Saiba o que esperar de uma gestação de múltiplos

Você está esperando filhos múltiplos? Saiba o que te espera

o-que-esperar-gravidez-multiplos

-Publicidade-

Sindicato dos gêmeos, gravidez falsa de quadrigêmeos, gêmeos com diferença de cinco anos… O assunto está em alta. E você, está esperando filhos múltiplos? Saiba o que te espera.

Por Nivia de Souza, prima das gêmeas Jéssica e Michelle

-Publicidade-

Ela tinha 29 anos, um bom emprego, um carro novo. Parou de tomar pílula anticoncepcional e, apenas um mês depois, as suspeitas. Será? Por meio de um exame de sangue, a confirmação – e a certeza de que sua vida mudaria completamente. Ela ia ser mãe.

Como se não fosse surpresa suficiente, o primeiro ultrassom logo revelou: eram dois bebês. Não! Dois, não, eram três bebês! A raridade da situação – afinal, ela não havia feito nenhum tipo de tratamento – já a impressionava e foi em busca de um exame especializado. Então, descobriu: eram quatro bebês!

Foi assim que a jornalista Ana Carolina Barbosa Lima e seu marido, Jerônimo, descobriram que seriam pais dos quadrigêmeos Sofia, João Pedro, Laura e Beatriz.

Hoje, dois anos, 1.200 fraldas mensais e 32 mamadeiras diárias depois, a situação parece ter se ajeitado. Ana Carolina comprou um furgão, trabalha de casa, adaptou o apartamento para oito moradores (o que inclui as duas babás) e convive, feliz, com todo o barulho da criançada.

Ao receber a notícia da gestação rara, Ana Carolina saiu aos prantos do consultório médico. “Eu ficava o tempo todo pensando no que ia fazer. Tinha aquela conversa de que ‘no fim dá certo’, mas eu queria que desse certo desde o começo”, diz. O ginecologista Edílson Ogea, pai de Filipe e Beatriz, conta que, em geral, as reações são diferentes, dependendo se é ou não a primeira gravidez. “O marido quase cai da cadeira de tanto fazer contas! Mas é algo que traz uma alegria imensa”, compartilha o médico.

Choque, euforia e apreensão também estiveram presentes durante a gravidez da modelo e apresentadora Isabella Fiorentino. O caso dela foi ainda mais raro. Os trigêmeos Bernardo, Nicholas e Lorenzo são univitelinos, ou seja, os três se desenvolveram em uma única placenta. Apenas um óvulo foi fecundado e dividido, o que significa que são idênticos. “A cada ultrassom era uma angústia para saber se eles estavam bem, pois eu tinha apenas uma placenta para alimentar os três”, lembra a apresentadora.

Mundo dos gêmeos

Segundo o ginecologista Edílson Ogea, qualquer mulher está sujeita a ter uma gestação gemelar idêntica, que são os casos mais raros. Já a gravidez de gêmeos fraternos (dois ou mais óvulos fecundados) é diferente, porque costuma existir uma predisposição familiar.

O último censo do IBGE confirma o aumento de gestação múltipla. “Sem dúvida nenhuma, isso se deve às técnicas de reprodução assistida”, aponta Adelino Amaral Silva, pai de Maria Eduarda e Manuella, presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA). De acordo com estimativas do médico, das 12.750 mulheres grávidas por meio de fertilização in vitro e inseminação artificial, cerca de 3.200 estão em gestação de múltiplos, ou seja, entre 25% e 30% delas.

O impacto é grande e tem preocupado a SBRA. Tanto que a instituição solicitou ao Conselho Federal de Medicina (CFM) a limitação do número de embriões a serem transferidos ao organismo feminino. Os custos dos tratamentos ainda são elevados e, procurando aumentar a chance de êxito, é implantado mais de um embrião. “Hoje, só podemos transferir dois para as mulheres de até 35 anos, três para as entre 35 e 40 e quatro para as acima dos 40”, diz Silva.

A gravidez

A gestante de múltiplos sente falta de ar de forma mais intensa. A respiração é curta e rápida. Os batimentos cardíacos são mais acelerados, a pressão sanguínea fica um pouco mais baixa, e as crises de hipertensão são comuns. Barriga, mãos e face incham com mais facilidade. A digestão fica complicada, e as chances de refluxo são maiores. Por isso, elas não devem consumir líquidos durante as refeições – e o acompanhamento de um nutricionista é aconselhável. A quantidade de urina diminui a cada ida ao banheiro, e as idas aumentam, pois, com o crescimento do útero, a bexiga não tem espaço suficiente para encher-se por completo. É preciso também ter acompanhamento de um fisioterapeuta, por conta da acentuação da lordose, que pode refletir em dores.

É comum vermos por aí grávidas de múltiplos fazendo repousos longos, principalmente após a 20ª semana. Isso diminui o estresse.

Com o repouso, Isabella passou a trabalhar em casa. “As reuniões eram feitas na minha casa, às vezes no meu quarto, quando não podia mais levantar da cama”, conta a modelo. Já Ana Carolina revela que foi teimosa, tomou banho de pé até o último dia, escolheu a decoração dos quartos, jantou fora e até viajou. Mas é bom saber: se a mulher não obedece às ordens médicas, pode entrar em trabalho de parto prematuramente.

Organizando a rotina

Após o nascimento, as crianças precisam de um período de adaptação, que começa ainda na sala de parto. “Tem de ter um neonatologista para cada bebê durante o parto”, explica Ogea. Crianças de gestações múltiplas tendem a nascer prematuras e isso demanda um cuidado todo especial na maternidade.

