A antítese do racismo na relação pais e filhos

A viabilidade de termos o antirracismo de forma latente na criação de nossos filhos

**Texto por Nilton Ricardo, pai de Arthur, Heitor, Gael e Helenna, técnico químico e idealizador do projeto The Dad’s Club, que abrange o perfil @umPAPAIxonado no Instagram, a mediação de rodas de conversas paternas e de masculinidades e o podcast Papo de Pai Podcast

Uma reflexão sobre a necessidade de ser antirracista (Foto: Getty Images)

O ano de 2020 está sendo um ano extremamente desafiador para muita gente. Estamos  longe de um desfecho para a resolução da pandemia e de todas as consequências que o  isolamento social causou e está causando. Contudo, devido aos acontecimentos marcantes  com grande repercussão nas mídias mundiais envolvendo pessoas negras, somente esse ano o Brasil “descobriu” o quanto é um país racista.

Não basta sermos pais e mães super engajados e desconstruídos ao ponto de dizermos  que não somos racistas sem se quer realizar uma auto reflexão se estamos educando nossos filhos para serem pessoas antirracistas. Uma simples olhada na caixa de brinquedos de nossos filhos nos dará uma real  dimensão de como a representatividade negra é infinitamente pequena na sociedade. Esse  pode ser um detalhe mínimo para uma grande maioria de pessoas, mas gigantesco para  aqueles que desde cedo, incentivam seus filhos a levantarem essa bandeira para que não se  tornem adultos omissos, inertes ou racistas.

A questão do antirracismo é extremamente necessária pelo simples fato de ser a antítese do racismo. Considerando sempre que o racismo no Brasil é estrutural e que está enraizado em toda a sociedade, não só nas injúrias raciais, mas está presente também no nosso cotidiano através das propagandas na TV, na política, na economia, no enorme abismo social  e suas diversas diferenças, principalmente quando se faz o recorte nas subjetividades que afetam diretamente as pessoas que são vítimas do racismo.

Nilton sabe que é necessário dar o exemplo para os filhos (Foto: Arquivo Pessoal)

Sendo assim, o antirrascismo deveria ser igualmente estrutural, presente na economia,  na política, na publicidade e nas subjetividades do nosso dia a dia, a fim de termos uma  sociedade que não violente – leia- se, todas as formas de violência – pessoas da pele preta. E onde entra o antirrascismo na criação de nossos filhos? Para contextualizar, eu sou  um homem preto de pele clara, casado com uma mulher branca de origem catarinense e dessa união me tornei pai de quatros lindos filhos, sendo eles: o Arthur de 5 anos, os gêmeos Heitor e Gael de 3 anos, e a caçulinha Helenna de 2 anos. Todos de pele clara e de lábios grossos.

Para mim, o antirrascismo e criação antirracista dos meus filhos são um compromisso,  um conceito e uma prática que necessita ser exercidos diariamente e com uma autoreflexão se  as minhas atitudes e palavras estão de alguma forma violentando diretamente ou indiretamente alguém, incluindo a mim mesmo.

É através do exemplo que irei contagiar meus filhos, de forma que não haja uma linha  de chegada onde eu possa parar de ser exemplo para eles, ou seja, para se criar crianças livres de preconceitos (sejam eles quais forem, incluindo o próprio racismo), primeiramente eu, como pai, tenho que ser uma das primeiras pessoas que irá combater qualquer tipo de opressão.

Sei que é um desafio e tanto, mas falar de maneira franca e simples, utilizando o lúdico como cenário na maioria das vezes, me parece ser o caminho mais viável para mostrar  aos meus filhos o quanto é necessário deixá-los a par do que encontrarão do portão para fora. A premissa principal é sempre respeitar as crianças como indivíduos, falando a verdade e ir adequando o tom da conversa conforme a idade e as diversas particularidades de cada criança.

Estimular sempre a leitura de livros, contos e histórias com personagens negros (sendo  eles reais ou fictícios), apresentar desenhos, animações e filmes onde encontraremos negros como protagonistas, citar exemplos de negros renomados em todas as áreas como no esporte, na educação, na literatura, nos diversos setores de entretenimento, nas ciências, nos ambientes  de alta tecnologia, na política, na economia, nas mais diversas profissões e também através de  pessoas negras do seu convívio, pessoas negras locais da sua rua, bairro e cidade, com o objetivo de mostrar aos nossos filhos que existe sim uma verdadeira representatividade.

Há vários jeitos práticos de mostrar representatividade para as crianças (Foto: Arquivo Pessoal)

Um exemplo prático é aproveitar a situação em que você, pai e mãe, estão assistindo um desenho ou um filme com seus filhos e algum personagem é injustiçado, discriminado, que sofre algum tipo de violência, ou é minimizado como pessoa, tendo como motivação para  esses atos (direta ou indiretamente) o fato da cor da sua pele, e falar para eles que na vida real existe sim muitas distorções e excessos extremamente desnecessários que aumentam ainda  mais as desigualdades sociais, nas relações trabalhistas e educacionais que geram um ciclo vicioso cada vez mais perigoso tanto no Brasil quanto no mundo.

Enquanto não sentimos verdadeiramente a dor do próximo em nós mesmos, nada será mudado. Talvez meus filhos não sofram os preconceitos que eu já sofri, mas deixarei claro a posição de “privilégio” que eles possuem pelo simples fato de não terem herdado a melanina do pai no tom de suas peles e que possam aproveitar esse “privilégio” para serem instrumentos de desenvolvimento do lugar de fala e reflexão sobre os males que o preconceito racial gera, assim como a mudança que pode surgir através do conhecimento e de novas ações nos ambientes em que não haja a presença de negros, pois não bastará que eles não sejam racistas, o ideal é que meus filhos, os nossos filhos sejam antirracistas.