“Ser pai e mãe é quase sinônimo de culpa”, diz Vera Iaconelli sobre parentalidade nos dias de hoje

Em entrevista à Pais&Filhos, a psicóloga Vera Iaconelli comenta sobre o que é ser pai no século XXI e fala sobre o lançamento de sua nova coleção de livros, “Parentalidade & Psicanálise”

Existe um famoso provérbio africano que diz que “é preciso uma aldeia inteira para criar um filho”. Em outras palavras, quer dizer que nunca estamos sozinhos na hora educar uma criança. Spoiler: isso não tem a ver apenas com a rede de apoio. Quando um bebê chega para aumentar a família, já há um mundo inteiro de possibilidades esperando por ele lá fora. É aí que vem o desafio: como apresentar esse novo mundo, com todas as suas complexidades, para essa criança que está vindo aí?

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É sobre isso que fala a nova coleção de livros organizada por pela psicóloga Vera Iaconelli. Em uma parceria com o Grupo Autêntica e a Revista Cult, ela reuniu um time de especialistas para discutir o que é parentalidade nos dias de hoje. Ao todo, serão cinco livros, reunindo ensaios e textos sobre o assunto. Todos os livros deverão ser publicados até dezembro e estarão disponíveis para compra em livrarias e bancas de jornal de todo o país.

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Os primeiros da lista são “Parentalidade” e “Laço” (R$44,90), que já estão em pré-venda. Nas obras, Vera traz um olhar mais crítico e aprofundado sobre como é criar um filho atualmente e aborda questões sociais, raciais e culturais. “Nos livros discutimos a parentalidade para além do papai, da mamãe e do filhinho. São textos bem densos e antenados, para quem realmente quer se aprofundar no assunto”, conta.

Vera Iaconelli é psicóloga, psicanalista e diretora do Instituto Gerar (Foto: Gustavo Morita)

Em entrevista à Pais&Filhos, ela deu mais detalhes sobre a coleção e contou o que podemos fazer para entender melhor a sociedade em que estamos criando nossos filhos:

O que podemos entender como parentalidade?
Parentalidade é tudo o que está em jogo para que uma nova geração de sujeitos surja. É muito além do papai, da mamãe e do bebê. Implica também nas condições sociais, no discurso de uma época, nas crenças, nas condições materiais… Muitas vezes, ignoramos isso e ficamos muito concentrados só na relação entre a mãe e o bebê. Mas não podemos nos esquecer que os dois estão submetidos a uma série de questões sociais e culturais muito mais amplas.

Então, podemos dizer que a parentalidade é uma construção coletiva?
Isso. Devemos pensar a parentalidade como uma construção coletiva que permite que uma nova geração de sujeitos advenha. Não podemos reduzir isso ao que se passa entre a mamãe, o filhinho e o papai, no núcleo familiar.

Apesar disso, a parentalidade tem pesos e significados diferentes para homens e mulheres?
Uma das questões básicas nessa discussão é justamente a questão de gênero. Temos que entender qual é a participação da ideia de gênero na construção da parentalidade. Isso é fundamental para compreender, por exemplo, porque em 2020 o Dia dos Pais ficou atrelado à figura de um homem trans. O que torna possível um acontecimento desse? Se não entendermos de uma forma mais ampla a questão da parentalidade, não conseguimos dar conta de tudo o que está acontecendo hoje. É por isso que temos de estudar também as questões de gênero, raciais, sociais…

Em Laço, o segundo livro da coleção, vocês falam que existe um “mal-estar” dos pais e das mães na criação dos filhos. O que seria esse mal-estar?
O “mal-estar” é um conceito psicanalítico. A gente faz parte de uma civilização e todos nós pagamos um preço por isso. Para que a gente possa conviver coletivamente em sociedade, é preciso que cada um abra mão um pouco do seu prazer pessoal. E isso cria algum tipo de sofrimento e algum tipo de mal-estar. Hoje, mães e pais estão vivendo uma parentalidade precarizada. Essa é uma das formas como o mal-estar se apresenta. Estamos vulnerabilizando a parentalidade e aparecendo com um monte de receitas para ver se esses pais e mães dão certo. Então, o livro denuncia esse jogo duplo. Deixamos os pais a Deus-dará e depois aparecemos com um monte de normas dizendo o que eles deveriam ou não fazer. Temos de falar sobre isso. O nosso papel não é dizer como os pais devem ser, mas ajudá-los a descobrirem suas próprias formas de fazer.

“Parentalidade” reúne ensaios e textos de especialistas da saúde e da educação (Foto: Divulgação)

E dá para driblar essa situação?
A psicanálise está o tempo todo denunciando e tentando ajudar o sujeito a descobrir formas próprias de lidar com a vida, sem ficar indo atrás de ideias impossíveis e normas externas. O livro tem essa pegada de denunciar um pouco essa idealização. Temos que tomar muito cuidado com essas regras que a gente está impondo. Estamos escutando muito pouco o que pais e mães têm a dizer.

É daí que vem esse sentimento de culpa que muitos pais e mães sentem?
Sim, com certeza. O sentimento de culpa é muito baseado em ideais inalcançáveis. Hoje existe uma fantasia que dá para ser pai ou mãe de alguém sem cometer falhas, sem errar. Mas nós somos humanos, não tem jeito. Hoje existe uma culpa generalizada. Ser pai e mãe é quase sinônimo de culpa.

Hoje em dia é mais difícil ser pai e mãe?
Sempre foi difícil, mas de formas diferentes. A dificuldade de hoje é aceitar que a parentalidade é cheia de falhas, incoerências e ambivalências. Mas isso não é uma coisa ruim, faz parte. Acho que o que está pegando para os pais de hoje é que as metas da parentalidade não são realizáveis. E os pais de antigamente nem tentavam fazer uma coisa que não era possível. Eles não estavam assombrados por um ideal.

Nos livros, vocês também comentam que nós estamos vivendo um afrouxamento dos laços sociais. Como isso se reflete dentro das famílias?
Esse afrouxamento quer dizer que as pessoas estão cada vez menos voltadas para o bem comum, mais narcisistas e mais individualistas. Estamos vivendo uma era de individualismo, onde as famílias se fecham em si. Mas, se não funcionarem dentro da coletividade, as famílias implodem. É fundamental que elas se abram para a escola, para a comunidade… Se você não olhar para fora, o que vai sobrar é a violência e a falta de diálogo.

Cinco livros compõe a coleção “Parentalidade & Psicanálise”, uma parceria do Grupo Autêntica com a revista Cult (Foto: Divulgação)

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