É no berçário ou na UTI neonatal que começa a implementação de uma rotina no dia a dia dos bebês e da mãe e, também, a criação do vínculo entre eles. “Cada criança precisa ter suas coisas. Indicamos que seja feita uma planilha, para que todos tenham o mesmo cuidado”, exemplifica a enfermeira Débora de Oliveira, filha de Maria Emilia e Leovaldo.

“Minha casa era um quartel”, conta Ana Carolina, que tinha uma lousa para anotar os cocôs, as trocas de fralda, as mamadas. Tudo dividido entre manhã, tarde e noite. “Eu precisava saber das trocas para descobrir quando um deles estava com prisão de ventre”.

Segundo a enfermeira, amamentar os dois filhos de uma vez é saudável, pois as mães se sentem bem por poderem fazer isso. Quando só um está sendo amamentado, o sentimento é duplo: de felicidade por um estar ali e de receio pelo outro não estar.

Em muitos casos, a mãe recebe alta primeiro, porque os filhos demandam certos cuidados, como ganhar mais peso. Em outras situações, um bebê vai para casa antes dos outros, mas isso nunca é feito com grandes intervalos entre uma alta e outra. “Os bebês sentem falta um do outro”, afirma a enfermeira Débora.

De mãos dadas

A psicopedagoga Maria Irene Maluf, mãe de Maria Fernanda e Maria Paula, alerta para o fato de que algumas famílias tendem a querer que as crianças se pareçam ainda mais. “Não é uma pessoa dupla, são duas ou mais crianças”, comenta Maria Irene.

Aos poucos, cada criança começa a demonstrar gostos, preferências, jeitos e manias. E isso não pode ser esquecido pelos pais. “Cada um tem suas necessidades e características, e eles irão conviver bem com elas”, afirma a psicopedagoga.

Ana Carolina conta que a primeira coisa que fez foi não vestir os quadrigêmeos iguaizinhos – o único momento em que se vestem igual é nas festas. “Fica mais fácil controlar os quatro”, brinca. Já os trigêmeos de Isabella, por enquanto, estão se vestindo com as mesmas roupas. “Acho que, em breve, isso vai mudar. É importante cada um ter sua identidade”, afirma a apresentadora.

A escola é uma das preocupações dos pais de múltiplos. Muitas instituições pré-determinam que os irmãos gêmeos fiquem, cada um, em uma classe. “Não vejo grandes problemas e nem prejuízos pedagógicos e emocionais em deixar os irmãos juntos”, opina Maria Irene. Ela também comenta que as pesquisas mostram que, no fim do processo educativo, o rendimento dos gêmeos que estiveram juntos é similar ao dos que estavam separados.

Em casa, Ana Carolina observa que os quatro ficam muito felizes quando estão juntos. “Percebi que é ruim separar. Às vezes, um tem algum problema e não vai à escola, os outros sentem falta e procuram o irmão”, relata.

A comparação é um risco que irmãos, de gestações múltiplas ou não, podem correr de qualquer forma. Por isso, é aconselhável evitar esse tipo de comportamento por parte dos pais e da família. Gêmeos não têm as mesmas potencialidades. “Um pode ser um matemático e o outro péssimo nisso. Compare a criança com ela mesma, como faria com qualquer outro filho”, argumenta Maria Irene.

Em toda gravidez, o apoio e suporte da família são essenciais, mas, em gestações múltiplas, a dose precisa ser maior. “Não é fácil para a mulher. Para ela, parece que os desconfortos não vão acabar nunca”, diz Ogea. Ana Carolina sabe que dentro de sua casa estão quatro crianças que vão compartilhar, juntas, muitos momentos e descobertas. “Dificuldades à parte, é uma maravilha. Ninguém pôde me orientar a criar quadrigêmeos. Tive de inventar”.

No fim das contas, o instinto materno resolve tudo. A gente inventa, se vira, aprende – e as crianças também. Um amigo, certa vez, disse que já nasceu de mãos dadas com o irmão gêmeo. A natureza é assim.

Você viu?

• Falsa gravidez
No início de janeiro, uma mulher de 25 anos, moradora de Taubaté (SP), disse estar prestes a dar à luz quadrigêmeas univitelinas. Porém, seu ginecologista confirmou que, na última consulta, em outubro, ela não estava grávida. Existiam suspeitas, também, de que a mulher usou a imagem de ultrassom de uma outra gestante, tirada de um blog, para sustentar sua história. No final de janeiro, o advogado da mulher confirmou que a gravidez era falsa.

• Sindicato dos gêmeos
Os cartunistas gêmeos Paulo e Chico Caruso e os médicos gêmeos Ricardo e Alexandre Ghelmer, no intuito de misturar humor e ciência, criaram o Sindicato dos Gêmeos. Para fazer parte do grupo não é preciso ser, necessariamente, um gemelar – pode ser simpatizante! O grupo tem seus 10 Mandamentos e até reivindicações. Para saber mais, acesse: sindicatodosgemeos.com.br

• Gêmeo congelado
Um casal inglês, em 2005, fez um tratamento de fertilidade que originou cinco embriões. Com a implantação de dois deles, no ano seguinte, nasceu o primogênito do casal: Reuben. Os excedentes foram congelados. Ao decidir aumentar a família, o casal não teve dúvidas: usou um embrião congelado. Foi assim que nasceu Floren, gêmea de Reuben, só que cinco anos mais n