Culpa, não! Passar por um parto cesárea não te torna menos mãe

As cicatrizes emocionais podem ser muito mais profundas do que o corte físico em si. Estudos mostram que para muitas mulheres passar por esse parto traz sentimentos negativos, mas não precisa ser assim

Resumo da Notícia

  • O momento do parto é cheio de expectativas que não condizem com a realidade
  • O melhor parto para você é aquele que te faz sentir segura e pensa na sua saúde
  • Não se culpe ou envergonhe, a cesárea pode ser necessária em algumas situações

Depois de 19 horas de trabalho de parto e uma eventual cesárea, Kristen Kjerulff, professora de ciências da saúde pública e obstetra e ginecologista na Penn State College of Medicine, na Pensilvânia, Estados Unidos, disse: “Eu senti como se tivesse falhado, enquanto as mulheres que eu conheço que conseguiram dar à luz via parto normal ficaram ligeiramente orgulhosas”. Por isso, ela decidiu se aprofundar no assunto, realizando um estudo a partir da própria experiência.

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A saúde emocional das mães fica fortemente abalada (Foto: Getty Images)

Os resultados, que foram publicados em 2018 no jornal Birth, revelaram diferentes efeitos psicológicos entre as mulheres que deram à luz naturalmente, via cesárea planejada, e por uma cesárea não planejada. Assim como a Dra. Kristen suspeitava, aquelas que tiveram partos naturais reportaram se sentir orgulhosas em maior quantidade do que as mães dos outros dois grupos.

Além disso, quase 25% das mulheres que foram submetidas a uma cesárea não planejada se sentiram desapontadas pela experiência de parto, e mais de 15% disseram se sentir fracassadas. Elas também se mostraram mais propensas a se sentir tristes, traumatizadas e irritadas. Mas por que um procedimento tão comum causa, com frequência, todo esse sofrimento? Uma explicação é que alguns deles ocorrem pelas razões erradas.

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A taxa de cesárea no Brasil, por exemplo, é de 2,9 milhões anualmente, representando 55,6% do total de acordo com o Ministério da Saúde, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem como índice razoável de 10 a 15%, ou seja, apenas nesses casos haveria real necessidade de fazer o procedimento cirúrgico. Embora vários hospitais estejam trabalhando para reduzir esses números, ainda há muito a ser feito.

Um forte motivo para que as mulheres que deram à luz via cesárea se sintam inferiores é o fato da cultura popular enfatizar que a vida “natural”, desde comer alimentos orgânicos até correr descalça, é a melhor. A especialista afirma que essa questão faz com que o parto natural seja visto como altamente superior. Mas é preciso deixar uma coisa muito clara: natural não significa seguro. Amy afirma que sem a obstetrícia moderna, uma em cada quinze mulheres americanas teriam risco de morrer durante o parto, e 7% de todos os bebês não sobreviveriam a ele.

Nos países de terceiro mundo atualmente, 60% dos bebês morrem por conta de partos interrompidos e 20% de partos insuficientes, coloca a médica. Para esses casos, as cesáreas são, sem sombra de dúvidas, a opção segura. Mesmo assim, a ideia da cesárea como o “caminho mais fácil” persiste. Tanya Ludlow conta que a mensagem que recebeu da comunidade que vive na Carolina do Norte foi que “mulheres que passam por cesáreas não tiveram um parto ‘real’”.

Essa perspectiva é amplamente difundida. Depois do nascimento do primeiro filho, Kate Winslet optou por mentir, dizendo que tinha dado à luz naturalmente. Mais para frente, ela justificou a decisão: “Estava completamente traumatizada pelo fato de não ter parido naturalmente”. Esse medo materno se estende para milhares de mães, que se sentem traídas e como se tivessem roubado esse rito de passagem.

Expectativa x realidade

Mesmo assim, se o sentimento de fracasso viesse apenas da pressão social internalizada para realizar o parto natural, nós veríamos os mesmos níveis de decepção em ambos os grupos: cesáreas planejadas e imprevistas. Mas não é isso que aponta o estudo realizado pela Dra. Kristen. As mulheres que sabiam com antecedência que fariam o procedimento médico se mostraram muito mais satisfeitas com a experiência do que as que precisaram por emergência.

