O conto da boa mãe

Do que precisamos se o mundo não dá conta e a maternidade também não

**Texto por Tamires Santana, que conheceu a maternidade aos 19 anos de idade e ainda está tentando entender como é que funciona tudo isso. Mãe de Anderson, também é jornalista, design, profissional multimídia, produtora cultural e estudante de pedagogia

Vamos falar sobre o clássico conflito maternal, que nos faz questionar “eu sou uma boa mãe?” (Foto: Getty Images)

Minha respiração acelera junto com uma forte tensão nos ombros e o aceleramento de meus batimentos cardíacos. Meus olhos fecham, como quem não quer mais enxergar a realidade, momento em que a minha mente revisita momentos na praia, acompanhada da fofura mais linda, brincando entre pedras e areia, descobrindo um novo mundo, sorrindo e gastando muita energia para uma posterior noite de sono tranquila (para ambos).

Lembro também o início da nossa relação: no susto e desespero do não planejamento, no segundo ano de faculdade, aos 19 anos de idade, numa confusão interior, na alegria de ser mãe, no apoio familiar e sob o peso do racismo nas esferas menos amorosas da sociedade. Das muitas experiências percorridas, ainda vigora a apreensão em como o mundo tratará aquele quem se ama incondicionalmente.

Pressão e recordação se erguem no mesmo instante em que o diálogo se estabelece para informar sobre prazos vencidos, não participação, ausência de entregas das atividades escolares, preocupações desmascaradas pela necessidade em controlar resultados satisfatórios, incutida por um medo do futuro, meticulosamente desenvolvido por uma rede social mais grosseira do que acolhedora, a competitividade estabelecida pelo sistema capitalista perverso, a urgente necessidade em descolonizar e a cobrança em fertilizar o solo com consciência étnica, financeira, ambiental para os descendentes; tudo isso e, ao mesmo tempo, dando conta das próprias cicatrizes e processos de cura.

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Episódios que fazem do clássico conflito maternal, o qual faz questionar “sou uma boa mãe?”, “o que significa ser uma boa mãe?” parecerem triviais. O negócio toma tal dimensão que, da “boa mãe” de um bom drama existencial, passa direto para a angústia ancestral, alinhavada com as encruzilhadas estatísticas do presente. Surgem sentimentos como a raiva e o choro, apoiados de uma leve culpa, afinal de contas, sinto que galguei um pouco de conhecimento que acomoda em uma camada dentro da hierarquia da subalternidade, esta que permite entender um pouco da complexidade das relações, mas que não mostra todas as respostas para cura coletiva imediata e, muito menos, anestesia as dores individuais.

Revestida de um frágil controle emocional, volto para o presente e me esforço em transmutar o caldeirão de emoções. Procuro me revestir da paz interior e me volto a atenção para o diálogo virtual que se estabelecia naquele exato momento. Acolhi, com o coração aberto, as observações da professora, que de maneira recíproca, após a delicada fase passar, um caloroso abraço de agradecimento informa aguardar. E, ainda assim, mesmo com toda a angústia de mãe preta, antes de encerrar a chamada, deu tempo de internamente (né?!) me perguntar sobre a “eficácia” em repetir padrões da escola tradicional, de relacionamentos hierárquicos e pensamentos lineares, trajando-se de tecnologias no ciberespaço. Guardei essa para o próximo capítulo da gaveta mental, porque agora, foquei mesmo foi na solução do momento.

Segui… Travestida da “boa mãe” (toda firme, creio eu), me viro total para a criança: dou sermão, reforço o uso das planilhas contendo prazos; pego no pé, não dou moleza, distribuo as tarefas domésticas, coloco o livro à vista de todos para ninguém esquecer a hora da leitura. Surtiu efeitos… Por duas semanas!

Não deixei o sentimento do fracasso me dominar. Não, pelo contrário, segui a “lei quântica” do “deixa fluir, minha filha!”. Eis que (encaro como resposta do todo poderoso universo), do nada, em um domingo a noite, o moleque desembesta a falar. Desta vez, nada de jogos, pontuações, equipe de partida, personagens adquiridos. Falou “mais do que o homem da cobra”, como diz a minha avó.

São mais de duas horas argumentando sobre universo, vidas no planeta das quais o humano desconhece e não enxerga; teorizou sua própria versão da evolução dos seres, a evolução da comunicação entre os países; se indignou com a incapacidades dos humanos em cuidar da sua própria existência, do meio ambiente; questionou o que tem no fundo do oceano, sobre o racismo, qual o problema dos humanos… Falou tanto, que quase esgotou as minhas reflexões sobre vida alienígena, História, a diferença da pós-escravidão no Brasil e nos EUA e temas similares e argumentos adquiridos e descontruídos com muito custo nesses meus suados trinta e um anos de vida. Tive que correr lá no fundinho da memória e apresentar referenciais de tudo quanto é coisa, só para não esgotar o assunto e deixar a vontade em se aprofundar mais.

E eu, que andava naquela de “dores ancestrais”, dias atrás, cacarejando feito uma galinha depenada, sem estima e perspectiva de futuro, me deparo com a profundidade das questões que se passam na mente de um ilustre pequeno grande ser, que não necessariamente consegue demonstrar no ensino formal um outro tipo de pensamento e reflexão.

Quando me deparei com a situação, contabilizo os (já) 12 anos de idade da criança e o fato de que estamos de carona nos ensinamentos proporcionados pela necessidade do isolamento social e do repensar a sociedade. A adrenalina, outrora narrada, até deu um tempo. As angústias foram neutralizadas por um forte sentimento de ninguém garante nada, as mudanças estão sim acontecendo e, (in)felizmente, não são repentinas, além de um aliviador, calma, respira, vai dar tudo certo, povo!

Podemos também pensar que esta forma de encarar os fatos e anseios pode fazer parte de algum tipo de mecanismo de defesa para não acionar o célebre surto por estar de saco cheio? Talvez! No entanto, busco parar e analisar pela perspectiva: há mais esperanças do que a minha vã análise pode catalogar, cara maternidade.