Mais de um terço dos recuperados da covid-19 têm sequelas como ansiedade e insônia: entenda a relação

Um estudo publicado na The Lancet Psychiatry mostrou que 34% dos pacientes foram diagnosticados com alguma doença neurológica e psiquiátrica no semestre seguinte ao diagnóstico de covid-19. Especialistas defendem que ainda há poucos estudos para entender as consequências mentais da doença

Resumo da Notícia

  • Um estudo publicado pela revista científica The Lancet Psychiatry mostrou que pacientes que foram contaminados com o novo coronavírus desenvolveram algum tipo de transtorno mental
  • Ao todo, foram analisados 236.379 casos. A pesquisa mostrou que 34% deles foram diagnosticados com alguma doença neurológica e psiquiátrica no semestre seguinte ao diagnóstico de covid-19
  • Especialistas alertam que é é preciso dar um passo para trás, já que ainda há poucos estudos para entender as sequelas neurológicas da infecção

Em 06 de abril de 2021, a revista científica Lancet Psychiatry publicou um estudo apontando para informações sobre transtornos psicológicos em pacientes que foram contaminados com a covid-19. A pesquisa analisou 236.379 pacientes durante um período de 6 meses após a infecção com a doença, usando dados obtidos através de registros da TriNetX, uma rede global de pesquisa em saúde.

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O estudo apontou que 34% dos pacientes analisados foram diagnosticados com alguma doença neurológica e psiquiátrica no semestre seguinte ao diagnóstico de covid-19. De acordo com os pesquisadores, eles estimam o aparecimento de 14 tipos de condições: insônia; transtornos psicóticos, de humor e ansiedade; transtorno do uso de substâncias; demência; encefalite; Parkinson;  síndrome de Guillain-Barré; nervos, raízes nervosas e distúrbios do plexo; junção mioneural e doença muscular; hemorragia intracraniana e acidente vascular cerebral isquêmico.

Para o neurologista Vinícius Spazzapan, pai de Cecilia e Caetano, é preciso dar um passo para trás. “Temos que entender que a covid-19 ainda é uma enfermidade nova circulando em nossa comunidade mundial e que ainda há poucos estudos para afirmar sequelas neurológicas da infecção”, comenta.

De acordo com ele, é possível comparar o atual cenário e a questão de doenças neurológicas e psquiátricas com outras pandemias. “O que sabemos até agora é que desde o início da pandemia, temos complicações neurológicas persistentes ou emergentes em indivíduos que sobreviveram à doença aguda”, comenta Spazzapan. Isso inclui um espectro de:

  • Sintomas cognitivos;
  • De humor;
  • Sensoriais;
  • Motores;
  • Autonômicos;
  • Cefaleia
Pacientes que tiveram covid-19 podem ter uma sequela neurológica ou psiquiátrica (Foto: iStock)

Segundo o neurologista, durante uma infecção aguda de covid-19, o paciente pode sofrer com “inflamação, reações autoimunes e alterações vasculares subjacentes a algumas das síndromes neurológicas observadas”, além de neuroinflamação persistente. Todos esses fatores podem desencadear depressão e alterações de memória, atenção e até mesmo inteligência.

Apesar dessas informações, Spazzapan reforça que é preciso que mais pesquisas sejam feitas para poder ter conclusões certeiras – assim como o estudo publicado pela Lancet Psychiatry diz explicitamente que outras análises devem ser feitas para complementar o que já se sabe até agora. “A maioria dos estudos produzidos até aqui são de sequelas em pacientes gravemente doentes. Ainda é incerto afirmar que os que tiveram sintomas brandos terão sequelas neurológicas”, conta.

Para Dr. Luiz Zanella, biotecnólogo, infectologista e filho de Maria e Luiz, “é importante saber que o vírus Sars-CoV-2 causa uma doença sistêmica, ou seja, de praticamente todo o corpo ou todos os órgão, pois a proteína que esse vírus utiliza para nos infectar está em praticamente todos os tecidos do corpo”. Isso significa que ““cada pessoa terá um tempo e reação diferentes, pois a doença se expressa de forma muito ampla, apesar de ter padrões mais ou menos parecido”.

Crianças podem ter doenças neurológicas por causa da síndrome pós-covid?

“Crianças podem apresentar, sim, doenças neurológicas bem como psiquiátricas, embora sejam mais difíceis de serem vistas e/ou diagnosticadas. Já presenciei história de amigos cujo filho teve temporariamente um quadro de simplesmente não responder aos estímulos do ambiente. Na época todos na casa estavam com covid-19. A criança teve o quadro resolvido após algum tempo, provavelmente porque a serotonina foi restaurada em seu sistema nervoso central”, relata o infectologista.

