Não fuja da paternidade

Dentre muitas lições que aprendemos com as etapas da vida, talvez a criação de filhos seja uma das maiores sobre nossa existência

**Texto por Tomás Camba, um angolano pelo mundo, casado com Thayna Karen, pai de Agatha, professor de filosofia, ensaísta e Diretor Editorial na Editora Quitanda.

Paternidade ativa é necessário (Foto: Shutterstock)

Fazem dois anos que nossa pequena Agatha nasceu, trazendo imensas alegrias para nossas vidas. Dentre essas imensas alegrias, algumas se manifestavam no cair da noite, entre choros e lágrimas, por ela não querer simplesmente dormir. Quando isso acontecia, a solução era passar à noite em claro, tentando apaziguar a fúria da doce criança.

Em meio a tudo isso, acabei me descobrindo um ótimo cantor, porque as músicas de ninar brotavam como fonte de rio turbulento. Reclinava sua cabeça em meu peito e bingo! A mágica acontecia: o sono que se escondia nos gritos e choros, era trazido à existência e ela simplesmente dormia.

Sempre fui um marido presente, pelo menos ao meu ver, é claro! Estive presente em todas consultas de pré-natal, inclusive fui um dos “parteiros” ajudando minha esposa no momento que ela trazia nossa pequena ao mundo. No entanto, após o nascimento da pequena Agatha, a rotina dura de trabalho se impôs a ponto de ofuscar meu papel de pai; chegava em casa e passava uns míseros 30 minutos com minha filha, minha alma e consciência estavam tranquilas, pois estava fazendo meu “papel“.

Minha esposa de modo paciente e sábio mostrou para mim que não bastavam apenas 30 minutos para me considerar um pai presente, era necessário a vida inteira, foi assim que aprendi que eu não estava ali “ajudando” minha esposa a cuidar da nossa filha, pelo contrário eu tinha que ser pai, exercendo meu papel na completude assim como ela integralmente exercia o papel de mãe.

Cuidar de uma criança é assustador, desafiador, ao mesmo tempo que é esplendido. É a manifestação de uma crise. Por crise quero dizer a guinada que a vida dá em 360 graus, ou seja, você terá que mudar, terá que assumir a responsabilidade. O nascimento é uma crise para quem está chegando ao mundo (a criança), bem como para quem está de braços abertos soluçando de alegria e pavor ao mesmo tempo (a família).

O ato de ser pai carrega consigo um senso de responsabilidade e, com ela, o medo de não sermos capazes de desempenhar de modo significativo o papel de pai, principalmente quando possuímos um histórico de pais ausentes em nossa infância e criação. Talvez seja esse o motivo pelo qual, muitos pais são ausentes na criação de filhos. Eles simplesmente têm medo de assumir seu lugar e se escondem por trás de uma masculinidade tóxica que delega toda responsabilidade da criação para a mulher.

Somado a tudo isso, ainda somos assombrados pelo medo de nossos filhos não se lembrarem de tudo o que fizemos para cuidar deles, das vezes que passamos noites em claros para que pudessem sonhar; e das vezes que abandonamos o conforto do nosso travesseiro para que pudessem desfrutar do calor de nossos braços.

Ora, se não mudarmos nossa consciência e entendimento de que ser pai não é apenas trazer uma criança ao mundo, presenteá-la no dia do aniversário ou ganhar uma camiseta no Dia dos Pais, infelizmente continuaremos criando uma sociedade instável, sem amor e afeto. Se não mudarmos a mente a ponto de entendermos que precisamos gastar tempo com nossos filhos, sorrir e gargalhar com eles até sair lágrimas, rolar no chão, seja da sala ou do quintal, continuaremos criando uma geração de pessoas insensíveis, instáveis, cujo fim é o caos social.

Ser um pai ativo e presente é contribuir para construção de uma sociedade melhor, as pequenas atitudes começam na infância, é nela onde seremos capazes de ensinar aos nossos filhos o significado de amor, empatia, solidariedade, tolerância, etc. Como pai de uma menina negra é na infância o momento para ensiná-la que ela é linda, que seu cabelo é incrivelmente maravilhoso. É na infância que somos capazes de ensinar nossos filhos a respeitarem o diferente e as diferenças.