Gravidez

Continue a nadar

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Publicado em 08/11/2013, às 12h06 - Atualizado em 20/05/2021, às 16h15 por Redação Pais&Filhos


O empresário Daniel Lins costumava preparar salmão assado duas vezes por semana durante a gravidez da mulher, atendendo a pedidos da futura mãe. O bebê nasceu de parto normal na 38ª semana de gestação, no peso certo, muito saudável, com Apgar 10 e 10 (teste que mede a vitalidade da criança 1 minuto após o parto e, novamente, 5 minutos depois). Sem querer, o menu preparado pelo pai garantiu que a mãe ingerisse a quantidade ideal de DHA (ácido docosahexaenoico), um dos ácidos graxos ômega 3, ligado à redução dos índices de parto prematuro e dos casos de baixo peso ao nascer e, mais tarde, à melhora no desempenho da leitura, isso só para começar a lista de benefícios dessa gordura do bem.O cardápio à base de peixe se manteve durante a fase da amamentação. Quando a menina passou a comer outros alimentos, o salmão entrou no pratinho rapidamente. Não por acaso, a papinha de salmão do pai foi aprovada pela garota: estudos comprovam que o sabor dos alimentos passa para o líquido amniótico. E o DHA afeta também o saber: Anna começou a falar cedo e, antes dos 5 anos, já lia.

A pesquisadora Susan Carlson, mãe de Christian e Sarah, do Departamento de Nutrição da Universidade do Kansas, estudiosa dos efeitos desse ácido graxo na gravidez e infância, apresentou dados sobre os benefícios do DHA em uma conferência em Buenos Aires, em agosto. Pais & Filhos esteve lá. Estudo coordenado por ela comparou gestantes que tomaram suplemento de 600 mg de DHA com outras que ingeriram cápsulas com óleo de soja e milho.

Os bebês das mães que tomaram o suplemento tiveram maior peso ao nascer (apenas 3,9% nasceram com baixo peso contra 9% do grupo placebo). Enquanto 4,8% dos bebês nascidos de mães que tomaram placebo nasceram com menos de 34 semanas, esse índice foi de apenas 0,6% entre os bebês cujas mães tomaram suplemento de DHA. Susan explica que os estudos são feitos com suplementos à base de algas porque é necessário garantir a quantidade exata ingerida.

Podendo, o melhor mesmo é incluir peixe na dieta. “Consumir peixe marinho duas vezes por semana é uma boa maneira de ingerir DHA. Para a grávida, recomendo: se pode comprar e se gosta, consuma peixe, que tem vários outros nutrientes importantes”, diz.

Se não gosta, há outros alimentos ricos em DHA, como ovo. “Para as crianças, uma boa opção é o consumo de compostos lácteos com altos níveis de DHA”, diz o pediatra Mario Falcão, pai de Caio e Marina.

Susan toma cápsulas de DHA diariamente e as recomendou à filha, que tomou suplementos durante a gravidez, além de comer peixe. “Coincidentemente ou não, meus netos são muito inteligentes”, diz.

Peixe vivo

Ao observar o desempenho dos alunos de vários países em testes de conhecimento internacionais, os cientistas notaram que as notas cresciam conforme o consumo per capita de peixes ricos em DHA aumentava. A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda o consumo per capita de 12 kg de peixe por ano por habitante. A média global de consumo per capita é de 18 kg/ano. No Brasil, mais que dobramos o consumo nos últimos 8 anos, chegando a 9 kg/ano, mas ainda comemos poucos peixes ricos em ácidos graxos ômega 3, como salmão, sardinha, atum, bacalhau e bagre.

Estudo realizado pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, comprovou que o aumento do consumo de DHA por crianças saudáveis entre 7 e 9 anos com baixo rendimento escolar melhorou significativamente o desempenho na leitura e teve impacto positivo sobre o comportamento. Crianças com dificuldade em leitura que ingeriram diariamente suplementos de DHA provenientes de algas marinhas conseguiram alcançar o nível dos outros colegas.

