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Bom dia, leitura!

Se você é como eu, mal abre os olhos pela manhã e zás... já começa a ler, então está na hora de rever o seu conceito de leitura!

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(Foto: iStock)

Quando conto para as pessoas que sou editora e trabalho com livros, invariavelmente elas me olham de lado e dão aquele sorrisinho sem graça: “nossa faz tanto tempo que eu não leio…”. Invariavelmente também, provo a elas que não é bem assim. Salvo situações extremas de pobreza, conflito e guerra, todos nós no mundo inteiro estamos lendo, e muito. Explico.

Não tenho mais despertador na minha mesinha de cabeceira. Acabo de retirar o abajur. Agora deixo ali apenas aquela famosa pilha de livros não finalizados e o meu celular, é claro. Este já não é usado apenas para comunicar com os outros, mas também como despertador e como “luizinha”. Uso a função lanterna à noite para iluminar aquilo que estou lendo e logo cedo para iluminar o ambiente do quarto. Resultado, logo que acordo, já que tenho que pegar o celular para desligar o alarme do despertador e iluminar o ambiente, por que não ler as mensagens do whatsapp? Meu dia começa com uma leiturinha rápida. E aposto que o seu também!

Se você acaba de pensar que eu estou errada, pois isso não é leitura, que a leitura é algo mais profundo, que texto bom é aquele que nos faz aprender, refletir etc. e tal, está na hora de você começar a rever alguns conceitos. Calma, tenho muita bagagem teórica, mas minhas reflexões são sempre práticas. Acompanhe o meu raciocínio.

Meu filho Fernando, aos 10 anos, fazia o mesmo que eu atualmente. Despertava com o celular e já começava a ler. Há três anos, ele amanhecia consultando as informações sobre a meteorologia do dia e depois lia o TECMUNDO, um canal de notícias sobre tecnologia do qual era assinante.

Era uma graça. Eu de roupão e pantufas no maior frio e ele de bermuda e camiseta: “mãe, não insiste, não vou por casaco, já consultei a temperatura do dia, às 9h já sobe para 20 graus e até o meio dia vai estar em 28, nem vem”. Foi assim que ele conquistou o direito de sentir o próprio frio, e não mais o da mãe. Foi lendo em busca de informações que ele se livrou de mim. Ou pelo menos do meu frio!

Mas ele prosseguia ainda mais fofo: “você viu que as ações da Google caíram? Sabia que o FB comprou o whatsapp?”. Claro que eu não sabia, como prossigo sem saber até hoje. Mas ele já estava informado, saia para a escola, às 6h30, pilhado com tanta notícia importante.

E isso não é ler? Por favor, não menospreze o noticiário sobre o tempo. Lembre-se de que há canais de TV e rádio que se dedicam exclusivamente a isto. Se o jornal da noite não trouxer informações sobre o tempo parece que ele está incompleto. Eu mesmo poderia dizer que sou especialista no assunto, dado que já cursei a matéria climatologia tanto na graduação como na pós-graduação da USP.  Se não fosse insólito, até me apresentaria como uma expert. É que sou do tempo que quando a gente gostava de um tema, a gente estudava, fazia curso. Já fiz um monte de cursos e confesso que agora, avaliando o meu currículo, eles soam realmente como algo no mínimo curioso. Da climatologia ao origami. Bem que meus filhos sempre me alertam: “mãe, hoje não é mais assim, não precisa ficar fazendo curso só por que você gosta de algo, tem outras formas de aprender”. É talvez este seja mais um conceito que eu deva repensar. Será que você também?

Mas voltemos à leitura matutina do Fê. Sim, ele lia muito logo pela manhã. No celular, é claro. Lia manchetes, notícias, resenhas, tabelas e gráficos. Tipos de textos que geralmente predominam nos jornais impressos. Se ele estivesse com um jornal impresso nas mãos estaria lendo mais e melhor? Mentira. Esse é o primeiro conceito que você precisa mudar: a leitura não acontece mais e melhor quando impressa em uma folha de papel. A leitura simplesmente acontece em qualquer suporte, impresso ou digital, pois quem a realiza é a pessoa e não o meio no qual chega até as pessoas. Se a pessoa lê bem no papel, ótimo. Se ela lê bem em uma telinha pequenininha como a de um celular, ótimo também. Se ela lê bem nos dois meios, impresso e digital, sorte a dela. Tem mais opções de leitura.

1. O primeiro conceito a ser revisto é este: lê-se tão bem no digital quanto no impresso. Não há pesquisa no mundo que tenha comprovado que um é melhor do que o outro.

