Saúde

Como deixar de amamentar: dicas para um desmame mais tranquilo e sem traumas

A fase em que o bebê deixa de mamar no peito gera muito medo e ansiedade para os pais

Jennifer Detlinger

Jennifer Detlinger ,Filha de Lucila e Paulo

(Foto: Getty Images)

Que mãe não tem dúvida na hora de amamentar? Como posicionar o bebê, o momento da pega, como saber se ele está sendo nutrido e se desenvolvendo bem… E quando essas perguntas passam, o desmame pode ser tão complicado quanto o início da amamentação. A fase em que o bebê deixa de mamar no peito gera muito medo e ansiedade para os pais. É comum pensar que a criança possa ficar desnutrida ou sinta falta do vínculo afetivo entre mãe e filho que foi construído através da amamentação. 

Como (e quando) deixar de amamentar?

Antes de qualquer coisa, saiba que para responder a essa pergunta não existe uma fórmula secreta ou uma regra geral. Cada mãe vai fazer o desmame do seu próprio jeito. Porém, o mais importante é que ela queira parar de amamentar de verdade: “Não basta dizer que precisa parar. Porque ela não vai conseguir. A mãe transmite suas inseguranças para o bebê. É muito mais fácil quando ela tem certeza. Muitas crianças que mamam durante muito tempo, é porque a mãe não foi firme”, explica Betty Monteiro, mãe de Gabriela, Samuel, Tarsila e Francisco, psicóloga, pedagoga e escritora.

O  psicológico da mãe conta muito nessas horas. Isso vale também para a volta ao trabalho. Algumas mães costumam amamentar mesmo após o fim da licença-maternidade e não têm problema nenhum nisso.  “A importância da amamentação não é só nutritiva, é a questão emocional”, afirma Betty. Pensando nisso, só vale a pena continuar amamentando depois da volta ao trabalho se isso não for um bicho de sete cabeças. Se você amamenta sem gostar, sem poder ou quando está cansada, isso se torna um sacrifício. “Tem que ser uma hora sagrada, quando a mãe está relaxada, inteira para aquele bebê. Em circunstâncias em que ela está esgotada ou não está disposta, não faz bem para a criança”, diz Betty. Ou seja, você precisa conhecer os seus limites.

A recomendação do Ministério da Saúde, assim como da Organização Mundial da Saúde, da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Academia Americana de Pediatria, é de que a amamentação seja exclusiva até os 6 meses de vida e que o bebê seja amamentado até completar 2 anos, com alimentação complementar. “Após a introdução alimentar, que deve começar a partir dos 6 meses de idade, é interessante que o leite materno continue complementando a alimentação do seu filho até os dois anos de idade pelo menos”, explica Corintio Mariani Neto, ginecologista e obstetra, presidente da Comissão Nacional de Aleitamento Materno da Febrasgo e diretor técnico do Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros, pai de Adriana, Renata e Cassio e avô de Pedro Henrique, Alexandre e Felipe.

(Foto: iStock)

Entenda os sinais que seu filho dá

O bebê costuma dar sinais de que chegou a hora do desmame. Em meio às novidades e comidas, seu filho fica entretido e pode até perder o interesse pelo peito. O segredo é fazer tudo de maneira calma e gradativa, com você sempre se sentindo segura com a decisão. Também é importante que a decisão seja tomada junto com o pediatra para que não interfira na saúde do bebê. O desmame acontece ao substituir uma mamada por algum alimento, ou mamadeira, ou copo, dependendo da idade do bebê. Na prática, escolha uma mamada para oferecer mamadeira ou copinho em vez do peito. Quando seu filho se acostumar, vá trocando outros horários também.

Sou mãe o suficiente?

Nos últimos anos, vem crescendo o movimento pela amamentação prolongada, que significa dar de mamar por mais que 2 anos. Às vezes bem mais. A prática gera polêmica: de um lado, os defensores da amamentação apontam benefícios nutricionais e psicológicos, pois a criança cresceria mais segura, de outro, muitos pediatras e psicanalistas veem apego exagerado da mãe e exclusão do pai numa fase em que a criança deveria ganhar autonomia; no meio, as mães que escolhem amamentar uma criança maior, que até já anda, se sentem discriminadas.

Em maio de 2012, a revista norte-americana Time estampou na capa uma mulher amamentando uma criança de 3 anos, acompanhada da manchete “Você é mãe o suficiente?”. A modelo fotografada é uma das mães adeptas do “attachment parenting”, ou criação com apego, teoria desenvolvida há 20 anos pelo médico norte-americano Bill Sears. Segundo a teoria, quanto mais apego nos primeiros anos, mais autonomia e equilíbrio emocional depois. O especialista defende princípios como amamentar sempre que o bebê pedir, com livre demanda, deixá-lo dormir na cama dos pais (cama compartilhada), carregá-lo bem próximo ao corpo com o auxílio do sling e não ter uma idade limite para o desmame.

