Ser mãe de criança negra agrega outras questões e preocupações

Você já se preocupou que seu filho volte para casa sem ter sido abordado pela polícia, ou simplesmente vivo?

**Texto por Joice Aziza Mendonça Silva, historiadora, professora antirracista, Coordenadora de área no Programa de Ensino Integral na rede Estadual SP/Caieiras. Especialista em recortes raciais e de gênero. MBA Gestão Escolar. Promotora Legal Popular, escritora. Mãe de Camila

É preciso romper com estereótipos e promover uma criação antirracista (Foto: Shutterstock)

A vivência de ser mãe vem carregada de estereótipos, como se educar fosse apenas tarefa feminina. E ser mãe de menina é ter uma bagagem adicional, além dos cuidados tradicionais (educação e cultura), andamos com essa bolsa a tiracolo como um livreto em branco que preenchemos através dos anos.

Quando se é uma mãe de criança negra, os cuidados são redobrados. Em uma sociedade patriarcal, racista, homofobia, misógina educar uma criança negra é ter a noção que diariamente terá que reafirmar que ela é linda e que pode fazer o que sentir vontade. Parece clichê o “diariamente”, mas não é quando se trata de crianças negras. Você a empodera, encoraja, injeta autoestima na veia e a sociedade lá fora, recrime, diz que não será capaz, que não pode ou que sonha demais. Quando não, são nossos filhos os suspeitos, o que provavelmente não tem “cara” de que pode ter uma bicicleta elétrica ou que simplesmente esteja usando touca porque deseja se proteger do frio.

Quais as mães que ao ler esse texto tem a preocupação de que seu filho voltará para casa sem ter sido abordado pela polícia, ou simplesmente que voltará vivo? Em um país em que “somos sempre suspeitos”, ser mãe é viver com o coração apertado, contando as horas para que sua filha ou filho chegue em casa inteira(o).

Tenho 41 anos, tenho uma filha com 24 anos. Engravidei em uma relação sexual não consentida aos 17 anos. Desejava escrever aqui sobre minha experiência como ser mãe de Camila, mas o meu ser mãe reverbera as vivências de outras mães negras que não poderão registrar suas experiências, por que esse direito lhes foi tirado.

Não desejava registrar histórias tristes, mas tendo ultrapassado mais de 365 dias em pandemia e com mais de 500 mil vidas perdidas devido à Covid-19, e que nossa preocupação deveria ser apenas usar máscara e nos manter em casa, precisamos redobrar os cuidados com “balas perdidas”, abordagens policiais truculentas, de patroas que fazem pouco caso de nossos filhos os deixando sozinhos em elevadores. Então, ainda não será hoje que registrarei a doce experiência de ser mãe.

Encerro meu registro reforçando a fala de Martin Luther King: “Eu tenho um sonho”, um sonho em que nossas crianças negras possam ter a possibilidade apenas de sonhar com um futuro em que possam respirar e existir.