O distanciamento que nos salva também nos ensina a repensar na vida em comunidade

Vamos, juntos, reaprender a fazer perguntas que possam nos conduzir para um lugar melhor que o hoje

Esse momento de reclusão pode (e deve) nos trazer muita reflexão para um mundo melhor (Foto: Getty Images)

Começo esta coluna sem saber muito bem se este é um tempo propício a estreias, dentre as tantas a que estamos submetidos nos últimos tempos. Vivendo o inimaginável, percebo que os dias transcorrem num devagar-depressa difícil de assimilar, entre as tantas faltas e os muitos excessos que temos colecionado.

Queria ser leve neste nosso primeiro contato aqui, um contraponto à experiência que nos atravessa. Queria falar de afeto, de oportunidade de transformação da vida, do mundo, das relações. É esta a minha promessa para o porvir, sabe? Mas, agora, o momento parece pedir silêncio. Íntimo silêncio. Assumir a própria insuficiência de explicações para os desafios que nos consomem, para, então, tentar cavar fora, onde nossos olhos não tem alcançado, as possíveis rotas de saída. “É preciso sair da ilha para ver a ilha”, nos diz o escritor português José Saramago. Pois temos agora esta oportunidade de tomar distância das coisas como estão postas, como conhecemos até aqui, e, com os pés firmes na realidade, reaprender a fazer perguntas que possam nos conduzir para um lugar melhor que o hoje. Spoiler: o distanciamento que nos salva na atual circunstância precisará se transmutar em conexão profunda com um projeto de vida comum, de comunidade.

Vamos, juntos, reaprender a fazer perguntas que possam nos conduzir para um lugar melhor que o hoje (Foto: Getty Images)

Se podemos estar em casa, nesse momento, se esta é nossa contribuição possível em tempos de pandemia, comecemos, então, sendo essa casa comum para nossos filhos. O amparo, a presença, o lugar para abrandar emoções, o tempo propício para as descobertas. Deixemos que a obediência ceda a vez ao significado. Inventemos, juntos, o vento, o movimento, o exercício do equilíbrio das necessidades de todos, e de cada um. Sejamos um corpo habitado pela intensidade da infância, arejado da humanidade que emerge de gestos simples. Reside aí, no afeto e na desimportância, qualquer chance de descanso da loucura. Reside aí, com ênfase, a coragem para abastecer o peito de sutilezas, de modo que esteja também disponível e apto para agir pelas necessárias mudanças no mundo.

Que seja esta a nossa estreia comum. A minha, aqui, começou com o gesto generoso de Cris Guerra, mulher de muitos talentos e sensibilidade. Tenho, portanto, a responsabilidade de fazer de cada escrito uma mão estendida na direção de novas possibilidades. Vem comigo?

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