O Brasil é Terra de quem?

Uma das partes das inúmeras histórias que não foram contadas

**Texto por Chai Odisseiana, MC, cantora, compositora, arte educadora, produtora cultural e artesã, mãe de Kalifa. Atua também em projetos sociais, culturais, artísticos e educacionais, fazendo parte e colaborando com coletivos que atuam nas periferias do Brasil.

O Brasil é múltiplo e é necessário valorizar a cultura nacional (Foto: Shutterstock)

Às vezes, nos perguntamos, se existe fórmula para ensinar a aceitação, o prazer, o orgulho de ser negro, mas não tem receita, não existe uma cartilha que ensine a valorização da Cultura Negra em um país racista como o Brasil; aqui é a vivência real, e a decisão importante que deve ser tomada é de qual lado dessa história vamos escolher estar.  De qual lado dessa história você está?

O que aprendemos nas escolas, nos faz ter vergonha da nossa ancestralidade, o que é evidenciado é a humilhação sofrida, a tristeza, os maus tratos, sempre com o foco de inferiorizar. Nunca falam de nossas riquezas ancestrais que são tantas, diversas e circulam em vários setores, desde a medicina natural à arte. O Brasil se sustenta em uma falsa história.

Infelizmente, há poucos registros e na literatura a verdadeira história não é contada. Os registros nos livros escolares mostram que o Brasil é uma terra achada, encontrada, “descoberta” como se estivesse perdida, sem ter pessoas habitando nesse solo. Sendo que, nossos povos originários, os indígenas, já estavam aqui, tinham sua história, seus costumes que foram totalmente destruídos, desrespeitados e com o tempo, quase extinto.

É assustador quando entendemos o tamanho da gravidade e o efeito dominó que movimenta as peças do jogo.  E quem continua caindo é corpo Preto e Indígena: um massacre interminável! Paramos, respiramos fundo e percebemos que o plano sempre foi nos eliminar. E em 2021, com toda essa crise pandêmica, sabemos os lugares que não chegam a assistência, como diz ZáFrica Brasil (grupo de Rap de São Paulo) “Antigamente Quilombos, hoje Periferia”.

Quando me tornei mãe, fiz uma pergunta pra mim: “E agora? E aí, Chai como será? Sua filha nasceu menina, que será uma adolescente e futuramente uma mulher negra. Tem pai e mãe negros, as duas avós negras, avô Mestre de Capoeira. Eu cantando Rap, envolvida com o Hip Hop, Movimentos Negros e sociais, atuante nas periferias, dentro das Fundações Casas, na militância, na luta pela desconstrução desse racismo estrutural que tanto mata.

E aí, Chai como será?  Vai dar conta? Vai conseguir ser referência pra sua Cria?”. Essa pergunta ficou na minha mente um tempo, a sociedade é cruel e a partir do momento que você sai dos braços dos pais, da família, do conforto do seu lar, encara um universo em crise e sobreviver aqui. Especificamente, em São Paulo e em Franco Da Rocha, tem que ter coragem para se assumir negra. Sabemos que muitos pardos não se consideram negros e a maioria deles são.

No Brasil é nadar contra -maré em dias de tempestade. Quando se é negra da pele mais clara como eu, existe uma força tarefa da sociedade racista de ressaltar inúmeras vezes quando nos afirmamos negras. Que não somos negras, que somos “moreninhas”, muda-se a palavra, mas, o tratamento continua sendo ofensivo e inferiorizado. Nos estabelecimentos comerciais, continuamos sendo perseguidos e dependendo do cargo que ocupamos no mercado de trabalho também, pois, ainda somos classificados como “a carne mais barata”, a “cor do pecado”, “moreninhas” de pele parda, pele negra.

Mas, tive base e orientação, minha mãe sempre me falou desde pequena, quem eu era e de quem eu era filha. Guardo as palavras de Negra Ângela: “Filha, a sua pele não é escura como a da mamãe. Mas, você não deixa de ser negra, você é! E sempre tenha orgulho disso, se ame!”.

Mesmo eu encarando um mundo que falava que eu era “moreninha” sempre soube quem eu era, quem eu fui e quem eu sou. Sempre soube que o racismo que chega pra mim, não é o mesmo que chega para uma mulher de pele mais escura, pois, já presenciei situações acontecendo com minha mãe, que não aconteceram comigo, mesmo estando ao lado dela. Entendem? O racismo chegou em um ponto do comodismo, que ele chega até a ser discreto, tem que ter sensibilidade, tem que ser humano de fato para enxergar. Não é perceptível para a maioria, infelizmente, poucos veem, pouco lutam, poucos se incomodam a ponto de se manifestar contra situações racistas.

Sabemos que quando nos assumimos com dignidade e amor próprio muitos não aceitam ocuparmos posição de chefia ou com algum privilégio. Pois, acreditam que nosso lugar é na subalternidade. É muito difícil, mas, para quem acredita em dias melhores, o impossível não é opção. A mobilização causa mudanças de ações e conceitos.

O meu posicionamento na minha vida pessoal e nos meus trabalhos na arte, na educação e nos movimentos sociais é exaltar que se faz necessária a valorização da nossa cultura, da nossa história. Isso só se torna possível compartilhando, registrando contribuições que elevem e mostrem o orgulho de ser Negro. Nos incentive a reconhecer a importância de ocupar espaços que em outrora, nos foram negados.

Necessitamos utilizar a tecnologia ao nosso favor, as ferramentas de comunicação, a oralidade e as imagens para ampliar a representatividade dos negros em todos os espaços, principalmente, em espaços em que existe a presença do povo. Sei que existe um avanço, sim existe! Mas, ainda estamos longe da metade do caminho dessa corrida. Continuaremos em luta, com a intenção forte em propagar essa construção. “Valorização da Cultura Afro-Brasileira” já!