Nutricionista se recusa a contratar mulheres que querem ser mães por “custarem mais caro”

Lara Nesteruk causou polêmica ao afirmar que evita dar empregos para mulheres que pretendem engravidar, além de preferir contratar homens: “A mulher tem o dia que está de cólica, que está de TPM, que não dá para ir trabalhar”

Lara Nesteruk diz que evita contratar mulheres que pretendem engravidar, por “geraram muita despesa” (Foto: Reprodução/Instagram)

As mulheres representam a maioria da população no Brasil. Elas têm mais educação formal e ocupam apenas 44% das vagas de emprego registradas no país, segundo dados do IBGE. Ainda assim, o número de mulheres desempregadas é 29% maior que o de homens. 

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Segundo o estudo “Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil”, feito pelo IBGE, as mulheres ganham apenas 76,5%, em média, do rendimento dos homens, mesmo trabalhando três horas a mais por semana do que eles  – considerando trabalho remunerado, atividades domésticas e o cuidado de pessoas.

Em pleno século XXI e mesmo em meio a um cenário com dados como esses, a nutricionista Lara Nesteruk diz que evita contratar mulheres que pretendem engravidar, por “geraram muita despesa”. Em uma série de vídeos publicados nesta terça-feira (17) nos Stories de seu perfil no Instagram, que soma 814 mil seguidores, Lara diz que prefere não contratar mulheres que desejam ser mães, que não é possível contratar um número grande de profissionais “com tudo isso de direitos”, se referindo à licença-maternidade concedida às mulheres após o nascimento dos filhos.

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“Eu evito contratar mulher. Eu só contrato mulher se eu precisar muito que seja mulher. Se não tiver um homem que faça aquela função. Porque eu sei que mulher custa muito mais caro para contratar. Ela pode engravidar, e ela engravidando, eu tomei no c*. Porque eu vou ter que afastar ela e vou ficar pagando ela e vou ter que contratar outra. Ela tem o dia que está de cólica, que está de TPM que não dá para ir trabalhar. Fora todas as outras questões que a mulher tem, que é diferente de homem”, disparou Lara. 

 

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Desde ontem a polêmica está grande em torno desses stories dessa nutricionista MULHER. Eu não tenho nem palavras pra traduzir o que senti ao ver uma MULHER falando DESSA FORMA, NESSE TOM (ainda por cima) sobre o fato de empregar mulheres! Emprego não é apenas prestação de uma força para outro, É SOBREVIVÊNCIA! As pessoas não trabalham pq acham bonitinho se disponibilizar para servir outrem, trabalham pra SOBREVIVER! Ter o abs comer, dar o que comer pra alguém, pagar contas fixas! Eu vi essas posicionamento praticamente como uma violência, daquelas bem impeditivas. Parece que ela está usando um pedaço de pau pra bater não apenas em quem for contratar mulher, mas pra dar uma surra em todas as lutas e direitos das mulheres, bem como na dignidade da pessoa humana. Como ainda existe alguém que pense dessa forma depois de tantas lutas, brigas, conscientizações? Mais ainda sendo MULHER, que já deve ter sentido na pele tudo isso que ela considera impeditivo de contratação! E me pergunto: Como ela começou a vida profissional sendo mulher e tendo tudo isso que ela reclama aí que mulher tem? O que será que ela acharia de alguém que dissesse isso pra o 1º empregador dela, pra quem deu a 1ª chance, abriu a 1ª porta, ajudou a subir o 1º degrau na vida profissional dela? Nem vou citar aqui as inúmeras mulheres que mudaram a história desse planeta pq não caberia nem em uma lista que desse 10 voltas ao redor do mundo, só vou deixar aqui meus agradecimentos por elas terem existido e por alguém ter dado a elas a oportunidade de elas serem MARAVILHOSAS do jeito que elas foram. Até as que não são citadas pela história, meus agradecimentos por vcs mudarem um pouco o mundo de quem está ao seu redor pq ser mulher é ter esse poder magnífico. E a quem pensa dessa forma aí de cima… só meu lamento e pena. Quero saber a opinião de vcs… o fogo no parquinho, digo, a polêmica foi lançada 👊🏼 (Repost da colagem da resposta dela a uma pessoa que perguntou o que ela fez com a funcionária que estava pensando em engravidar: @gossipdodia)

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Nos vídeos, a nutricionista afirmou que acha ruim a quantidade de direitos que o Brasil tem para os trabalhadores. Ainda disse que quem deveria arcar com os custos da profissional que escolhe ficar grávida é a própria trabalhadora. 

Lara recebeu a pergunta de uma de suas seguidoras, sobre o proteger o aleitamento materno para as gestantes e os bebês durante o trabalho, como oferecer um lugar destinado para a mulher poder ordenhar o leite. “Esse problema não é meu”, respondeu a nutricionista, explicando que quem tem que pensar nisso é a mulher que deseja engravidar.

Em seu discurso, Lara conta que escolheu não ter filhos, preferindo focar em sua carreira profissional, e que acredita que “a maioria da mulherada” que trabalha com carteira assinada tem o pensamento de que tem estabilidade financeira e só por isso acaba engravidando. “Vamos ver até onde isso vai”, finalizou. 

Em um comentário em seu perfil no Instagram, a nutricionista respondeu uma seguidora contando que demitiu uma funcionária que estava pensando em engravidar. “Óbvio que demiti, não vou arcar com a licença-maternidade dela”, escreveu.

Comportamento ilegal

Os direitos dos trabalhadores no Brasil estão assegurados por lei, inclusive os de trabalhadoras grávidas. Quem arca com os custos pelo afastamento de uma trabalhadora durante a licença-maternidade é o INSS, e não o empregador, segundo a advogada trabalhista Eliane Ribeiro Gago, sócia do escritório Duarte Garcia Serra Netto e Terra Advogados. “O único problema é que nesse caso o empregador teria que contratar outra funcionária para a vaga. Mas ele não teria nenhum custo a mais”, explica. 

Além de sem fundamento, a fala da nutricionista é ilegal e discriminatória. “Demitir uma mulher baseando-se apenas no fato de ela ter comunicado que pretende engravidar é totalmente ilegal e intolerável. Não pode haver nenhum tipo de discriminação por sexo, idade, cor ou estado de gravidez. Se uma mulher que pretende engravidar ou já está grávida for discriminada por isso, pode virar objeto de ação trabalhista e denúncia no Ministério do Trabalho. Ela tem várias formas de ser amparada judicialmente”, defende Eliane.

A única dificuldade para mulheres em situações semelhantes é a de provar que a demissão ocorreu por discriminação pela gravidez.  “O mais difícil é provar que a mulher foi demitida por conta da intenção de engravidar. Se existir a prova, como no caso da funcionária citada, ela tem uma proteção constitucional. Somente em casos de demissão por justa causa é que a estabilidade cai”, explica a especialista. 

Licença-maternidade

A declaração de Lara ainda vai contra o movimento de ampliação da licença-maternidade mundo afora em legislações mais modernas. “Se os homens tivessem o mesmo tipo de licença que as mulheres, não haveria esse tipo de discriminação”, defende Eliane.

Em todo Brasil, a licença-paternidade é um direito trabalhista e garante 5 dias a partir do nascimento ou adoção. Na Finlândia, por exemplo, a licença-paternidade remunerada será ampliada para quase sete meses, o que a alinha à licença-maternidade. As mulheres grávidas também têm direito a um mês de licença-gestante antes da data prevista para o parto.

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