Família

Filho único: saiba como cuidar na medida certa

Leia a entrevista com Carolyn White, autora do livro Criando filho único

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Antigamente, ter um filho só era quase uma exceção. Quando a Pais & Filhos foi lançada, há 44 anos mulheres tinham, em média, 5,8 filhos, algo difícil até de imaginar atualmente. Recentemente, a taxa de fecundidade chegou a 1,8. Entre as mulheres com renda maior que cinco salários mínimos, ainda menos: apenas 1,1. Ou seja, hoje, filho único (de mãe solteira, casada, separada, re-casada, o que for) é quase regra. Tanto que a frase “ser filho único é uma doença”, dita por um dos pais da psicologia infantil, Stanley Hall (1844-1924), nos soa totalmente fora de propósito, coisa de gente maluca mesmo. Ainda assim, quem tem apenas um filho, por opção ou porque não conseguiu ter outro, vive se perguntando como não exagerar na dose, seja cobrando demais o coitado (ele é único, não tem com quem dividir a atenção…), seja mimando demais, enfim… Para tranqüilizar essa legião de pais, fomos conversar com a especialista americana Carolyn White, mãe de Alexis, e autora do livro Criando Filho Único (ed. M. Books). Como diz a também filha única Kirsten Smith, co-autora do roteiro dos filmes Legalmente Loira e Dez Coisas que Eu Odeio em Você, no prefácio da obra, os filhos únicos têm um forte traço de confiança e de independência, tesouros que levam para a vida toda. A gente concorda total e acrescenta: não precisa se pre¬ocupar por dar tudo para seu filho, achando que, assim, ele nunca vai aprender a dividir. Ninguém dá tudo pra ninguém, a gente sempre sente falta de algo, é bom que seja assim, porque vamos buscar no mundo. Deixar seu filho ser ele mesmo é o maior presente, como ensina Carolyn.

Larissa Purvinni, mãe de Duda, Carol e Babi.

O site Freakonomics publicou um artigo descrevendo a geração chinesa de filhos únicos chegando à adolescência. Segundo o artigo, eles estão enfrentando problemas de mau comportamento. Como a senhora vê um futuro em que a grande maioria da população será formada por filhos únicos?

Eu não sou uma especialista em cultura chinesa, mas até a década de 70 as famílias chinesas eram grandes, e o país era em grande parte agrário. A China tinha de fazer algo a respeito do crescimento populacional ou haveria um grande percentual de fome. Limitando a população, o país se tornou uma potência econômica. Ao mesmo tempo, a maioria dos pais chineses não tinha idéia de que deveria criar filhos únicos, pois a idéia é que criariam cinco ou seis. Com a sua recém-adquirida riqueza e mais tempo livre, eles passaram a dedicar mais atenção e bens materiais ao filho único, que deve tomar conta dos pais no futuro. Os chineses ainda não colocam os idosos em asilos. Mimados ou não, filhos únicos esperam muita coisa. Se seus pais não podem provê-lo do que querem, eles darão um jeito de conseguir por conta própria. A atual geração de crianças chinesas é a mais bem educada de todos os tempos, e quer uma vida boa. Pelo que sei, eles estão dispostos a trabalhar duro por isso, porque foram criados aprendendo que o trabalho duro é a norma. Talvez os filhos únicos sejam mais mimados que os das gerações passadas, mas eu não penso mais que eles acreditam que as coisas serão dadas para eles.

Você vê diferenças entre os casais que decidiram não ter mais filhos e o que adorariam ter mais, mas não conseguiram ou puderam?

Acho que os casais que não “decidiram” ter filhos únicos se sentem mais culpados. Eles pensam que deveriam ter tentado com mais afinco ter mais filhos. Como resultado, eles compensam mais tanto emocional como materialmente os filhos. Eles também têm mais dificuldade para estabelecer limites e controlá-los. Pais que decidiram ter filho único são bem diferentes. Eles sabem que o tamanho de sua família é certo para si mesmos e geralmente são pais mais realistas.

Quais as conseqüências de não ter irmãos? Existem outras boas formas de permitir a troca de experiências com outras crianças?

Não ter irmãos implica muitas coisas positivas. A criança não precisa competir pela atenção dos pais e sabe que é importante e ouvido na família. Uma criança que se sente valorizada cresce acreditando que o mundo deveria valorizá-la. Ganha, com isso, muita confiança. Por outro lado, uma criança que se sente valorizada demais pelos pais ou que recebe muita atenção pode crescer achando que o mundo lhe deve alguma coisa. Os pais devem ter consciência dos dois lados da moeda e se esforçar para achar um equilíbrio. Crianças sem irmãos geralmente têm uma relação mais próximas dos pais, mas elas também devem estabelecer amizades significativas com outras crianças desde cedo. Sem irmãos, são apenas os amigos da criança quem a ensina a resolver conflitos e achar seu caminho no mundo. Pais de filhos únicos precisam criar o maior número de oportunidades possível para seu filho ter uma vida social ativa.  
 
Como os divórcios e novos casamentos afetam um filho único? É possível ser filho único numa família e, de repente, passar a conviver bem com novos irmãos? Como um filho único e seus pais devem lidar com essa situação?

Essa é uma questão bem complexa e difícil de ser resumida aqui. Todas as famílias normais têm problemas de ajuste, mas apenas crianças que de repente ganham irmãos terão ainda mais adaptações por que passar. Os pais devem introduzir a situação aos poucos, devagar. Eles devem explicar aos poucos que, por mais que outras crianças comecem a fazer parte da família, o filho único ainda será importante. Eles precisam demonstrar amor e trabalhar juntos para que a nova família dê certo. Eles não precisam ficar juntos o tempo todo. O filho único precisa de muita orientação para resolver discussões com os novos irmãos. Dividir um quarto pode ser um fato de peso. Mas ele também pode ficar feliz por ter de dividir as atenções, coisa que antes não acontecia. Fale sempre sobre o assunto, mesmo quando as coisas ficarem complicad