, aquela frase ou palavrinha fora de hora acaba machucando a mãe (e o pai também, é claro) de um bebê prematuro.

Marina Barbieri fez uma lista de 6 coisas que alguém nunca deve dizer para uma mãe de prematuro  após o filho Francisco nascer de 30 semanas e ele ficar por 85 dias numa UTI Neonatal:

  • “Quando ele(a) vai sair da UTI?”

Bebês prematuros, principalmente prematuros extremos, tendem a ficar meses na uti neonatal. E cada dia é extremamente desgastante para a mãe que incansavelmente permanece a todo o momento ao seu lado. Ela, mais do que qualquer outra pessoa, não vê a hora da tão desejada alta e se questiona TODOS OS DIAS quando esse dia chegará, mas nem ela e nem os médicos tem essa resposta fácil, pois cada bebê se desenvolve e responde de uma forma única. O bebê prematuro precisa de tempo e calma para vencer seus desafios pessoais. Ele mata um leão por dia e precisa viver um dia de cada vez. É necessário muita calma e paciência.

A previsão da alta vem com uns 2, ou 3 dias de antecedência, e muitas vezes pode até ser suspensa por algum motivo.

A mãe detesta ter que responder “não sei” para cada pessoa que a questiona isso. Ela não suporta nem dar essa resposta para ela mesma. A frustração de não saber quando seu filho irá para casa é uma agonia sem fim. Então não a lembre desse sentimento que ela só quer esquecer.

Troque essa pergunta desagradável por “como está o seu filho?”, assim a mãe sentirá que ela pode se abrir com você e se houver alguma previsão de alta ela com certeza te contará.

  • “Ele(a) vai ter alguma sequela?”

A prematuridade é extremamente delicada e requer muitos cuidados. Tanto durante os dias de uti quanto em casa. Mas ela não é uma doença. A maioria dos bebês prematuros se desenvolvem normalmente. Há bebês que passam por intercorrências, infecções e doenças que infelizmente geram sequelas, mas isso não é um a regra geral.

Bebês a termo (que nascem no tempo certo) também podem apresentar sequelas irreversíveis, mas ninguém pergunta isso para uma mãe de bebê a termo, então porque perguntar para uma mãe de prematuro?

Para a mãe, seja de bebê a termo ou de prematuro, o seu filho é perfeito.

(Foto: Reprodução/Instagram/@amarinabarbieri)

  •  “O filho da minha vizinha nasceu prematuro mas morreu.”

Isso até parece brincadeira, mas é inacreditável a quantidade de pessoas sem noção e maldosas que falam isso para uma mãe.

Os dias na uti são muito incertos. Principalmente no começo. A mãe sabe dos riscos que o seu filho corre. E a morte é o maior deles. Mas ela não gosta nem de pensar. Ela sempre acredita que o seu filho vai conseguir. Então conte histórias positivas, de superação, de milagres, de finais felizes. É isso o que ela precisa ouvir. São essas as histórias que importam. Nunca tire a esperança de uma mãe. Você não tem esse direito.

Dê força, esperança e apoio. Ou é melhor não dar nada.

  • “Ele tem cara de prematuro, né?”

Nunca entendi muito bem o que é cara de prematuro, mas sei que essa expressão tá longe de ser um elogio. É como se a pessoa estivesse falando que o bebê daquela mãe é feio. E vamos combinar que feio não é bebê prematuro, mas sim o interior de uma pessoa que fala um absurdo desses para uma mãe.

Bebês prematuros são pequenos, são magrinhos, às vezes enrugadinhos, outras vezes quase transparentes, mas eles também são guerreiros, são corajosos, são determinados, e claro, aos olhos das mães, lindos em todas as fases. E essa é a única opinião que importa.

  • “O bebê da Fulana já engatinha/anda/fala/etc. O seu não está atrasado, não?”

Isso não deveria ser dito para mãe NENHUMA. Comparar bebês além de ridículo é muito cruel. Bebês não estão em uma competição para saber quem faz o quê primeiro. Eles tem seu próprio tempinho de desenvolvimento. Eles são seres humanos, e da mesma forma que você não é igual a sua vizinha, os bebês também não são entre si. Então não importa se o bebê da sua conhecida já dá um duplo twist carpado pra trás com 10 meses ou já fala 4 línguas com 1 ano de idade, não compare bebês.

E isso principalmente se o bebê for prematuro. Pois bebês prematuros possuem a idade cronológica (a idade que de fato nasceram) e a idade corrigida (a idade que teriam se tivessem nascido no tempo certo).

(Foto: Reprodução/Instagram/@amarinabarbieri)

O desenvolvimento do bebê prematuro é de acordo com a sua idade corrigida, e não com sua idade cronológica. Pois ele precisou passar muito tempo aqui fora desenvolvendo seu corpinho, seus órgãos e suas habilidades, como respirar, sugar e se aquecer, que deveriam ter sido adquiridas dentro do útero. Ele não nasceu sabendo fazer o que bebês a termo já nascem sabendo. Então um bebê, por exemplo prematuro de 7 meses, tem um desconto de 2 meses em sua idade corrigida. Sendo assim aos 5 meses de idade cronológica o seu desenvolvimento será igual o de um bebê a termo de 3 meses. E ele não é um bebê atrasado por isso. Não se esqueça que ele nasceu quando ainda deveria estar na barriga.

  • “Você é muito chata com os cuidados com o seu bebê.”

Só uma mãe de uti sabe o que é passar por dias, semanas ou meses praticamente vivendo dentro de uma uti. Só ela sabe o que é ver seu bebê todo cheio de tubos, fios e aparelhos conectados a ele. E depois que ele sai da UTI, a última coisa que essa mãe quer é que ele corra o menor risco de voltar para lá. Então todo o cuidado que ela tomar com a saúde de seu bebê não é chatice, mas sim necessidade.

Bebês nascem com a imunidade muito baixa, justamente pelo seu sistema imunológico ainda estar em formação. E bebês prematuros ainda mais. Sendo assim, se o cuidado com um bebê a termo já deve ser alto, com um bebê prematuro deve ser ainda mais.

Caso o bebê adoeça e volte para a UTI quem irá se desgastar e sofrer novamente com isso será a mãe dele, e não você. Então até mesmo se a mãe pedir para você tomar banho e escovar os dentes com álcool em gel antes de tocar no bebê dela, você respeita e faz. Ou então é melhor que nem esteja no convívio daquela família.

Lembre-se sempre: se o que você tem a dizer não for necessário ou agradável, não diga nada.

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