Inclusão social: Instituto Jô Clemente explica como veste a camisa no dia a dia

INCLUSÃO: ESSA É A CHAVE PARA UM FUTURO MELHOR TANTO PARA AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA, QUANTO PARA QUEM CONVIVE COM ELAS – E TUDO PODE COMEÇAR DENTRO DE SALAS DE AULAS EM ESCOLAS REGULARES, PÚBLICAS E PARTICULARES

Resumo da Notícia

 
  • Conversamos com Roseli Olher supervisora do Atendimento Educacional Especializado do Instituto Jô Clemente
  • O Instituto Jô Clemente inclui crianças com deficiência intelectual em escolas regulares
  • O Instituto, que antes chamava APAE, foi pioneiro em diversos estudos
(Foto: GettyImages)

Foi-se o tempo em que ter uma pessoa com deficiência intelectual na família era sinônimo de aulas e escolas ditas “especiais”. Claro que elas precisam de tratamento e acompanhamento especializado e individualizado, mas isso não significa que elas devam ser afastadas de ambientes como a sala de aula de escolas regulares, por exemplo. Muito pelo contrário, aliás. Segundo pesquisa recente do Instituto Jô Clemente, antiga APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de São Paulo, incluir crianças com deficiência intelectual em escolas regulares, favorece o desenvolvimento delas em relação à autonomia, postura, comunicação, expressão, relacionamento e aprendizagem.

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E foi na prática que eles chegaram a essa conclusão. Atualmente, uma das atuações do Instituto é o Atendimento Educacional Especializado, que funciona como uma atividade extracurricular, que é feita fora do período de aula. Nesse atendimento, as crianças passam por atividades, mas as avaliações e as intervenções são individuais e personalizadas. Para explicar melhor e contar como é viver e vestir a camisa dessa causa no dia a dia, conversamos com Roseli Olher, supervisora do Atendimento Educacional Especializado do Instituto Jô Clemente e autora da pesquisa.

P&F: Primeiro gostaria que você nos explicasse sobre essa mudança do nome para Instituto Jô Clemente.

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ROSELI OLHER: A mudança de APAE (que significa Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) para Jô
Clemente era algo que já vinha sendo discutido há mais de dois anos. E muito por conta de todo o crescimento que
a APAE teve. Nós somos os pioneiros no teste do pezinho, na educação inclusiva, na inclusão profissional. Então,
foi com todo esse crescimento e essa visão que a gente mudou de assistencialismo para a inclusiva, pensando
nos direitos das pessoas com deficiência.

P&F: Foi pensando em propagar a causa então?

RO: Exatamente. A camisa realmente não servia mais em nós. Queríamos expandir esse conhecimento, transferir
o que foi adquirido ao longo de todos os anos a nível nacional e internacional. Enquanto APAE de São Paulo, nós éramos ligados a uma federação e ficávamos restritos ao município. Não podíamos agir e interferir em outros
lugares e isso deixava a gente muito preso. O conhecimento ficava somente para nós – e queríamos transferir e expandir isso. Então, a mudança também veio por causar disso, para que pudéssemos ampliar, transferir nossa tecnologia e o atendimento para outras pessoas com deficiência.

P&F: E por que esse nome?

RO: A escolha do nome foi porque a dona Jô Clemente foi a fundadora da APAE de São Paulo. Além de ter sido uma
mulher batalhadora e guerreira, que defendia e acreditava na causa. Foi uma homenagem à pessoa que construiu tudo isso.

P&F: E como você foi parar no Instituto Jô Clemente?

RO: Comecei como professora da escola especial, onde trabalhei durante 9 anos. Depois, o Instituto começou a mudar suas ações e iniciou o trabalho com comitentes na escola especial com proposta de inclusão para os alunos da educação infantil. Esse alunos foram incluídos nas creches e nas IMES. E nós, como comitentes, fomos fazendo esse trabalho.

P&F: Então sua história com eles é de longa data…

RO: No total são quase 28 anos! Em 2008, quando a diretoria decidiu pelo fechamento da escola especial em respeito à política nacional de educação especial da perspectiva inclusiva e pelo direito de garantir aos alunos participação nas escolas comuns, eu comecei a orientar e coordenar este trabalho de educação. Fiquei vários
anos orientando esses profissionais e pedagogos com esse trabalho. Em 2018, eu assumi a supervisão da educação.

P&F: Você sempre quis abraçar essa causa? 

RO: Na verdade, foi uma coisa que aconteceu por acaso na minha vida. Quando eu me formei em pedagogia, nunca
tinha passado pela minha cabeça trabalhar com pessoas com deficiência. Comecei minha trajetória procurando emprego em escolas particulares e em uma dessas, a diretora me indicou para a antiga Sociedade Pestalozzi. Acho que pelo meu jeito de falar, de me comunicar.

P&F: E não saiu mais!

RO: Eu me encantei pela causa! Gostei muito do trabalho e do atendimento. Foi aí que decidi fazer minha pós-graduação em educação especial. E essa é uma experiência que não sei nem como mensurar o prazer que é para mim.

