Desafios da maternidade negra

A responsabilização na construção da subjetividade desde a infância

**Texto por Jeane Santos, de 34 anos, mulher negra, mãe. Baiana morando na comunidade Bela Vista em Guarujá, litoral de São Paulo. Formada em letras pela Faculdade Metodista de São Paulo em 2011. Foi agente comunitária de saúde nos últimos 10 anos. Idealizadora do projeto Poder Preto Kids no Instagram, onde trabalha autoestima, empoderamento e saúde emocional infantil negra

A representatividade é fundamental na construção das novas gerações
A representatividade é fundamental na construção das novas gerações para poder abrir caminhos (Foto: Shutterstock)

Quando uma mãe de criança negra com o mínimo de letramento racial inicia seu processo de educar ela não imagina que mesmo sabendo dos desafios, pouco estará preparada para lidar com eles. A maternidade negra tem desafios específicos, demandas particulares.

Entender que sua criança é negra, em uma sociedade racista, é um passo fundamental para a construção da subjetividade desde a infância. Mas ainda assim trará novas dores que até então não conhecia. O fato de no Brasil sermos 54% não parece dizer muita coisa no final das contas, já que as tomadas de decisão, as representações sociais e os protagonismos, quase nunca se referem a nós!

O sistema de educação ainda segue apagando a história dos nossos antepassados, bem como do nosso povo originário, os indígenas. Somos colocados em um lugar de subalternidade, inferioridade, estereotipados e há um constante reforço destes papéis constantemente.

Quais são os espaços que pessoas negras e indígenas estão ocupando nas telenovelas? Ou por quais motivos a história é embranquecida, eurocentrada? Estas questões precisam de respostas para que entendamos como as estruturas seguem reproduzindo racismo.

Outras perguntas ainda me incomodam quando o assunto é afeto e representatividade na infância. Quais são as princesas e príncipes que representam nossas crianças? Quais são as imagens de poder que permeiam o imaginário infantil negro? São tantas perguntas, e como diria o Show da Luna “e eu quero saber”!

Dentro deste cenário, surgiu para esta que escreve o termo “empoderamento infantil”. Como mãe de um garoto “pardo” com black power hair e olhos castanhos claros, achei que estava preparada para os desafios que a maternidade reserva mas, ao passo que essa criança inicia a vida escolar, o convívio social com outras realidades distintas, vão nos trazendo novos e algumas vezes terríveis desafios.

Aos 2 anos o pequeno Théo teve sua primeira experiência com a injúria racial. Parecia que não conseguiríamos passar, mas ultrapassamos. Dois anos mais tarde, em nova escola, o racismo o encontrou, e desta vez mais fragilizado após a divórcio dos pais. Diálogo, muito afeto e fomos nos ajeitando.

E acredite, mesmo tendo trabalhado, estudado a respeito e desenvolvido meios para enfrentar estas situações, nesta segunda vez, enquanto mãe também estava fragilizada. Quando uma criança inicia a vida escolar, ela chega com uma bagagem  emocional e de construção de subjetividade. E nesse aspecto criar meios de valorizar sua singularidade é fundamental para estruturar essa personalidade em construção.

Mas o que acontece de fato é que a tal da “estrutura racista” chega primeiro. E então um garoto de 4 anos que amava seu cabelo, sua cor e seus traços, passa a duvidar de quem é, da força e potência que tem! Théo não será o último a experimentar um ambiente social que não o integra, espaço esse que ele deveria pertencer, mas que não foi pensado para ele, ou para outras crianças negras. E digo isso com tristeza!

Quando acessamos alguns espaços escolares, figuras e desenhos saltam aos nossos olhos, reforçando a ideia de pertencimento, de representatividade e acolhimento, mas não à uma criança negra. Bonecas e bonecos pintados pelas paredes enfeitam o pátio, mas são de uma pele clara e vestes europeias.

Cabe à mãe (família) criar ferramentas para lidar com as questões emocionais que virão a partir dali. Esta mãe que lhes escreve, teve depressão em decorrência de uma ansiedade, e que provavelmente foi desencadeada por não possuir ferramentas emocionais para lidar com as micro agressões sociais a que somos impostas diariamente.

Nossa sociedade precisa ser responsabilizada pelo racismo nosso de cada dia. Naturalizar uma criança aos 3, 4 anos que não aceita seu cabelo crespo, sua cor e sua singularidade tem muita responsabilidade de toda uma estrutura social. E a pergunta que fica é, de que maneira estamos envolvidos nessa mudança?