O médico especialista em amamentação pelo International Board Certified Lactation Consultant Marcus Renato de Carvalho, pai de Clara e Sophie, acredita que essa teoria vai além do aleitamento. “A filosofia da criação do apego parte do paradigma de que o ser humano é capaz e completo desde o nascimento. Os bebês não choram para nos chantagear e,sim, por necessidade”.

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Preconceito

Quando as mães decidem pela amamentação prolongada, acreditam estar fazendo o melhor para os filhos, mas precisam lidar com o julgamento de mães que não aceitam ver crianças grandes mamando. Há quem estranhe mães que amamentam crianças maiores, pois não é algo comum no Brasil. A blogueira Isabela Kanupp, mãe de Beatriz, diz não ter planejado a amamentação prolongada, mas continuou porque percebeu que o leite materno trazia benefícios para a saúde da criança. “Assim como eu não planejei a amamentação prolongada, não planejo quando ela vai parar. Enquanto está bacana para ambas as partes, continuo”, conta Isabela.

A enfermeira do grupo de aleitamento materno do Hospital e Maternidade São Luiz, Márcia Regina da Silva, filha de Maria e Joaquim, acredita que continuar amamentando o bebê depois do sexto mês garante apoio nutricional e fortalece vínculo entre mãe e filho. A enfermeira afirma que a amamentação prolongada só pode ser prejudicial se for estendida por muito tempo, quando a criança deixa de ingerir nutrientes necessários, interferindo, assim, no desenvolvimento infantil saudável.

Sem exageros

Mas, se muitos especialistas enxergam benefícios na prática, outras a acham prejudicial. O pediatra Marcelo Reibscheid, pai de Bruno e Theo, afirma que, depois dos 2 anos de idade a amamentação não traz nenhum beneficio imunológico ou afetivo. Ele diz que todos esses benefícios já foram concretizados nos primeiros 24 meses.  Para ele, a grande dificuldade das mulheres que se tornam mães é aceitar que o bebê cresceu, e o desmame pode acontecer entre os 6 meses e 1 ano de idade.

Para esses especialistas, quanto mais velha for a criança, mais complicado pode ser o desmame, tanto para a mãe, que sente falta da proximidade que a amamentação garante entre ela e o filho, como para a criança, que precisa separar-se da mãe para se desenvolver. “A separação entre mãe e bebê é muito importante para que ela seja capaz  trilhar um caminho com maior independência”, diz Neyla França, psicanalista infantil da Sociedade Brasileira de Psicanálise e mãe de Lúcia, Eduardo e Ricardo. Ele defende que o processo de desmame, iniciado aos 6 meses com a introdução dos primeiros alimentos, deveria estar finalizado com 1 ano de idade.

“Hoje em dia, existe uma confusão enorme por quem apoio a amamentação até os 2 anos de idade, pois não levam em conta os aspectos psicológicos da criança”, ressalta a psicanalista Neyla França. “Acho isso um exagero. É fundamental que a mãe vá assumindo a função dela de mulher, pois essas mamadas prolongadas coincidem com a exclusão do pai”, explica.

Além das questões psicológicas que envolvem a polêmica, há também a nutricional, outro fator que divide as opiniões dos profissionais. “No começo, o leite ainda tem papel preponderante, mas, aos poucos, vai perdendo a importância nutricional, porque a criança já retira o que precisa de outras fontes”, afirma o dr. Leonardo Posternak.

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Comer saber que o bebê está nutrido e se desenvolvendo?

O período neonatal é também o de maior crescimento, tanto em peso, comprimento, quanto em tamanho da cabeça (veja na tabela abaixo). Para dar conta de fazer o recém-nascido crescer o tanto que deve e ainda ficar protegido de inúmeras doenças, o principal cuidado nessa fase é dar a ele a melhor alimentação possível: o leite materno. Ele possui a quantidade certa de água, carboidratos, gorduras, proteínas e de elementos de defesa necessários para o bebê. O colostro, que é o leite materno dos primeiros dias após o nascimento, tem uma proporção diferenciada desses elementos para suprir a necessidade do recém-nascido nesse período. A recomendação médica é que se mantenha a amamentação exclusiva bem depois que seu bebê deixar de ser um recém-nascido, estendendo-a até o sexto mês de vida. Mas é nesse começo que ela dá mais trabalho. O corpo de um recém-nascido não é capaz de armazenar grande quantidade de energia, por isso ele tem fome em intervalos muito curtos.

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