A escola em que meu filho com deficiência vai estudar

O que passei a priorizar numa instituição de ensino após ter um filho com síndrome de Down

Logo que meu filho caçula Pedro (o “Pepo”) fez 1 ano, comecei a falar sobre a entrada dele na escola com a Marina, minha esposa. Não estávamos com pressa, mas o tema “educação” sempre teve lugar de destaque em casa: além da Má ter trabalhado durante 15 anos como professora de educação infantil, nossos outros 2 filhos – a Nina (8) e o Lipe (5) – apresentaram saltos importantes de desenvolvimento quando começaram a estudar. E queríamos que a história se repetisse com o pequeno.

Mais do que ensinar matemática e geografia, acredito que a escola forme cidadãos (Foto: Getty Images)

O processo de escolha da instituição de ensino para o Pepo, no entanto, foi diferente dos mais velhos. Fez-nos pensar em questões antes não percebidas, valorizando atributos invisíveis e/ou com importância reduzida até então. E isto aconteceu porque ele tem síndrome de Down.

Desde que recebi o diagnóstico, um dia após seu nascimento em Fevereiro de 2018, mergulhei em temas relacionados à inclusão. Livros, palestras, filmes, seminários e muitas conversas com especialistas, pessoas com deficiência e suas famílias me fizeram entender que existia um mundo potente que eu desconhecia. Senti a necessidade de me aprofundar nele para poder oferecer a melhor criação não apenas para o Pedro, mas também para os irmãos.

E por que será que, mesmo aos 38 anos, eu não conhecia nada sobre este universo? A resposta é ampla, mas eu diria que principalmente por não ter convivido com pessoas com deficiência até aquele momento. Mudar este cenário em mim e no meio em que eu vivia, passou a ser uma das minhas missões de vida.

Voltando ao tema: mais do que ensinar matemática e geografia, acredito que a escola forme cidadãos. Ela tem, portanto, a responsabilidade de oferecer um ambiente de equidade de ensino e convívio para todos. Isto quer dizer que, por definição, a escola deve ser um lugar onde TODOS os alunos caibam. Independente de cor, credo, religião, condição física, intelectual ou qualquer outra característica.

E este foi um dos atributos que, pela 1ª vez, parei para avaliar. Passou a me ser óbvio, a partir da chegada do Pedro, que eu o colocaria numa entidade que, além de aceitá-lo, não fizesse qualquer distinção em razão de seu cromossomo a mais. Aprendi com minha própria transformação pessoal e acompanhando o convívio dos meus 3 filhos, que a inclusão é uma poderosa ferramenta de desenvolvimento humano. Aprender a colocar-se no lugar do outro, conhecer e respeitar novos pontos de vista e sentimentos e compreender que a diversidade humana é o que nos faz únicos, enriquecendo a nossa existência, são alguns dos muitos aprendizados oferecidos pela coexistência inclusiva – e que todos, desce cedo, deveríamos ter acesso.

Optamos em colocá-lo numa entidade que enxerga o Pepo antes de sua deficiência. Mais ainda: que respeita e reconhece as individualidades de cada aluno matriculado, independente de apresentarem algum tipo de necessidade diferenciada. Um lugar que encara a inclusão não como problema, mas sim como solução, a ponto de uma classe de 12 crianças acomodar 4 com algum tipo de deficiência. Uma escola que investe na formação de profissionais, ensinando-os a fazer “gestão das diferenças” dentro e fora da sala de aula. Uma instituição que envolve a comunidade de pais e mães de crianças que não apresentam necessidades específicas, para que conheçam e valorizem o ambiente plural e diverso que o colégio oferece. Por fim, escolhemos colocá-lo numa escola diferente da que os irmãos estudam, para que ele possa trilhar seu próprio caminho e protagonizar sua própria história.

Se vai dar certo eu não sei. A tomar como base seus primeiros dias de aula, no início de fevereiro, acho que o maior problema será como remediar o fato dele não dar bola para o pai logo que desce do carro para encontrar os novos colegas de classe.