O patriarcado regula o direito de fazer atividades físicas

Quem é impedida de se exercitar e cuidar da saúde física porque tem filhos pequenos e não tem com quem deixá-los?

**Texto por Sâmara Azevedo, mulher gorda, preta e favelada. É Professora da Rede Pública, Educadora Social, mãe, feminista e multiativista. É também pesquisadora de relações étnicas e africanas e Fundadora do Coletivo  Cacheadas e Crespas de Salvador. Ela acredita na estética afirmativa, onde o cabelo e o corpo são manifestações políticas. Sâmara leva o ativismo para além das redes sociais, empoderando e auxiliando pessoas na retomada da autoestima. É persistente, otimista e lutadora.

A cobrança em relação à criação dos filhos não é a mesma para pais e mães
A cobrança em relação à criação dos filhos não é a mesma para pais e mães (Foto: Shutterstock)

Não, minha gente. Eu nem vim aqui “meter o pau” na gordofobia. Outro dia eu farei isso (mais uma vez, risos). Também não vim “justificar meu ócio” para dar uma satisfação à sociedade, até porque eu me exercito – e muito. Poder fazer atividade física hoje, para mim, representa uma conquista gigante, e uma ruptura importante, eu vou explicar o porquê.

Ultimamente percebi, convivendo e observando pais cis hétero normativos, que até (e inclusive) a atividade física é regulada pelo patriarcado e, por consequência, pelo machismo. Não é difícil entender. Vou trazer exemplos reais de conhecidos meus, os quais mudarei os nomes para não me comprometer, mas provavelmente, veremos alguns se identificando.

O primeiro exemplo é o de José, que tem 5 filhos com mulheres diferentes, pratica musculação, boxe e Jiu Jitsu, se alimenta de forma saudável e, obviamente, não deixa de postar sua rotina fitness nas redes sociais. Uma inspiração, não é? José fala constantemente sobre criação de filhos, limites, e relata com emoção sobre suas filhas mais velhas, já formadas na universidade.

O segundo exemplo é o de Antônio, que tem dois filhos com mulheres diferentes, não criou nenhum dos dois, faz caminhadas longas de 20 km para cima, faz trilhas, dieta e, óbvio, tudo isso está registrado nas redes sociais. Exemplo de força, superação e autocuidado. É um crítico ferrenho da criação dada ao seu filho mais velho, um pré-adolescente de 12 anos, e só não critica a criação do mais novo porque isolou o menino e a mãe, em decorrência de desavenças pessoais. A pensão está em dias.

O terceiro é João, que tem um filho. Pratica musculação, boxe, Jiu Jitsu e participa até de campeonatos fora de Salvador. Tudo devidamente registrado nas redes sociais. Uma trajetória belíssima de força de vontade, superação e saúde. É aquele paizão que nunca está em casa no dia da guarda do filho, nunca leva a criança para um lazer, mas tem críticas ferrenhas sobre o tipo de educação que a mãe dá.

Estaria tudo ótimo se eu não fizesse as seguintes perguntas: cadê seus filhos? Quem cuida das crianças enquanto eles defendem suas rotinas fitness nas redes sociais? Quem os cria? Quem faz o almoço deles? Quem os acompanham na escola? Quem cuida de seus filhos quando eles adoecem? Quem falta no trabalho para cuidar dos seus filhos? Quem falta no treino na academia para cuidar de filho doente?

Dinheiro de pensão compra tempo? Dedicação? Atenção? Saúde? Quem é impedida de se exercitar e cuidar da saúde física porque tem filhos pequenos e não têm com quem os deixar? Eu quero as respostas!!

O mais interessante de tudo isso é que as mães, talvez, se exercitem! E talvez, também, elas façam isso porque têm uma rede de apoio formada por MULHERES, e isso as possibilitam de fazer, pelo menos, uma caminhada em nome da saúde.

Não é tão simples para as mães manterem uma rotina fitness, uma vez que os cuidados com os filhos ficam concentrados nelas
Não é tão simples para as mães manterem uma rotina fitness, uma vez que os cuidados com os filhos ficam concentrados nelas (Foto: Arquivo Pessoal)

Vivemos em uma sociedade que exige demais das mulheres, cobra demais das mulheres sem pensar em “detalhes” que são importantíssimos para entender como o patriarcado regula nossa vida até hoje. Isso é tão perverso e tão cruel, que até no puerpério, um dos momentos mais sensíveis de nossas vidas, somos cobradas a ter “o corpo de antes”. O que pode ser mais agressiva do que essa exigência? Ver as mulheres sucumbirem a esse despropósito.

Estou falando de atividade física, mas posso falar de várias outras atividades que, para os homens, são corriqueiras. Ir ao banco. Comer. Fazer um sexo casual! Tudo isso pode ser fácil para os homens, mas para as mulheres pode representar uma verdadeira maratona.

Já vi pai “bodybuilder” dizer que não será possível cumprir a guarda compartilhada por causa do campeonato de jiu-Jitsu que vai participar. Já vi pai fitness expor a mãe em grupo de WhatsApp com foto e tudo por causa das palmadas que ela deu no filho, mas esse mesmo pai é a favor dos “corretivos” que o amigo deu no filho porque o menino tinha jeito de “viado”. O patriarcado autoriza muitos absurdos, e há quem compactue com essa barbárie.

Já passei três noites acordada com filho doente pra crush me dizer que eu precisava mesmo era cortar o açúcar, porque faz muito mal, e descansar fazendo uma caminhada. Já vi “bodybuilder” discordar da criação do filho dada pela mãe, e postar foto treinando na academia no horário do almoço, afinal de contas, “tempo não é desculpa”, principalmente se não é ele o responsável pelo almoço do próprio filho.

Para quem não tem preocupação com horário de almoço de filho, nem com a cartolina do trabalho da escola, com as frustrações de um filho pré-adolescente, qualquer hora, é hora para se exercitar, não é mesmo?

Nós, mães, somos muito exageradas… fazemos drama com tudo. Colocamos os filhos em uma redoma, sem necessidade alguma! Criar filho é tão fácil… Tão tranquilo… “O menino não dá trabalho nenhum, ela está se queixando à toa”. “Eu sei disso porque falo com ele todos os dias pelo WhatsApp”. “Quando está aqui em casa ele não é assim”. (Contém ironia).

Quando o filho vai bem na escola, é por que ele é muito inteligente. Quando perde o ano ou vai para a recuperação, é porque a mãe não acompanhou os estudos dele adequadamente. Vou propor a vocês um exercício de observação, a partir de hoje: quantas mulheres, de sua convivência, conseguem ser mães e atletas, ao mesmo tempo, sem uma rede de apoio? Refiro-me às mães com filhos pequenos, que dependem delas. Façam esse exercício e voltemos a conversar sobre o assunto. Queria tanto resolver tudo na vida com dieta e agachamento… Será que pode?