Notícias

Entrevista com Tatiana Belinky

Há alguns anos, falamos com a autora responsável pela primeira adaptação do Sítio do Picapau Amarelo

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

O poeta goiano Manoel de Barros costuma dizer: “Eu só tive infância”. A frase se aplicava à escritora Tatiana Belinky. Faleceu neste dia 15 de junho a autora Tatiana Belinky. Nascida na Rússia, mas tão brasileira quanto Emília, a bisavó Tati tinha 94 anos, mais de 80 vividos em São Paulo. Responsável, com o marido, o psiquiatra Júlio Gouveia, pela primeira adaptação do Sítio do Picapau Amarelo para a TV, ela preferia a máquina de escrever ao computador, mas costumava afirmar que o mundo que seus netos e bisnetos encontram está melhor, porque as crianças estão mais livres. Há alguns anos, conversamos com a autora, veja como foi a entrevista:

Você tem memórias da sua infância?

Nasci em 1919 na Rússia, meus pais eram da Letônia. Minha mãe era feminista e comunista. Aliás, ela pensava que era comunista. Todo mundo queria que ninguém fosse pobre… Ela era cirurgiã-dentista e trabalhava na Rússia na época da Revolução de 1917. O clima estava ruim em São Petesburgo, e fomos para a Letônia. Meu pai ainda estava estudando psicologia. Fiquei até os 10 anos lá.

Já em São paulo, onde vocês moravam?

Nós viemos de navio e nos instalamos numa pensão na rua Jaguaribe. Dois meses depois, minha mãe já tinha um consultório perto do Largo do Arouche. 

E aqui no Brasil, seu pai trabalhou com o quê?

Ele era poliglota. Conseguiu representações de grandes firmas de celulose no Canadá, EUA, Suécia. Ele trabalhava nisso, era bem sucedido, mas morreu muito cedo.

Sua mãe voltou a se casar?

Não, nunca mais olhou pra ninguém. Ela era uma pessoa de muita força. Eram três filhos, eu sou a mais velha. Virei “irmãe” do meu irmãozinho. Cozinhava, fazia feira… A situação quando meu pai era vivo era muito boa, mas aí aconteceu esse acidente. Ele estava indo ao Rio a trabalho e telefonou para mim, dizendo que dali a uma hora estaria no aeroporto: 15 minutos depois ele estava morto. Ele e todo mundo do avião. Tinha 45.

E como ficou a vida da família?

Assumi o trabalho do meu pai. Fui arrimo de família, recém-casada. Foi uma época difícil, mas conseguimos vencer essa etapa. Até viajei para os EUA. Tinha de me comunicar com os executivos de celulose, que me conheciam como secretária do meu pai. Meu filhinho Ricardo ia fazer 1 ano. Tive de passar dois meses nos EUA e não o vi começar a andar. 

Você sempre fala que é fã de Lobato…

O primeiro texto em português que caiu em minhas mãos foi dele. Era um folheto de propaganda de um laboratório, cujo dono era amigo pessoal do Monteiro Lobato. Quando ele lançou o remédio para esquistossomose, Lobato escreveu um texto do Jeca Tatu… Apesar de ser uma propaganda, era Lobato do bom, e eu já fiquei entusiasmada.

E como foi a sua participação na Revolução de 32?

Fiquei muito entusiasmada com a Revolução Constitucionalista. Tinha a campanha Doe Ouro para o Bem de São Paulo. Eu tinha uma correntinha só um pouco mais grossa que um fio de cabelo. Meu outro bem mais precioso era o único livro que havia trazido comigo, que eu tenho até hoje, de Turgueniev. Ele está todo escangalhado, mas tem cheiro de livro velho, de infância, de tradução. Ganhei um anel em troca do meu ouro. E, naquele dia, declarei-me paulistana.

Onde você estudou?

Com 10 anos eu estudava em uma escola alemã na Praça Roosevelt. Meus pais acharam que, como a gente já falava alemão, a aprendizagem seria mais rápida, mas não gostei. O clima era meio ruim, por causa da guerra, do nazismo… Então saímos e fomos pra uma escola americana em Higienópolis. Passei a infância no Mackenzie. Depois que me formei tive três empregos de que não gostei.

Qual era a sua função nesses empregos?

Precisavam de uma secretária que falasse inglês. Passei no teste, mas fiquei com medo que me chamassem. Quando ele perguntou o que eu esperava de salário, chutei um valor pago para engenheiros. Pensei que ele diria que era impossível. Mas ele disse “comece amanhã”. Levei um susto. Fui à Casa Sutoris, que era a mais cara loja de sapatos da cidade, e comprei um sapato. Fiquei uns meses lá e vi que isso não era a minha praia.

E como você conheceu o Júlio Gouveia, com quem se casou?

Eu tinha uma vizinha que ia se casar. O Júlio era convidado do noivo. Depois do casamento, fomos para a festa. Eu estava lá com um amigo estudante de medicina. “Tatiana, quero te apresentar um amigo”. E sabe onde ele foi procurar? Debaixo da mesa. E lá estava o Júlio Gouveia, sentado embaixo da mesa, de pernas cruzadas, com uma garrafa de champanhe. Ele já estava meio bêbado, nem levantou, só apareceu a cara dele. Era bonito e simpático. Então ele olhou pra mim e disse: “Tatiana, quer casar comigo?” Foi a primeira coisa que ele me disse.

Foi aí que vocês começaram a namorar?

Passaram-se cinco, seis semanas. Voltando do trabalho, eu estava na Praça do Patriarca, esperando o ônibus, quando o vi e falei para minha amiga: “Aquele é o moço que me pediu em casamento”. Ele atravessou a rua e veio conversar. “Então, meninas, são 18h e eu vou para o cinema.” De molecagem, disse: “Não vou ao cinema em três, vamos tirar cara ou coroa para ver quem vai”. Fui ao cinema com ele. De manhã, quando acordei, olhei pra baixo da janela e tinha um buquê e um bilhete, com uma coluna de decassílabos perfeitos. O cara era poeta, além de tudo. Não demorou muito, casamos de verdade.

E como vocês conheceram Lobato?

Um dia tocou o telefone e, quando atendi, uma voz grave disse: “É da casa do Júlio Gouveia?” E eu: “Quem quer falar? “É o Monteito Lobato”. Ele tinha lido um artigo do Júlio numa revista sobre a obra dele e queria conhecer “esse Júlio”. Para encurtar a história, uma hora depois lá estava o Lobato na porta da minha casa. Depois disso, conheci a mulher dele, a Purezinha, que nos deu a autorização para adaptar a obra dele para a TV.

Mas ele não chegou a viver para ver a versão