Meu lugar de fala como mulher, mãe e negra

Comecei a questionar meu papel na sociedade ao ver crianças e adolescentes pretos, serem mortos e sepultados, como se fosse normal e me dando conta, que a qualquer momento podem ser os meus filhos, pois os que estão indo, já são um dos meus

**Texto por Stefania Meneses Nascimento dos Santos Oliveira, mulher, filha, preta, casada, advogada, mãe de Emanuele e Paulo Moiséis

Stefania acredita que ainda há muito a ser feito (Foto: reprodução/Arquivo Pessoal)

Sou preta de pele clara e por ter estudado em escola de classe média, moradora da baixada fluminense, não vivenciei o preconceito de cara, já que o tom da minha pele não me identificava como preta… Cresci sabendo que o preconceito existia, uma vez que na minha família somos muitos de todos os tons de pele, mas demorei muito para entender o preconceito, saber que ele convive conosco.

Já formada em direito, atuando na empresa do meu pai, convocada a representá-lo, em uma reunião de Gerentes e Diretores das empresas marítimas, fui identificada como preposta de uma grande empresa Petrolífera, que  tem capital misto, e que admite por concurso Público, já que era uma das poucas mulheres no local e a única preta, até que um Diretor que conhecia meu pai, um dos poucos pretos empresários do ramo naval no Estado do Rio de Janeiro, interpelou e esclareceu, que eu era A FILHA DO ARMADOR X.

Naquele momento o preconceito me “porrou” na cara e percebi o racismo, sua existência e que ele já me acompanhava, por muitos anos, só que a falta de sensibilidade para identificá-lo, como tal, acabou por me blindar de viver e buscar mais.

Hoje, mãe de 2 filhos, pretos, retintos, busco educá-los, de forma que não se anulem, que conheçam seus direitos e dos seus, que sejam observadores do entorno, pois estão sempre sendo observados, que saibam que estarão sempre sendo vigiados e acompanhados por inúmeros olhares.

Nossos antepassados foram trazidos ao Brasil, pela força, tiraram nossas referências, atravessamos oceano, largados em porões de navios precários,  éramos, na chegada nos Portos Brasileiros, vendidos como “coisas” e fizemos a riqueza dos colonizadores e, quando da nossa “liberdade” apenas nos soltaram a própria sorte, não houve qualquer tipo de indenização ou pagamentos, em muitos casos, muitos dos nossos continuaram trabalhando em troca de comida e estadia, pois temiam a morte por fome, por sede.

Criar filhos antirracistas é criá-los para a vida (Foto: Shutterstock)

Hoje a desigualdade social ainda persiste, muitos dos nossos ainda trabalham mais de 20 horas por dia para receberem, diárias extremamente baixas e que não lhes dão o mínimo necessário, para uma vida melhor. Quando analisamos gráficos, é fato perceber que o número de mortes de pessoas pretas, são infinitamente maiores que de pessoas brancas, que o acesso a educação de qualidade não contempla o nosso povo preto.

A educação é a única forma de mudar a realidade dos nossos, contudo manter–se ou manter um filho na escola é caro, ir ou levá-lo até aos campos universitários é desafiador… Quantos dos nossos desistiram e desistem, diariamente, pois sabem que o seu empenho nos estudos torna a renda da família ainda menor!

Sou exceção, minha família sempre zelou pela educação das crianças, meus avós apesar das mazelas da vida, sabiam ler, escrever e faziam contas… Mudaram com seus hábitos e conhecimentos a minha realidade e hoje, ainda mais forte, percebo o quanto sou importante na luta, o quanto a minha liderança incentiva. No entanto, não diminuiu o preconceito, pois ele existe e precisa ser debatido, falado, denunciado e reformulado.

Hoje a luta ainda é desigual, hoje crianças pretas na escola dos meus filhos, ainda são poucas, contudo já teve uma época que nem existiam, portanto eles estão lá, assim como eu sigo aqui por todo nosso quilombo.