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Ana Cardoso: “E se você fosse outra pessoa?”

Quem nunca quis, nem por um pequeno momento, ser outra pessoa? Dessa maneira seria possível ter coisas que você sempre quis, mas por algum motivo nunca teve, andar com uma turma diferente, ter um relacionamento mais amigável com os pais… Ana Cardoso, nossa colunista, conta sobre um momento de sua vida que o que ela mais queria era ser outra pessoa e viver a vida de Ana Paula, a colega mais bonita da sala. Mas será que isso realmente tornaria seus dias mais legais? Para saber, confira o texto na íntegra:
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Uma vez, numa brincadeira com meus irmãos, voltando da escola, me perguntaram se eu queria ser outra pessoa. Eu pensei bem, cocei a cabeça e respondi que não. Eu era tímida demais para admitir para os outros que eu queria ser a Ana Paula, a menina mais bonita da minha sala.
Pra começar, no nome ela já era melhor do que eu. Ao invés de Ana Emília, nome de boneca de pano, ela tinha um nome normal, daqueles que ninguém pede pra você repetir porque não entendeu direito, Ana Paula. Ainda que eu não tenha falado em voz alta, aquela verdade ressoou dentro de mim.
Se eu fosse mesmo ela, como seria? Eu andaria por aí num Alfa Romeo, com motorista só pra mim, não no Fiat 147 empoeirado da minha mãe, com todas as crianças do prédio dentro (todos sem cinto, claro, porque nos anos 80 era assim). Meu cabelo seria loiro acinzentado e grosso, preso num rabo bem arrumadinho, com fru-fru cor de rosa. Eu não usaria óculos, nem aparelho nos dentes e tampouco teria vergonha das minhas pernas magricelas.
Ah, como seria bom! A partir daquela brincadeira, comecei a reparar mais na minha colega. Será que era tão bom assim ser ela? Ao invés de zoeira no carro, um motorista sisudo e imponente. No lugar de amigos estranhos, um grupinho seleto de crianças com sobrenomes de construtoras e concessionárias.
No recreio: nada de potes velhos de plástico com resto de bolo do final de semana na casa da vó, mas sim dinheiro para comprar lanche na cantina todos os dias. Olhei tanto, mas tanto para a Ana Paula, que comecei a reparar em fatos que antes me escapavam. Ela nunca ria com os meninos no fundo da sala.
Também não pulava corda com o pessoal das outras turmas no recreio. Não que pular corda fosse só alegria. Uma vez a corda empurrou minha calça pro chão, o que, por si só, já era um vexame, mas pra piorar, eu estava com ceroulas por baixo. Todo mundo riu, até eu fui obrigada a rir de mim mesma, aos 9 anos. Ana Paula nunca teria pagado esse mico. Duvido que ela usasse pijama por baixo do uniforme no inverno. Ceroulas então, nem que a vaca tossisse. Ela nunca se colocaria naquela situação. Aliás, não sei o que fazia no recreio, porque obviamente jamais me convidou para passar o intervalo com ela.
Na sala, quando a professora entregava as notas, eu espiava as dela. Gente, não é que a menina ia mal pra caramba na escola! Eu já estava me desiludindo da vida perfeita da colega quando, um dia, a vi chorando num canto do corredor. Estávamos tão íntimas na minha cabeça, que me senti na obrigação de oferecer ajuda. O problema é que ela não sabia da nossa proximidade e, entre assustada e furiosa, me recebeu assim: “Sai daqui, eu não falo com você!”. Aí, quem chorou fui eu. Mas, só eu soube também, ninguém testemunhou as minhas lágrimas. Fui ao banheiro e me recompus antes de voltar à sala de aula. Doeu, mas naquele momento eu aprendi um sentimento que nunca mais me abandonou: como é bom ser quem a gente é.
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