Sexualidade feminina no pós-parto: como lidar com esse momento

O nascimento de um bebê muda tudo na rotina da família e é necessário se adaptar a essa nova realidade. Claro, sempre respeitando o seu corpo e seu tempo

“Dr. Igor, precisa mesmo esperar os 40 dias pra ter relação sexual depois do parto?”. Dias atrás fui surpreendido com essa pergunta inusitada no consultório, por uma paciente que teve um parto normal duas semanas antes.

É preciso cuidar da relação de casal após o nascimento dos filhos, mas sempre respeitando o seu tempo e corpo (Foto: iStock)

Digo inusitada porque é realmente bem incomum que a mulher tenha essa preocupação em tão pouco tempo do parto. Em 12 anos atendendo muitas gestantes, conto nos dedos as que me fizeram essa pergunta. A grande maioria não consegue nem pensar em sexo nessa fase em que predominam o desgaste com a nova rotina, o choro, a insatisfação com o corpo modificado pela gravidez, a falta de sono e os seios jorrando leite.

Por mais que a internet e as redes sociais tenham ajudado muito a espalhar boas informações sobre sexualidade, um assunto totalmente obscuro décadas atrás, o tema ainda é um tabu. E o que dizer sobre a sexualidade do casal depois de todas as mudanças causadas por um bebê, principalmente nos primeiros meses de vida?

O fato é que se você, leitora, também tinha “libido negativa” depois do parto, pode se considerar absolutamente “normal”. Negativa porque já ouvi de muitas esse termo, que significa não só não ter desejo, mas querer sair correndo de qualquer intenção do parceiro de começar uma relação. E também é importante esclarecer que quando se trata de sexualidade, o “normal” com relação à frequência sexual é muito relativo.

Realmente os primeiros meses depois do parto são muito desfavoráveis para a sexualidade do casal. E a maior vilã nesse período é a amamentação: o hormônio da amamentação (prolactina) tem uma forte ação negativa, inibindo os hormônios sexuais femininos relacionados ao desejo e excitação, além de causar um ressecamento da vagina.

Mas é preciso lembrar que a sexualidade feminina é bem mais complexa que a dos homens e depende de vários fatores para além dos hormônios. E entre os principais está a sintonia e conexão afetiva do casal. O sexo tem uma capacidade incrível de aproximar ou afastar um casal, e diversos estudos na área de sexualidade comprovam que casais mais ativos sexualmente são mais parceiros e enfrentam melhor as adversidades da vida – incluindo essa fase dura de ter bebês pequenos.

E será que os casais são mais unidos porque fazem mais sexo, ou fazem mais sexo porque são mais unidos? Não há resposta pra essa pergunta: é a mesma situação do pão que vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais?!

Por isso a minha dica pra todos os casais nessa fase é que mesmo com toda a loucura do puerpério e primeiros meses, reservem necessariamente um tempinho exclusivo para o casal – mesmo que não ocorra uma relação, cultivar o vínculo afetivo é essencial para o casamento e o distanciamento do casal que tende a ocorrer nessa fase pode ser o começo de um abismo.

E pra paciente que me fez a pergunta, respondi que mesmo antes dos 40 dias completos, se ela já tivesse parado de ter o sangramento de depois do parto, poderia ficar tranquila e ir se divertir.