Primeira, segunda e terceira infância: saiba como conversar com o seu filho em cada uma das idades

Dos 0 aos 3, 3 aos 6 e 6 aos 12 anos, muita coisa muda durante o desenvolvimento do seu filho, exceto uma coisa: a necessidade da comunicação clara e direta, o respeito e verdade para a formação de um vínculo sólido entre a criança e o adulto

Resumo da Notícia

  • A idade da criança nem sempre vai condizer com as habilidades que ela terá
  • Isso porque ela precisa ter sido estimulada desde sempre pelos pais para conseguir realizar tarefas que fazem parte do desenvolvimento dela
  • Entenda como conversar e estimular seu filho durante a primeira, segunda e terceira infância

“Você já tem idade suficiente para saber isso”. Essa afirmação pode até ser verdadeira, mas depende do contexto. Crianças, por mais que já tenham atingido uma fase específica do desenvolvimento que as permite estar prontas para entender ou realizar determinadas atividades, precisam ser estimuladas desde o primeiro dia de vida pelos pais para que elas consigam ter as habilidades que esperam que ela tenha com determinada idade.

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“O desenvolvimento cerebral na criança se dá em contato com todos os estímulos que a cercam, desde o momento em que se forma no útero materno. Mas a partir do nascimento um outro elemento entra em cena para que o desenvolvimento cerebral aconteça: o contato com a civilização. Uma vez que isso acontece, esses adultos que a rodeiam vão ajudá-la a decodificar, interpretar e compreender o mundo que a cerca”, explica Ana Carolina Elston, psicóloga e psicanalista, especialista em infância, adolescência e orientação de pais e mãe de Benjamín e Marina.

E são esses estímulos que fazem toda a diferença para a criança. “Quando a criança fica um pouco maior, às vezes a família quer se basear no que é esperado para a idade e começa a cobrar isso. Cronologicamente, ela já tem desenvolvimento cerebral para desempenhar determinada habilidade, mas se ela não foi estimulada antes disso, não será possível corresponder ao que é esperado”, explica Eliete Faria, neuropediatra, colaboradora voluntária do ambulatório de transtorno do espectro autista PROTEA do Ipq da FMUSP e mãe de Sara e Estela.

O cérebro da criança começa a se desenvolver durante a gestação e só fica completamente maduro na idade adulta
O cérebro da criança começa a se desenvolver durante a gestação e só fica completamente maduro na idade adulta (Foto: Getty Images)

Respeitar a maturação cerebral da criança é fundamental. Os pais precisam saber o que podem esperar do filho em cada etapa do desenvolvimento dele e como agir para que ele seja incentivado da maneira correta. “Em momento nenhum do desenvolvimento infantil o adulto deve esperar que a criança se adapte e compreenda o mundo dos adultos. Pelo contrário, é tarefa dos pais ajudar o filho nessa interpretação e adequação ao mundo”, ressalta a psicóloga e psicanalista.

Divididas entre primeira, segunda e terceira infância, as fases de desenvolvimento da criança devem ser vividas de maneira plena, sem que sejam puladas ou aceleradas ao longo do primeiro ano de vida até quando ela completa 12 anos. Aqui, a gente te conta o que acontece dentro do cérebro do seu filho durante essas etapas e o que você pode (e deve) fazer para ajudá-lo a ser estimulado de maneira saudável.

Primeira infância

Considerada a base do desenvolvimento da criança, a primeira infância acontece entre o momento do nascimento do bebê até os 3 anos de idade. É aqui que o filho cria uma relação de vínculo e reciprocidade com os pais. Essa etapa é extremamente sensorial, e, por isso, também pode ser considerada muito palpável. “Todas as áreas estão em amadurecimento. É uma fase em que as crianças estão muito concretas, então ela não entende brincadeiras de duplo sentido e metáforas. As explicações precisam ser diretas e sucintas, simples, para que ela vá processando a informação”, afirma a neuropediatra.

Na maior parte das ocasiões, você vai precisar repetir várias vezes a informação que passou para o seu filho – isso é natural e faz parte do processo de entendimento dele. Depois de processar o que foi comunicado a ela pelos pais, a criança vai fazer várias perguntas sobre o assunto que devem ser respondidas de forma objetiva, clara e simples (com o conteúdo sempre de acordo com o que faz sentido para a idade dela) e livre de mentiras: isso pode prejudicar a relação de relação do filho com os responsáveis por ele.

E não adianta gritar: o cérebro da criança ainda está em desenvolvimento, o que significa que estruturalmente ele não é capaz ainda de entender várias coisas. Conversar de maneira calma e clara e acolher as emoções do seu filho são fundamentais para ajudá-lo a ter um amadurecimento saudável e sem estresse tóxico, algo que pode ser prejudicial para ele a curto e longo prazo.

