A saga de uma guerreira na luta antirracista

Se queremos ver uma mudança no mundo, precisamos começar fazendo a nossa parte

**Texto por Lucimar Cunha, ou Tia Lú, negra, mãe, professora e escritora

Bonita, competente, engraçada… Essas são algumas das minhas qualidades. Ah! E humilde, claro. O problema é que por muito tempo eu esperei que outras pessoas reconhecessem essas qualidades em mim, mas como acontece com as meninas e mulheres pretas, esse reconhecimento não vem se você não se valorizar. Eu consegui esse reconhecimento através de muita dor e trabalho.  Aqui vocês vão conhecer um pouco da minha história e do meu trabalho.

É preciso praticar a educação antirracista e apresentar referências para nossas crianças
É preciso praticar a educação antirracista e apresentar referências para nossas crianças (Foto: Arquivo Pessoal)

Sempre fui apaixonada pelo meu trabalho. Para mim, ser professora infantil significa educar crianças para que sejam protagonistas de suas histórias e não se deixem levar pelos preconceitos que destroem nossas vidas, principalmente as vidas negras. A pandemia me tirou da sala de aula, me afastou da minha paixão. Me trouxe doença, depressão e solidão. Mas foi aí que veio a reviravolta na minha vida.

Meu primeiro neto nasceu, meus sonhos antigos de escrever, contar histórias (sempre fui uma ótima contadora de histórias) e levar alegria para as crianças cresceu. Recebi, de meu trabalho, a proposta de fazer um vídeo com atividades para os alunos da escola a qual trabalho como Professora: contar histórias para as crianças fazendo a interação mesmo distante.

Meu planejamento já estava pronto, nele eu havia criado uma versão da música “O sapo não lava o pé”, que se chama “O sapo lavou a mão”, então passei para minha coordenadora pedagógica e disse que não gravaria vídeo. Não me sentia emocionalmente estável para isso. Mas a responsabilidade somada ao amor que sempre tive por meu trabalho, gerou inquietações dentro de mim. Martelavam em minha cabeça, me atormentando. Então, gravei o vídeo, e antes de mandar para escola, mandei para uma amiga para que mostrasse à filha. A resposta veio de imediato: “A Marina gostou tanto que pediu mais”.

Me senti motivada a fazer outros e até uma história escrevi “Preto, pretinho. Negro, negrinho”. Essa foi a primeira de muitas. Outras emoções se infiltraram em meus pensamentos, trazendo equilíbrio e estabilidade a mim. Recomendada por meu irmão, Nando Cunha, ator, fiz um Instagram para que outras crianças também pudessem assistir e acompanhar minhas produções e para que eu fosse representatividade. Afinal de contas, tudo era feito para elas.

Mas não parou aí, sempre que pensei em escrever um livro, queria que fosse desenhado por uma criança. Na verdade, queria que fosse minha sobrinha, mas ela só desenhava se eu não mostrasse a ninguém (rs). Como fazer um livro assim? Era um projeto para um futuro bem distante, mas no aniversário da menina Lua Oliveira (criadora da biblioteca O mundo da lua) fiz de presente uma história para ela. Através de Fátima, mãe da Lua, essa história chegou ao autor Carlos Gomes que resolveu nos presentear com a edição do livro.

Livros são uma excelente forma de promover uma educação antirracista
Livros são uma excelente forma de promover uma educação antirracista (Foto: Divulgação)

Nisso voltou o meu conflito, quem desenharia? Encontrei várias e ótimas ilustradoras, mas não era esse meu sonho ou minha vontade. Já com ilustradora escolhida vi desenhos da filha de uma amiga no Facebook e me apaixonei. Conversei com o Carlos Gomes e Ana Clara, de 12 anos, passou a ser a ilustradora oficial. Mas as histórias continuavam. Preocupada com a quantidade e a pressão sobre Ana Clara, tive a ideia de criar o projeto que daria a oportunidade a outras crianças. Já são 9, os ilustradores mirins espalhados por aí e 19 histórias escritas. O projeto só tem uma exigência: peço que o personagem principal seja negro. Essa exigência se faz, visto que em resultados de pesquisas da população do país, mais da metade é composta por negros. Sendo assim, considero justo que recebam o protagonismo merecido. Esse é um projeto que visa a educação antirracista.

O projeto desperta não só o talento artístico como também o gosto pela leitura uma vez que ela recebe o texto e precisa interpretá-lo para passar o que entendeu e traz temáticas como cabelo, negro ou preto, vitiligo, autismo, abuso sexual masculino e feminino, e outros tantos que permeiam em nossos ambiente.

Outro projeto que criei foi a revista “DESCOBERTAS DE GIGI”, hoje livros de pano interativos feitos em volumes, em que a personagem GIGI revela suas descobertas desafiando as crianças a também experimentar. A ideia surgiu quando um dia em sala de aula, falava com meus alunos, com idade até 4 anos, na maioria negros, sobre identidade. Distribuí vários livros e estimulei as crianças a se encontrarem nos diversos personagens. Algumas se encontraram porque eram meninas, outras por serem meninos, mas um aluno, negro com cabelo black me disse que não estava se encontrando.

“Não tem ninguém igual ao Gui”, ele me disse. Fui ajudá-lo a procurar e realmente não tinha nenhum personagem negro. Nenhuma figura de um menino negro. Nesse dia, peguei folhas de ofício, montei um livrinho, escrevi algumas coisas e desenhei um personagem o mais próximo possível do Gui. Pintei com tom de pele e cabelos como o dele. No dia seguinte levei o livro para sala, juntei com outros e chamei a turma para continuar procurando personagens que se identificavam. Pra minha grande emoção, ouvi o grito do Gui. “Achei tia, achei um menino ‘amarron’ igual a mim”.

Foi quando descobri como as crianças precisam olhar nos livros e se verem, terem representatividade. Percebi também a dificuldade de comprar livros para meu neto, onde ele se visse. Existem muitos livros étnico-raciais, mas para crianças até 4 anos e de pano ainda são poucos. Por isso criei Gigi, para que meu neto não sofresse a dor do Gui, quando não se encontrou nos livros.

Gigi é uma menina negra, muito bem resolvida, sabe quem é, como é e gosta de ser do jeito que é.  Descobertas de Gigi é uma coletânea que traz descobertas de crianças até 4 anos. Nesse primeiro (Quem é Gigi?), ela descobre como é seu corpo, como gosta de se vestir, se pentear e provoca a criança que conhece a história a se descobrir também. A se olhar, se desenhar e se amar. Descobertas de Gigi vai trazer as curiosidades vividas por mim com meus alunos na creche.  Nos próximos volumes, Gigi vai descobrir como é composto seu nome, significado, quem o escolheu e outras curiosidades.

A luta antirracista deve ser constante e começar cedo
A luta antirracista deve ser constante e começar cedo (Foto: Arquivo Pessoal)

Outro trabalho que estou desenvolvendo é MENINA*MÃE. Neste quadro, que acontece no Instagram todas às terças feiras às 19 horas, o lugar de falar pertence as meninas que engravidam na adolescência. Falamos das dificuldades, dores, desencontros e desencantos enfrentados por elas durante a gravidez. Muitas me retornam agradecendo e dando relato de mudanças ocorridas após a live. Esse projeto me emociona pois sou Mãe Solo. Eu morria de medo de errar com meu filho. Por ele busquei mais conhecimento sobre minha raça, minha história, meu povo, porque a única defesa contra o racista é o conhecimento. Na luta por uma educação igualitária e antirracista.