E se você encontrar alguma pesquisa que aponte na direção oposta, por favor, me encaminhe o quanto antes. Quem sabe mudo de opinião. Mas por enquanto talvez seja você quem deva aceitar que sim, todos nós lemos muito bem no celular (ou em qualquer outro suporte digital). “Ah não sei não, não estou acostumado, prefiro ter o livro nas mãos”. Tudo bem, não tem problema, é uma questão de preferencia. De gosto. E não de possibilidades/impossibilidades ou, pior ainda, melhor/pior. Eu amo os livros impressos – sou uma editora de livros impressos. Mas confesso que detesto ler o jornal impresso. Fico com as pontas dos dedos sujas e o cheiro me desagrada. Jornal agora só no tablet.

Talvez você esteja pensando que se o Fernando lê apenas notícias, talvez ele não esteja efetivamente lendo. Quantos livros ele leu recentemente? Sinceramente, fora aqueles que a escola mandou e que ele leu com muita má vontade, mais nada. Bom, este é mais um conceito a ser repensado: quem disse que ler é ler livros? Quem disse que uma pessoa é mais leitora do que a outra só por que gosta de romances? Existem muitos tipos de texto e nenhum é mais bacana ou interessante do que o outro. Se eu gosto mais de romance e você prefere revistas de esportes, por exemplo, não há nada que comprove que eu leio melhor do que você!

2. O segundo conceito a ser revisto é este: ler não é ler apenas romances e a leitura não ocorre apenas quando temos um livro nas mãos. Todo tipo de texto é válido, curto ou comprido, poético ou informativo, mais profundo ou tremendamente superficial!

O problema do Fê atualmente é que quando ele abre o olho pela manhã e antes de fechar o olho à noite, a sua leitura se resume a um texto basicamente composto por uma ou duas palavras. É que ele, assim como todos nós, concentra as suas leituras no whatsapp, ou seja, nas mensagens que troca com os colegas, principalmente. São basicamente frases como “bom dia, bom dia, bom dia”. Ou “eu, eu, eu”. Ou ainda “cheguei, cheguei, cheguei”. Sei disso por que analisei mais de um mês de conversa no whatsapp dele. Queria saber o que rolava, pois a escola andava falando mal do grupo, que as crianças se agrediam. Mentira. As conversas eram basicamente sobre quem tinha feito a lição de casa, se alguém tinha visto a partida de futebol, quem já estava na escola.

Não tenho absolutamente nada contra a leitura nas redes sociais. Conheço pessoas, inclusive, que conseguiram ampliar seu círculo de amizades (real, não apenas virtual), vivenciando trocas intensas de informação e de opinião apenas pelo whatsapp. Acho ótimo. Mas, como sou pedagoga e o paralelo com a nutrição é sempre um recurso, vou esclarecer ainda mais o meu ponto de vista.

Ler apenas nas redes sociais é como acordar de manhã e só tomar uma xícara bem grande de café preto cheio de açúcar. Dá energia, faz acordar. Eu mesma não vivo sem. Mas não serve para nada. Pelo contrário, no curto prazo vicia e engorda. Faz mal até.

Supondo que você também leia informações sobre o tempo, digo que à sua xícara de café foi acrescentado um pouco de leite e estamos quase na mesma. Algum tipo de notícia? Ótimo, agora já temos um pedaço de pão com manteiga, quem sabe até uma fatia de queijo. Mas e as frutas? Ovos? Você prefere um desjejum sem carboidrato? Com mais proteínas? Sal e gordura? Vegano? Qual é a sua?!

Assim como a consciência daquilo que comemos nos faz ter maior controle sobre nós mesmos, a consciência sobre aquilo que lemos também. E não tem fórmula mágica aqui não, apenas consciência e desejo. Consciência que após um final de semana cheio de pizza, doces e churrasco, na segunda é preciso maneirar. Após horas e horas lendo apenas nas redes sociais, talvez seja o caso de decidir ler outras coisas. Ah, mas não tenho tempo, faz tempo que não… O que, vamos voltar ao ponto de partida?!

3. Este é o terceiro conceito a ser revisto. A decisão do que ler é sua, toda sua. Não dá mais para culpar ninguém pela sua trajetória enquanto leitor – nem as editoras, nem as livrarias, nem o trânsito, tampouco a falta de tempo… Com as publicações digitais, são centenas/milhares de livros, revistas, teses, quadrinhos etc., etc. etc. possíveis de acessar com os mesmos cliques com os quais acessamos as redes sociais.

Se você entendeu os meus argumentos, então, pode fazer como eu ao acordar logo cedo: pegar o celular sem culpa e dizer “bom dia leitura!” com a certeza de que todo um mundo de palavras pode se descortinar à sua frente.

P.S. O Fernando pediu para avisar que ele leu mais de 100 livros no celular nos últimos meses, sobretudo mangás – que ele só consegue ler de forma digital, pois quase não há traduções publicadas no Brasil e o que chega de livro importado, além de caro, não contempla os seus personagens/histórias favoritos!

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