A maternidade atípica de uma mãe solo preta

Perder os “falsos respeitos” com a deficiência, abandonar a carapaça que apregoa limitações e incapacidades, limpar os olhos e ver as pessoas, todas as pessoas, como seres humanos. Até quando uma mãe preta atípica terá que gritar mais alto?

**Texto por Camila Emerick Pinto, de 43 anos. Professora da rede municipal há 25 anos e está na equipe de Educação Inclusiva do Município desde 2021. Mãe de Bento Emerick, de 3 anos

A maternidade atípica precisa ser discutida
A maternidade atípica precisa ser discutida (Foto: Arquivo Pessoal)

Tudo começou com o sonho de uma mulher: engravidar. Era o sonho de toda uma existência… SER MÃE! Engravidei tarde para a sociedade (eu estava com 39 anos), mas no tempo certo para mim. Em nenhum momento, pensei que poderia ter um filho com deficiência; meu objetivo era não ter um aborto… Queria muito que esse bebê ficasse comigo.

Quando, porém, eu estava com 23 semanas de gestação, vi o hálux (o dedão) afastado dos demais dedos na ultrassonografia e então começaram as dúvidas, o desespero. Em nenhum momento, a ultrassonografista falou algo. Fui ao meu obstetra que disse que o importante naquele momento era ver como estava o coração (estava 100%) e me questionou se Bento deixaria de ser meu filho caso viesse com T21. Mas o sentimento vai além de tudo isso. Eu já tinha ideia do que eu teria de enfrentar, por ser educadora e estar sempre envolvida na causa. Logo pensei: “Ferrou”, porque além de lutar contra o racismo, precisarei lutar contra o capacitismo, pois sabemos o quanto tudo é mais difícil para pessoas com deficiência.

Essa criança já teria que nascer preparada para brigar, teria que nascer forte. Mas será que eu, enquanto mãe, aguento tudo isso? E ainda mais: mãe solo. Infelizmente, muitos homens fogem à responsabilidade quando nasce uma criança com deficiência. Falei com poucas pessoas a respeito da suspeita da T21, mas de um grande número delas ouvi que praticamente não existiam pessoas com Síndrome de Down pretas; por tal razão, seríamos e/ou estaríamos imunes (quanta ignorância!); usavam essa afirmação como uma espécie de conforto.

Realizei diversas pesquisas para ver o que diziam os sites, porque eu também não queria um filho com deficiência. Mas, no fundo, não era esse tipo de conforto que eu queria. Meu desejo era que falassem algo como “tudo bem ele ter uma deficiência; será amado e respeitado”.

Após o nascimento, recebi a notícia no corredor do hospital, ainda anestesiada e sem ter tomado meu filho. Disseram: “Ele tem orelha baixas, prega palmar única… Ele tem Síndrome de Down”. E o colocaram em cima de mim. Acredito que se eu estivesse em um hospital particular, se eu fosse branca (dizem que eu vejo racismo em tudo, mas será por quê?) e se tivesse ali um pai, eu teria sido mais respeitada. Ignoraram, inclusive, o pedido da minha mãe que era o de deixar a família me contar. Quando falo sobre tudo isso, ainda sinto, ainda dói (Sim… Estou chorando). Não me deixaram conhecer meu bebê, não deixaram eu pegar meu filho sem estar colada uma etiqueta na testa dele com um diagnóstico. Ele é uma pessoa antes de tudo isso.

Precisamos quebrar estereótipos e colaborar para um mundo mais inclusivo
Precisamos quebrar estereótipos e colaborar para um mundo mais inclusivo (Foto: Arquivo Pessoal)

Fiz o cariótipo (exame que comprovaria a T21) com a ajuda das enfermeiras, pois eu não tinha como pagar no momento. Enquanto aguardava o resultado, eu apresentei meu filho e já dizia que ele tinha T21. Mesmo assim, ainda diziam que deveria ser um engano ou que nunca tinham visto uma pessoa preta com T21. E pelo o fato de ele, quando bebê, ter um tom de pele mais claro, também houve quem me perguntassem se ele era mesmo meu filho.

Ser mãe do Bento é a melhor coisa que me aconteceu. Vivo essa maternidade intensamente; poderia e deveria ser mais leve. Desafios? Muitos. Mas isso não significa que não é bom e que não somos felizes. Ter um filho com deficiência faz de cada pequeno momento grandiosa oportunidade para aprender que somos muito mais do que diferenças, que somos muito mais do que iguais, que somos humanos. É algo talvez impreciso, inexato, mas um filho como Bento fez de mim uma pessoa diferente, mais humana e mais atenta aos outros. Ampliou a minha capacidade de amar.

Quando o veem bonito e bem arrumado, falam felizes que ele não parece ou não aparenta ter Síndrome de Down como se isso fosse bom. Não é bom. Pessoas com deficiência não podem ser bonitas? Está na hora de a sociedade enxergar além das deficiências e da cor da pele. Vejo que o que uma mãe atípica branca fala tem mais peso; elas têm mais voz. Posso falar antes a mesma coisa e sou ignorada, como se eu valesse menos. Até quando vamos ter de gritar para sermos ouvidas?