P&F: Falando um pouco do Instituto, vocês são referência no atendimento. Qual o diferencial?

RO: O Instituto é dividido em vários setores. Tem pesquisa, o ambulatório, e a área da educação. A nossa diferença é que nossos profissionais são especialistas. E nosso trabalho é todo voltado para o crescimento, amadurecimento
e desenvolvimento dessas pessoas. Esses profissionais são formados semanalmente para que o trabalho se desenvolva cada vez melhor. Além disso, eles acreditam na causa e estudam muito para se desenvolveram enquanto
pessoa, profissional e oferecer o melhor para as pessoas que são atendidas.

P&F: Há alguns anos vocês tinham o atendimento educacional como aulas regulares e agora ele se
transformou em uma atividade extracurricular. Você pode falar um pouco sobre isso?

RO: Essa inquietude já vem há muitos anos. Enquanto nós estávamos dentro da escola especial, percebíamos que podíamos fazer algo a mais para aqueles alunos. E lá, eles não tinham a mesma oportunidade do que as outras
pessoas. Em 2008, com a legislação da política nacional da educação especial da perspectiva inclusiva, entendemos
que era o momento. Aí a diretoria decidiu pelo fechamento.

P&F: E como foi essa transição com os alunos que já estavam cursando com vocês?

RO: Não aconteceu da noite para o dia, foi um processo que durou dois anos. Durante este período, as famílias
foram acolhidas e orientadas. Nós entramos em contato com escolas para entender e verificar qual a proposta
de trabalho e a experiência. Conforme a transição foi acontecendo, eu fui acompanhando todos. A maioria
dos alunos, cerca de 98%, é da rede pública.

P&F: E foi a partir desse acompanhamento que saíram os resultados da pesquisa?

RO: Isso. Fomos percebendo a diferença de comportamento dos alunos. As pessoas que frequentavam a escola especial e passaram a frequentar o ensino comum se tornaram mais independentes, melhoraram a autoestima e comunicação – porque mesmo os que não tinham a verbal, de alguma forma, eles conseguiram desenvolver, mudaram de postura.

P&F: E como foi a reação das famílias?

RO: Elas ficaram receosas e preocupadas, porque os filhos passaram a vida toda em um espaço protegido. Então, não sabiam o que seria do filho em um ambiente em que não teriam mais aquele cuidado. Só que foi surpreendente para todos nós! Eles conseguiram se desenvolver, mostrar os desejos e inquietudes. E passaram a ser ouvidos, o que é o principal.

P&F: E de que maneira a inclusão favorece os alunos do ensino comum também? 

RO: Eles aprenderam a respeitar e lidar com as diferenças. A entender a capacidade e dificuldade dos outros. Favoreceu muito a sociedade como um todo. Na transição, para mim ficou muito claro o quão benéfico foi a inclusão deles. É um direito de todos, a lei diz isso.

P&F: E o atendimento educacional continua. Como é?

RO: O Atendimento Educacional Especializado não é substitutivo à escolarização comum, ele é um atendimento
de apoio. Os alunos vêm no Instituto duas vezes por semana, e passam por atendimento com os pedagogos. E parte do trabalho dos profissionais é a visita às escolas comuns. E essa interlocução entre os dois professores é primordial.

P&F: O que essa parceria entre os professores faz?

RO: Pensamos juntos em estratégias que atendam às necessidades dos alunos. Porque o objetivo do AEE é quebrar
barreiras que impedem que eles se desenvolvam e esse acompanhamento sozinho não se firma, ele precisa do apoio
familiar e das escolas. Trabalhamos nesse tripé: atendimento ao aluno, apoio à família e orientação às escolas.

P&F: E se esse comportamento faz diferença agora, imagina daqui uns anos… 

RO: Com certeza! A gente tem que lutar para que todos esses ganhos e conquistas não retrocedam. Porque a gente
conquistou tantas coisas com a educação inclusiva, que não podemos deixar que isso se perca. Nós estamos lutando
para que isso permaneça e estamos lutando para o futuro.

P&F: Como é acompanhar essas crianças durante anos?

RO: É muito gratificante! Vemos o aluno entrando no atendimento e se transformando. E não é um ou outro, são vários. Há 15 dias eu encaminhei uma lista de 44 alunos que estão finalizando o atendimento para a inclusão profissional. Isso é fato, isso acontece, é real e muito gratificante.

P&F: Que recado você mandaria para as famílias? 

RO: Primeiro, acredite no potencial do seu filho. Ele é capaz sim de fazer qualquer coisa, desde que seja estimulado
corretamente. E vá em busca dos direitos dele. Participe sempre do desenvolvimento do seu filho, sem a participação
da família fica muito mais difícil. Acredite no potencial dele.

P&F: Para você, família é tudo?

ROSELI OLHER: Com certeza! Sem a família a gente não caminha, não avançamos e não conquistamos o
desenvolvimento das pessoas com deficiência. A família é nossa parceira primordial no processo de desenvolvimento
dos nossos alunos. Sem a confiança no nosso trabalho fica muito mais difícil e elas são nossas parceiras,
elas confiam muito no nosso trabalho. A família é primordial.

 

 

 

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