Seu filho tem medo de Papai Noel? Entenda de onde vem e como ajudar a criança a superar o trauma

Os pais precisam respeitar e tentar entender os sentimentos dos filhos. Por trás do desconforto na presença do Papai Noel pode estar algum trauma desenvolvido durante a infância

Resumo da Notícia

  • Na época do Natal, você já deve ter visto crianças chorando na presença do Papai Noel
  • Os pais não devem insistir em apresentar essa figura natalina para a criança, mas sim respeitar os sentimentos delas
  • É importante ficar atento aos sinais para saber se esse medo se trata de um estranhamento em relação ao Papai Noel ou de um trauma

Luzes piscando, árvores enfeitadas, família reunida e Papai Noel! Enquanto para muitos o Natal é a melhor época do ano, outros torcem para que ela nunca chegue — isso porque essa data pode trazer à tona alguns medos e traumas desenvolvidos na infância.

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Em um primeiro momento, quando se ainda é bebê, o medo em relação ao Papai Noel pode surgir a partir de um não reconhecimento da figura natalina, mas quando o desconforto permanece ao longo dos anos, é possível que a criança tenha associado a figura do bom velhinho a um trauma sofrido anteriormente.

Algumas pessoas podem ter medo do Papai Noel, e esse trauma pode vir da infância
Algumas pessoas podem ter medo do Papai Noel, e esse trauma pode vir da infância (Foto: Shutterstock)

O que causa o medo do Papai Noel?

Levando em conta que o Natal acontece uma vez por ano, a criança vai ter o primeiro contato com o Papai Noel antes do seu primeiro ano de vida — uma fase em que ela ainda está muito vulnerável e aprendendo a reconhecer a própria família. Quando em contato com algo ou alguém diferente do que estava acostumada, a criança pode não reagir bem e ficar com medo.

“Ela é colocada em frente a uma figura que apesar de ser humana é descaracterizada — porque o rosto está todo coberto por uma barba branca e por um chapéu, então uma criança que começou a identificar rostos humanos recentemente não vai conseguir identificar que figura é aquela. A imprevisibilidade causa muita sensação de insegurança, principalmente uma criança pequena”, explica a psicóloga especialista em traumas Ediane Ribeiro, filha de Maria Madalena e Antônio Xavier.

Em festas de família, em que é comum alguém se fantasiar, ou até nos shoppings na época do Natal, a criança pode ser colocada em uma situação de exposição com o Papai Noel, fazendo com que ela se sinta ainda mais insegura. Assim, o cérebro dela vai associar essa figura ao risco, ao perigo e ao medo, toda vez que ela a ver. “A criança pode ter a percepção de que foi colocada no colo de um estranho e não consegue ver por perto figuras que causam segurança. A criança se sente desamparada ao lado de uma figura estranha que ela não consegue decodificar”, diz.

Por mais que os pais gostem muito do Natal e queiram que os filhos tirem a famosa foto com o Papai Noel, se ele não quiser, você não deve insistir — não é não! ” A criança aprende a respeitar as próprias emoções quando as emoções delas são respeitadas pelos adultos próximos a ela. Quando você respeita a emoção da criança você está ensinando que a emoção dela é importante e que ela própria precisa respeitar a emoção dela no futuro”, aponta a especialista.

Ainda quando seu filho não souber falar, ele vai demonstrar que não está contente com aquela situação de outra forma. “Quando a criança sente um desconforto ela vai chorar para afetar o adulto. Com o sistema nervoso ainda muito imaturo, ela não consegue decodificar o desconforto, então ela chora. Essa é a forma que ela tem de dizer que não está segura e que está com medo daquela situação”, fala a psicóloga.

Não insista que seu filho fique na presença do Papai Noel caso ele tenha medo
Não insista que seu filho fique na presença do Papai Noel caso ele tenha medo (Foto: Getty Images)

Além disso, situações mais sérias e impactantes podem acabar gerando traumas profundos nas crianças. “O Papai Noel ter apertado, ter tocado de forma inadequada essa criança pode ter sido uma vivência realmente traumática”. Às vezes, a situação não acontece diretamente com uma pessoa fantasiada de Papai Noel — a criança pode ter associado o problema a essa figura natalina. “Imagine que uma criança que está deitada na cama e sofre uma agressão. No momento em que ela está sentindo dor tem um boneco de Papai Noel do lado dela. O cérebro associa esses estímulos. Ela sabe que viu o Papai Noel enquanto ela sofreu essa violência”, exemplifica Ediane.

Como o nosso cérebro assimila fragmentos das experiências no futuro, uma criança que já sofreu algum tipo de trauma e associou esse problema ao Papai Noel pode ter um medo constante relacionado a essa figura. “A junção entre uma experiência de medo e a insegurança são a receita do que a gente chama de trauma no futuro. A criança pode ver um Papai Noel e entrar numa situação de desconforto por associar com algo que já aconteceu com ela”, comenta a especialista.

Medo ou trauma?

É possível perceber a diferença entre o medo do Papai Noel e o trauma associado a ele.  Quando a criança fica irritada e sente desconforto na presença dele, mas depois que ele vai embora ela volta a ter o comportamento normal, provavelmente pode ser o medo causado pelo não reconhecimento da personagem. Mas fique atento! Caso o medo persista, mesmo após a época do Natal e a saída do Papai Noel, pode ser trauma.

