Família

Avós para toda obra

A avó de hoje não é mais aquela velhinha que passa o dia tricotando

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Cidinha busca Téo e Martim na escola alguns dias por semana. Dá banho e jantar para os dois. Às quartas-feiras, leva os irmãos na natação. No dia em que o mais velho precisou se vestir de Gato de Botas para uma apresentação na escola, foi até a rua 25 de março comprar apetrechos para fazer a fantasia. Wilza busca os meninos na escola nos outros dias da semana. Também dá banho, jantar, leva na natação. E, de vez em quando, os leva para dormir na casa dela. Cidinha é avó de Téo e de Martim. Wilza também.
É graças a essa dupla incansável que o casal Adriana Nunes e Tomás Vieira consegue dar conta do trabalho e da criação dos filhos. A família de Téo e de Martim não é exceção. Já faz tempo que a participação dos avós no cotidiano dos netos não se restringe mais às férias e ao almoço de domingo. “Dou aula à noite e chego em casa tarde”, conta Adriana. “Não sei o que faria sem elas.”
Com as longas jornadas de trabalho que as mães enfrentam ao lado dos pais, os avós têm sido cada vez mais solicitados a ajudar na criação das crianças. Em muitos casos, além dos cuidados diários, representam uma fonte importante de sustento financeiro.
Dados do IBGE apontam que 20% dos domicílios brasileiros têm idosos como chefes de família, o que corresponde a mais de 8 milhões de lares.

Vovós modernas

Aquele estereótipo da vovó tricotando na cadeira de balanço e do velhinho distribuindo presentes para os netinhos já não corresponde à realidade. Não mesmo.
Os avós de hoje pertencem a uma geração que encabeçou mudanças importantes na estrutura familiar. “Eles são mais liberais, mais saudáveis, mais ativos e economicamente mais estáveis do que os avós de épocas passadas. Essas diferenças se traduzem em novas maneiras de se relacionar com os netos”, afirma a psicoterapeuta Lidia Aratangy, mãe de Cláudia, Silvia, Ucha e Sérgio, e autora do Livro dos Avós (Ed. Primavera Editorial).
Do lado dos netos, eles têm pais cada vez mais velhos e menos irmãos. Entram na escola cada vez mais cedo e passam menos tempo com as mães. E elas continuam a se desdobrar para conseguir conciliar a maternidade com a carreira.
Com tudo isso acontecendo, uma das marcas do novo relacionamento entre avós e netos diz respeito ao papel de co-educação que os primeiros vêm assumindo ao lado dos pais. Afinal, a convivência cotidiana traz consigo responsabilidades que não cabiam aos avós de domingo.
Uma coisa é chupar bala antes do almoço, no final de semana, na casa da vovó. Outra coisa é comer doce fora de hora a semana toda.
A advogada Daniella Meggiolaro, mãe de Guilhermina e Letícia, conhece essa história: “Como buscar minhas filhas na escola faz parte da rotina das avós, já tive que puxar a orelha das duas para não ficar dando balas e presentes em excesso”, lembra. “Mas, por outro lado, entendo que as avós queiram dar carinho sem medida e sem censura”.
Maíra Duarte, mãe de Miguel e Benjamin, é mais enfática: “Não tem nada a ver essa história de que a avó tem que estragar a criança. Acho que, sendo outra referência de cuidadora, ela tem o papel de auxiliar os pais.”
Morando com o marido e os filhos na casa da mãe, Maíra conta que suas escolhas, enquanto mãe,  são bastante respeitadas. “Se eu não dou açúcar para os meus filhos, ela também não dá”, conta.
Para Lidia, a parceria estabelecida entre pais e avós é fundamental para a criação das crianças. “Os avós precisam escapar do estereótipo de protetores dos netos e aliados da transgressão”, diz.
Mas ela também alerta: “Na casa da avó, valem os limites da avó. Faz parte dessa relação certa aliança entre avó e neto, na qual cabem algumas pequenas transgressões ao regulamento da casa dos pais”.

Palpite é bom ou ruim?

Que os pais precisam ser respeitados quando se trata da educação dos filhos, não há dúvidas. Mas e os avós? Tanta dedicação tem alguma contrapartida, como, por exemplo, o direito de palpitar?
Existe uma linha fina, mas bem delimitada, entre palpitar e interferir. Segundo Lidia Aratangy, a ajuda que os avós oferecem não lhes dá direito de tomar decisões pelos filhos nem de impor modelos na resolução de conflitos familiares.
Ao mesmo tempo, é válido os avós terem o desejo de participar ativamente dos espaços que são levados pelos pais a ocupar. “Não é justo excluir da vida escolar do neto uma avó que é convocada com frequência para servir de motorista nos horários de entrada e saída da escola”, exemplifica a psicoterapeuta.
Adriana, a mãe do Téo e do Martim, é uma defensora dos palpites. “Antigamente, todo mundo se metia na educação dos filhos dos outros e acho que isso era saudável”, acredita. “Hoje, parece que palpitar virou um tabu, que as mães sabem tudo e ninguém pode falar nada”. Ela garante que os palpites da mãe e da sogra são bem-vindos. “Não os recebo como um embate. E, se não concordo com o que ouço, digo que não vou fazer assim. Ou digo que vou f