Autoestima roubada: a importância da educação antirracista desde a infância

Como acreditar no nosso potencial, se vivemos em uma sociedade que insiste em nos dizer que não podemos?

**Texto por Gizeli Hermano, 34 anos, fiilha de Antônia e Gilberto, psicóloga, criadora da página @encontrocomautoestima, escritora e coordenadora editorial dos livros “Autoamor: um caminho para regulação emocional feminina” e “Autoamor: expressões de gêneros e relacionamentos”

Gizeli reforça a necessidade de empoderar as crianças negras
Gizeli reforça a necessidade de empoderar as crianças negras (Foto: reprodução/Arquivo Pessoal)

Nos últimos cinco anos, tenho atuado na área clínica. Nesse período, meu trabalho passou a ser dedicado ao desenvolvimento da autoestima feminina, sendo na sua maioria mulheres negras. A demanda mais comum entre elas é a dificuldade de aceitar seu potencial.  Essas mulheres, que independente da profissão e do que se propõem a fazer, estão sempre em busca de seu melhor resultado. Porém, ainda que com todo empenho, sentem-se muito distante de alcançar esse ápice, desenvolvem uma autocobrança excessiva e por vezes não conseguem perceber as conquistas ao longo do caminho.

A autoestima é o sentimento que temos por nós mesmos, sua construção inicia-se na infância e vai até a fase adulta. As interações sociais e ambientais que experimentamos ao longo do nosso desenvolvimento resultam nesse sentimento. Precisamos do outro para nos afirmar como pessoa e, posteriormente, alterar esse suporte externo, pelo nosso suporte interno.

Como podemos nos afirmar se ao longo do nosso desenvolvimento encontramos pessoas que insistem em nos desvalidar devido ao tom da nossa pele? Não podemos entrar em determinados estabelecimentos. Não podemos ocupar funções superiores. Não podemos ganhar prêmios. Não podemos ter artigos de luxo. Não podemos correr. Não podemos ser livres. Não podemos viver.

“Eu, senhor, planejo ser uma engenheira da Nasa. Mas não conseguirei sem estudar naquela faculdade de brancos. E não posso mudar a cor da minha pele. Então, não tenho escolha, exceto ser a primeira”, frase do filme “Estrelas Além do Tempo”, de 2016.

Ainda que tenhamos diploma, experiência, habilidades que comprovem a nossa capacidade, estamos sempre acompanhados do sentimento de insuficiência. Isso me fez lembrar algo que ouvi muito da minha mãe na infância: “Já somos pretos”. Era essa a frase que justificava a necessidade da nossa excelência. Olha os modos, ajeita esse cabelo, escova esses dentes, vai passar essa roupa… Já é preta, vai andar de qualquer jeito? Fala de uma mãe preocupada, querendo proteger sua filha.

Quando falamos sobre autoestima de pessoas negras, estamos falando de lidar com cobranças e culpas que não são nossas. O racismo rouba nossa autoestima, antes mesmo de conseguirmos desenvolvê-la. Desde cedo aprendemos a nos preocupar com a imagem que iremos passar, com o padrão que precisamos alcançar, e dificilmente temos a oportunidade de nos conhecermos. A escola que deveria ser um local de desenvolvimento intelectual e social passa a ser o berço de traumas e só nos damos conta na vida adulta.

Crianças pretas perdem sua autenticidade e espontaneidade por serem alvos de ataques, insultos e invalidações ao longo da vida estudantil. E esse cenário não é diferente na vida adulta. Além da autoestima, o racismo favorece o desenvolvimento de ansiedade, medo, depressão, entre outros transtornos emocionais.

Por tudo isso se faz necessário colocar em foco a construção da autoestima na infância de crianças pretas através de uma educação antirracista e da valorização e construção da identidade. Precisamos aprender a nos enxergar desde cedo.
Quando tomamos consciência das consequências do racismo ao longo do nosso desenvolvimento emocional, conseguimos nos libertar da culpa e passamos a acreditar mais em nós mesmos. Auxiliar o processo de resgate da autoestima de mulheres negras tem sido meu próprio resgate. Amar-se é uma luta diária. E para a pessoa negra, é um ato político.