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A primeira infância acontece a partir do nascimento e vai até os três anos de idade da criança (Foto: Shutterstock)

Segunda infância

Entre os 3 e os 6 anos de idade da criança, acontece a segunda infância. Nesse momento, seu filho começa a ganhar mais independência: ele já consegue comer segurando um garfo, escova os dentes sozinhos e já pode começar a assumir, aos poucos, algumas responsabilidades com a supervisão dos pais. Ele também passa a se relacionar com os pais e outras pessoas de fora da família de uma maneira mais complexa.

Mais do que nunca, a brincadeira aqui é o fio condutor para você conversar com o seu filho e estimulá-lo. Inserir o brincar no dia a dia da família e nas tarefas diárias dele , juntamente de explicações objetivas e claras, é a melhor maneira de garantir que ele vá seguir os seus pedidos e entender a importância de, por exemplo, ajudar a guardar os brinquedos que usou, tomar banho e se alimentar com o que os pais ofereceram para ele durante as refeições.

A comunicação acessível é uma grande aliada dos pais. Durante essa fase, seu filho entenderá muito mais o que ele pode fazer do que o que não é permitido. Junto de uma explicação simples e direta, oriente a criança a seguir pelo caminho das coisas que ele é liberado pelos pais. Por exemplo: em vez de dizer que seu filho não pode brincar de jogar a água do banho para fora da banheira, ele pode se divertir com os brinquedos dentro dela.

Terceira infância

O período da terceira infância engloba os 6 anos de idade da criança até os 12, quando ela está prestes a se tornar uma pré-adolescente. “Nesse momento, todas as habilidades relacionadas à organização, planejamento e auto regulação emocional vão ganhando um maior destaque, e conseguem ser atingidas sempre nos casos em que a criança foi recebendo os estímulos de forma adequada desde os três anos”, explica a Dra. Eliete.

“Nessa fase, os pais podem colaborar oferecendo autonomias proporcionais à idade e também tarefas em casa para estimular a responsabilidade com o coletivo. A partir disso, até mesmo a autoestima melhora, pois a criança se percebe como um membro importante da família e, consequentemente, mais tarde vai se sentir um membro valioso para a sociedade”, ressalta Ana Carolina.

Ouvir o que seu filho tem a dizer aqui é a melhor forma de vocês se comunicarem. A brincadeira vai te ajudar a guiar conversas e pedidos, mas sua melhor amiga durante essa fase será a paciência: a quantidade de perguntas irá aumentar e a teimosia pode dar as caras em alguns momentos. “A comunicação entre pais e filhos nessa fase é importantíssima! E o apoio social que recebem dos avós, amigos e professores é fundamental para o bom desenvolvimento da autoestima da criança. Além disso, os responsáveis devem evitar ao máximo utilizar de falas para diminuir, ridicularizar, humilhar seus filhos”, orienta a psicóloga.

Ouvir o que seu filho tem a dizer aqui é a melhor forma de vocês se comunicarem
Ouvir o que seu filho tem a dizer aqui é a melhor forma de vocês se comunicarem (Foto: Getty Images)

Haja paciência!

“Somos os seres sobre a Terra cuja fase de preparação para a vida adulta leva mais tempo. Durante toda a infância, o acolhimento dos pais aos sofrimentos e necessidades básicas dos filhos seguirá sendo fundamental para nutrir o vínculo entre eles e para fomentar que a criança consiga auto regular suas emoções no seu processo de amadurecimento. Um dia, ele vai internalizar o amor recebido e poderá ele mesmo se comportar na vida autônoma, segura de si e com autoestima elevada”. Diante do contexto levantado por Ana Carolina Elston, é possível perceber que o caminho é árduo – recompensador também, mas exigente para com os responsáveis dessa criança.

Paciência é uma virtude. Nem todas as pessoas nascem com ela, mas é (muito) possível desenvolver essa habilidade – e para os pais, até mesmo os mais tranquilos, quanto mais, melhor! Para não perder o equilíbrio mental durante os momentos complicados, a psicóloga conta que a melhor saída é lançar mão de estratégias simples, mas que ajudam muito os adultos a se recomporem.

A primeira e clássica é: pare o que você está fazendo e respire. Depois, se afaste da situação para poder se acalmar e retornar a ela, ou peça para que outra pessoa conduza com a criança o momento difícil. Vale relembrar que gritos não ensinam seu filho sobre o que ele deve fazer ou não, somente aumentam o nível de estresse dele e enfraquecem o vínculo familiar.

“Não é um processo fácil e exige constantemente que o adulto se lembre que ele é o cérebro maduro da relação. Cabe a ele se acalmar para permitir à criança superar a desorganização de suas emoções, para aos poucos reconhecê-las, nomeá-las, organizá-las e auto regulá-las no futuro”, finaliza a psicóloga. Não é uma tarefa fácil, mas acredite: a conversa e o acolhimento se transformam em colaboração. Uma relação de confiança e amor entre pais e filhos vai garantir que a criança cresça e se desenvolva de maneira saudável e feliz.