Criança

Ana Castelo Branco fala sobre ter um filho com Síndrome de Down

"E foi esta a imagem que veio na minha cabeça quando recebi a notícia sobre meu filho"

Redação Pais&Filhos

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Foto: iStock

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 2012, tive meu primeiro filho. Só isso já é suficiente para transformar a vida de qualquer um. Mas eu tive uma surpresinha a mais. Meu filho nasceu com síndrome de down. E não vou mentir, foi punk. (Quem me conhece sabe que nunca escrevo o nome da danada em letras maiúsculas. É meu pequeno protesto pessoal, um jeito de mostrar que não dou grande importância a ela.)

Mas o tempo foi passando, eu e meu marido fomos digerindo a história toda e o que ficou foram dois grandes medos: do preconceito e do futuro.

Sobre o preconceito, posso dizer que, durante um bom tempo, não tive do que reclamar. Minha fé na humanidade ia bem, obrigada. Não passamos por nenhuma situação chata, não ouvimos nada de desagradável. Até o fim de 2015, quando chegou a hora de procurarmos uma escola e tudo mudou de figura.

Em três escolas, a história foi exatamente a mesma. Eu ia conhecer o lugar, conversava, tirava dúvidas e perguntava sobre as vagas. Tem? Não tem? Sempre tinha. Tinha. Até eu fazer a grande revelação: meu filho tem síndrome de down.

A partir daí, o roteiro se repetia. Começava com um “veja bem” e terminava mais tarde com uma ligação dizendo que havia acontecido um engano e que não havia mais vagas para o Mateus. Ah, e nem para a Helena. Ainda não contei que tenho uma filha caçula com apenas 1 ano de diferença. E, não tenho dúvidas que, por vergonha de admitir que não aceitariam apenas o Mateus, eles também acabavam não aceitando a Helena também.

Ah, tem também as duas escolas “super inclusivas” que visitei. Nelas não tive problema para conseguir vagas. Tive problema foi para entender o conceito que elas têm de inclusão. Já que as crianças com necessidades especiais estudam em turmas separadas das outras. Se é que dá para chamar de “estudar” o que eu vi essas crianças fazendo naquelas salas de “aula”.

Em uma delas, foi simplesmente sensacional, a diretora ficou se gabando meia hora de ser pioneira em inclusão no Brasil. Disse que foi a primeira a aceitar “este tipo de criança” e tal, tal, tal. Mas… que, depois de anos insistindo, percebeu que inclusão não funciona. Que só serve para atrasar a turma e frustrar a criança “especial”. Aí, ela resolveu parar com essa história e separar todo mundo de novo. Dá para acreditar?

Se tem uma coisa que aprendi desde que o Mateus nasceu é que tem bem menos “normalidade” rolando por aí do que eu imaginava.

Uma em cada 600 crianças tem síndrome de down.

Uma em cada 80 tem autismo.

Não sei o número de crianças com paralisia cerebral.

Nem o número de crianças que não escutam, que não enxergam, que têm dislexia.

E muito menos sei o número de crianças com dificuldades misteriosas.

É. Depois que comecei a fazer parte deste universo, depois que passei a escrever sobre meu filho, conheci um número enorme de casos muito difíceis sem nome, sem explicação e sem tratamento.

Tem criança que simplesmente não aprende a falar. Tem gente que teve um desenvolvimento padrão até o começo da adolescência e, aí, começou a ter dificuldade no aprendizado, nos relacionamentos. Tudo assim, do nada.

Então, pensa: se a gente for somar tudo isso, será que não chegaremos à conclusão que temos muito mais pessoas fora do padrão do que dentro?

Não vou nem