Pesadelos e reclamações constantes ao longo de todo o ano sobre o Papai Noel são sinais que devem deixar os pais em alerta. “Quando os sintomas começam a persistir no tempo, a gente pode pensar em uma associação com outras coisas, porque o Papai Noel foi só um gatilho que a fez lembrar de uma situação traumática”, conta Ediane.

Pesadelos constantes são sinais de trauma
Pesadelos constantes são sinais de trauma (Foto: Getty Images)

Vamos supor que a criança está brincando e de repente ela começa a chorar. O pai, a mãe ou o responsável que estiver por perto pergunta o que aconteceu e ela diz que se lembrou do Papai Noel do shopping, por exemplo. Isso significa que o medo persistiu, mesmo quando o Papai Noel não está presente em cena. “Esses sinais são importantes de serem observados pois podem significar uma situação mais relacionada com o trauma do que com o medo do estranho. Essas situações mais graves vão precisar de um acompanhamento profissional”, sugere a psicóloga.

Adultos também têm medo de Papai Noel?

Como a maioria dos casos, os traumas carregados para a vida adulta foram desenvolvidos durante a infância. Se a criança sofreu um trauma associado ao Papai Noel, é possível sim que quando adulto ainda sinta medo e desconforto frente a essa figura. O que muda é a forma de manifestar esse sentimento e de se comportar perto do Papai Noel.

O trauma em relação ao Papai Noel é perceptível quando essa pessoa se sente ansiosa na presença dele. “A diferença é que no adulto a manifestação do medo vai ser diferente da criança. Como tem um pouco mais de regulação emocional, o adulto já tem maturação do sistema nervoso e todas as áreas do cérebro mais desenvolvidas, que o ajudam a sentir o desconforto e não precisar colocar esse sentimento para fora em forma de choro”, diz a especialista.

Possivelmente, um adulto traumatizado vai ser aquele que costuma não gostar e nem frequentar festas de Natal, sem um motivo aparente. Esse desconforto pode estar relacionado a um trauma desenvolvido na infância que precisa de acompanhamento psicológico para ser superado.

Como os pais podem ajudar a criança a superar o trauma?

O primeiro passo é não insistir e nem obrigar o seu filho a tirar fotos com o Papai Noel ou ficar no mesmo ambiente que ele. “Se a criança já começa a chorar e a ficar assustada, a primeira coisa que os pais devem fazer nessa situação é se afastar do estímulo que está causando essa ativação emocional na criança. Em outras palavras: sair da frente do Papai Noel”, fala a psicóloga.

O segundo passo é a regulação emocional em crianças, principalmente as mais pequenas. É através do toque e do contato com os pais que o seu filho vai se sentir protegido e mais seguro. “A primeira regulação emocional que a criança recebe é pelo contato físico. É instintivo que quando você vê um bebê chorando você o pegue no colo para balançar. Quando a gente pega essa criança no colo, estamos ajudando a regular o sistema nervoso dela que recebeu uma carga de estresse. Dar o calor do contato e mostrar conexão ajudam a criança a se sentir em segurança”, afirma Ediane.

Conversar sobre o medo de papai noel
O diálogo é o melhor caminho (Foto: Getty Images)

Você também precisa estabelecer uma relação com a criança na qual ela se sinta confortável para conversar com você e expor os medos. Para isso, é fundamental validar as sensações e emoções do seu filho, para que ele não ache que aquele sentimento é inadequado e sinta culpa ou vergonha.

Quando perceber sinais de trauma, leve seu filho ao psicólogo. Um bom profissional pode fazer o diagnóstico e, ao longo do acompanhamento, apontar o que pode ter acontecido.  “Os pais não precisam se aventurar em desvendar os traumas ou qualquer coisa dessa natureza. Se a gente tem uma situação clara de trauma, precisa de um acompanhamento profissional. O que os pais podem fazer é oferecer um vínculo de segurança e de afeto para essa crianças”, diz a especialista.

Papai Noel existe?

Esse é um dos grandes dilemas que aparecem na vida dos adultos quando eles se tornam pais: contar ou não sobre a existência do Papai Noel? Isso vai de cada um! Alguns preferem manter a magia do Natal e outros já contam a verdade logo de cara, para evitar aborrecimentos futuros.

Nos casos em que a criança já mostra ter medo do Papai Noel, essa é a questão que os pais menos devem se preocupar. “Talvez o ideal seja desassociar o Natal com a figura do Papai Noel, porque na verdade essa criança pode ser um adulto feliz sem precisar que esse personagem faça parte do imaginário dela na infância, então não necessariamente ela ela vai precisar passar por essa experiência”, diz a psicóloga.

Se o seu filho tem medo, talvez a solução seja buscar outros simbolismos no Natal para ajudar essa criança como a confraternização, a união da família ou até mesmo a própria árvore de Natal. Não é crescer acreditando no Papai Noel que vai definir se essa criança será feliz ou não, o que realmente importa é ter bons vínculos e enxergar nos pais uma figura de confiança e segurança.