O infectologista reforça a importância dos pais estarem atentos aos sinais de algo que pode estar errado com os filhos, como “alterações no comportamento ou mesmo mudanças súbitas de interesse por atividades que traziam prazer anteriormente”. Essas oscilações podem ser naturais da criança ou então sinais de um quadro depressivo agudo.

Mulheres grávidas que têm a síndrome pós-covid podem causar algum risco para o bebê?

“Eu não digo síndrome pós-covid-19, mas temos artigos científicos com relatos de recém-nascidos que tiveram de retornar ao hospital 10 ou 20 dias após o nascimento por causa de alguma inflamação. Ao que tudo indica, essa inflamação é decorrente de anticorpos do tipo IgG que a mãe possa ter passado para o feto durante a gestação. Esses anticorpos podem ter características que desencadeiam reações autoimunes nas gestantes e também no bebê, sejam elas semelhantes ou iguais à síndrome que vemos em recém-nascidos quando a mãe está com lúpus ativo”, contextualiza o Dr. Luiz Zanella.

“É importante que tenhamos em mente que existe um vírus que pode causar muitos sintomas diferentes e, ao mesmo tempo, semelhantes a patologias já conhecidas. O que não podemos é negligenciar algo novo, que traz muitas dúvidas e que ainda não temos pleno conhecimento, não pensar em todas as hipóteses possíveis e deixar de fazer um diagnóstico importante para a criança”, defende o infectologista.

Como identificar os transtornos neurológicos? 

O neurologista explica que é necessário fazer um acompanhamento do paciente que foi infectado pela covid-19. “Caso apresente esquecimentos repetitivos, perda de força muscular, alterações de sono, sintomas ansiosos e/ou depressivos, é preciso investigar com um neurologia se há sequelas cognitivas”. Ele também reforça a importância de realizar o diagnóstico e tratamento com um médico que esteja familiarizado com o assunto. 

“Os transtornos neurológicos podem ser encontrados a partir de queixas simples das pessoas que tiveram covid-19 leve até sintomas mais importantes, como naqueles que tiveram a doença em suas formas moderada, grave ou crítica”, explica o Dr. Luiz Zanella. De acordo com o infectologista, algumas reclamações foram:

  • Perda visual e auditiva
  • Transtornos motores

“A covid-19 é uma doença que desnutre. A fraqueza muscular pós-período de UTI também é algo marcante associada às dores crônicas. Queixas desse tipo devem ser bem investigadas avaliando líquor, sangue, pulmão por tomografia e ressonância magnética da cabeça para avaliar, com mais precisão, locais que possam estar inflamados secundariamente a quadros infecciosos”, defende o infectologista.

Sequelas para a vida toda?

Segundo Spazzapan, ainda não existem dados suficientes que indiquem o tempo de duração. Para o Dr. Luiz Zanella, muita coisa ainda é teoria e estamos aprendendo em tempo real. O infectologista ainda explica que, algumas sequelas no corpo – neste caso, não neurológicas – podem levar a pessoa a óbito. “Por exemplo: a eosinofilia no coração pode desencadear uma miocardite (inflamação no miocárdio, tecido que envolve o coração), e a inflamação crônica pode também causar um quadro de pneumonia”. 

Ainda não se sabe muito sobre os transtornos psiquiátricos e neurológicos em pacientes que tiveram covid  (Foto: Getty Images)

As doenças neurológicas da síndrome pós-covid têm cura?

“No momento, o tratamento se encontra nos sintomas que o paciente apresenta, como tratamento para cefaleia e antidepressivos para a ansiedade e depressão. Por enquanto mantemos a orientação de dieta adequada, realizar exercícios físicos, descansar bem e manter o cérebro ativo. Literatura e felicidade são os melhores remédios para sequelas”, explica o neurologista. 

Já para o infectologista, há cura, dentro do que ele pôde observar em um ano de pandemia. “Mas é necessário, antes de tudo, ter mente aberta ao novo, humildade em reconhecer que o conhecimento é limitado e que é necessário estudar muito para ter o melhor entendimento sobre essa doença nova”, defende o infectologista. 

O que é a síndrome respiratória pós-covid-19

O termo é utilizado para os pacientes que tiveram a doença, fizeram o isolamento, se curaram, mas depois de um certo período voltaram a apresentar sintomas. O otorrinolaringologista Dr. Alexandre Colombini, pai de Bianca, completa ainda que existem casos em que o paciente só apresentou os sintomas de covid após a cura. “Embora a síndrome pós-covid esteja sendo relatada mais frequentemente nos casos que apresentaram a forma grave da infecção, também pode acontecer naqueles pacientes que tiveram casos leves e moderados, especialmente naqueles pessoas que são do grupo de risco: obesos, hipertensos, diabéticos, ou com histórico de transtornos psicológicos”, explica. Entenda mais sobre o que é a síndrome pós-covid-19.