Dois relatórios recentes mostram que as cesáreas de emergência estão associadas com maiores taxas de depressão pós-parto. Há algo no fato do procedimento ser improvisado e assustador, que também envolve a não opção de escolha, levando a maiores chances de ter emoções negativas. Os psicólogos dizem que pode estar relacionado com não ter as próprias expectativas atendidas. Principalmente, quando as mulheres fazem o plano de parto, pois podem ficar tão presas nessa visão que a cesárea parece uma derrota.

Vários trabalhos confirmam que ter um plano de parto detalhado e um parto que não siga o que foi definido é a receita para o desapontamento. Algumas mulheres até chegam a se questionar: “Se eu tivesse tomado decisões diferentes mais cedo, poderia ter prosseguido de outra forma?”. Uma pesquisa apontou que 26% dos casais suspeitam que eles causaram a necessidade do parto cesárea, por motivos como trabalhar muito pesado nesse período.

Angelica Houston sabe bem disso. Após o nascimento do filho, ela ficou remoendo: “Eu não fui forte o suficiente. Meu corpo não foi bom o suficiente”. Somado às limitações físicas, o sentimento de impotência veio. Não à toa, mais pacientes que enfrentaram a cesárea marcam a opção: “Eu senti que perdi o controle da minha vida” nos questionários de depressão pós-parto.

Elas precisam ter voz

A cesárea é necessária em alguns casos (Foto: Shutterstock)

Há formas de se sentir mais resiliente em cada estágio da gravidez, trabalho de parto, parto e recuperação, de acordo com a obstetra Gladys Tse. Ela recomenda começar com um plano de parto flexível, e fala para as pacientes: “Nós estamos todas prontas para um parto natural, mas caso seja necessário, gostaria de saber o que aconteceria se fosse preciso uma cesárea”. Ela encoraja uma visão realista para saber que ter um plano de parto é parecido com ter um “plano do clima” para o dia do casamento. Você pode desejar um céu azul, mas não deve esperar por isso.

Quando o parto não segue como planejado, os médicos devem, sempre que possível, empoderar as mulheres, oferecendo opções e tempo. Uma mulher deve ter a chance de perguntar o motivo do médico estar recomendando uma cesárea, seguido de uma resposta detalhada e de alguns minutos para falar sobre isso com seu parceiro, parteira ou qualquer outro membro da rede de apoio.

Além disso, há práticas após a cesárea que podem ajudar a evitar decepção. Um segundo estudo que a Dra. Kristen ajudou a realizar, publicado no Birth, apontou que quando as mulheres que passaram por uma cesárea viram os recém-nascidos logo na sequência, seguraram, e amamentaram, reportaram “uma experiência de parto significativamente mais positiva” – tanto quanto a de mulheres que tiveram parto normal.

Uma palavra de encorajamento pode fazer toda a diferença. Alguns mantras também podem espantar as emoções negativas. A obstetra Gladys sugere repetir mensagens empoderadoras, como “Estarei melhor na semana que vem do que estou agora” e “Irei retomar a força rapidamente”. A internet também pode ajudar, com grupos no Facebook, ou até movimentos e hashtags no Twitter e Instagram.

O mais importante é respeitar o seu tempo e limites, mantendo a certeza que seu corpo fez um ótimo trabalho. Se você ainda não consegue acreditar nisso, seja paciente consigo mesma. As mulheres que sofreram com a decepção por conta do parto divulgaram três fatores que mudaram definitivamente suas perspectivas: o passar do tempo, escutar diferentes histórias de mulheres que se submeteram a uma cesárea e focar no fato de que esse procedimento as ajudou a evitar resultados piores.

Angelica Houston, que inicialmente sentiu que havia perdido a oportunidade de um “parto real”, eventualmente chegou lá: “Minhas filhas são saudáveis, e talvez não tenha sido ideal, mas isso não me torna menos mulher”. Nem ela, nem você.

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