Menos alergia

Os benefícios do DHA também incluem diminuir o risco de alergia. Todos os tipos de alergia foram significativamente reduzidos com crianças que tomaram fórmula com DHA e ARA, um ácido graxo ômega 6. Embora fórmulas com DHA adicionado possam ajudar a prevenir alergias, a amamentação até 2 anos ou mais  é o mais recomendado. O DHA adicionado a fórmulas melhora os resultados das crianças em testes cognitivos, mas estudos mostram que crianças amamentadas têm QI mais alto. “A mãe que amamenta é diferente. Mesmo em estudos em que tentamos selecionar mães com o mesmo nível social, as mães que amamentavam tinham em média três anos a mais de estudo. A mãe que amamenta também estimula o filho de outras maneiras”, diz Susan.

Depois do parto, é importante continuar consumindo peixe, pois a quantidade de DHA no leite materno varia de acordo com o consumo de peixe.

Segundo o livro A Verdade sobre a Comida, originalmente uma série da BBC sobre alimentação, nunca os níveis de ômega 3 em nosso cardápio foram tão baixos. No Brasil, ingerimos cerca de 20 vezes mais ômega 6 do que ômega 3. O ideal é que esse desequilíbrio não exceda 5 vezes. Quanto mais equilibrado o consumo de ômega 3 e ômega 6, mais nutritivo é o leite materno. Pesquisas sugerem que esse desequilíbrio pode ser culpado pelo aumento de problemas que afetam o cérebro, entre eles agressividade, depressão e mal de Alzheimer.

Outros estudos chegam a relacionar a ingestão de DHA à redução dos sintomas de uma sigla com quase as mesmas letras, o TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), embora os cientistas avaliem que ainda sejam necessárias mais pesquisas para chegar a resultados conclusivos. Num estudo envolvendo 75 pacientes entre 8 e 18 anos com diagnóstico de hiperatividade e déficit de atenção, 47% dos que receberam suplemento com DHA tiveram redução nos sintomas. No mesmo estudo que detectou melhora no desempenho nos testes de leitura, que citamos antes, os pais notaram que as crianças que ingeriram DHA tiveram menos “sintomas opositivos”, ou seja, se comportaram melhor, um efeito colateral mais que benéfico do tal DHA. Tá esperando o que pra incluir essas letrinhas no seu prato?

Afinal, o que é DHA?

O DHA (ácido docosahexaenoico) é um ácido graxo essencial presente no leite materno e que desempenha função essencial no crescimento e desenvolvimento mental. Como o cérebro se desenvolve 85% até os 5 anos de idade, a suplementação com DHA é importante porque o organismo não produz esse nutriente. Estudos indicam que menos de 10% do ômega 3 presente nos alimentos – linhaça, amêndoas, nozes e peixes – é convertido em DHA. O DHA também é fundamental para o desenvolvimento neuropsicomotor e da retina.

Saiba mais

Mas engorda? Sim, esses peixes são calóricos, afinal o DHA faz parte da gordura deles, então, não tem jeito. Reduza as calorias ingerindo menos carne vermelha, fritura e doces. Vale a pena.

> Não como peixe, e agora? Procure alimentos enriquecidos com DHA ou ômega 3, como ovos e leite.

> E grávida e criança vegana, como faz? Pode comer sementes moídas ou óleo de linhaça, nozes. Prepare os alimentos com óleo de canola.

> Especialistas recomendam ingestão de 200 mg a 300 mg de DHA por dia para grávidas e mulheres em fase de amamentação.

> A ingestão de suplemento de DHA durante a gravidez aumenta até seis dias a idade gestacional.

CONSULTORIA: Mario Falcão, pai de Caio e Marina, é pediatra, médico encarregado da Unidade de Cuidados Intensivos Neonatal (UCINE) do Instituto da Criança do HC-FMUSP.


Palavras-chave
Alimentação

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