Quando o bebê descobre que tem mãos?

Essa é uma das conquistas mais fofas, mais divertidas e, claro, mais importantes do desenvolvimento do bebê

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(Foto: iStock)

Ao longo do primeiro ano de vida, cada ser humano experimenta uma espécie de corrida de obstáculos. Cada cavalete vencido mostra em que fase está o desenvolvimento do bebê e se tudo está indo de acordo com o esperado. Logo no comecinho dessa prova está uma das conquistas mais fofas, mais divertidas e, claro, mais importantes: a descoberta das mãos.

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Os membros superiores começam a ser formados na 13ª semana de gestação. Daí para a frente, vão se desenvolvendo e, pouco a pouco, o bebê passa a ficar com as mãos abertas e, assim, explora o ambiente de maneira ainda bem rudimentar. De fato, não é raro o exame de ultrassonogrfia mostrar o bebê sugando o dedo, ou segurando o cordão umbilical. “O bebê tem contato com as mãos dentro do útero. No entanto, isso não significa que tenha descoberto as mãos. Do ponto de vista neurológico, ainda é um ato reflexo”, explica o neurologista infantil Saul Cypel, pai de Marcela, Irina, Eleonora e Bruna.

Depois do nascimento, alguns dos movimentos que a criança realizava no útero ainda seguem sendo repetidos. Dr. Saul exemplifica: “Sabe quando o neném coloca o dedo na boca e suga? Chamamos de sucção reflexa. O que muitas vezes desperta a busca pelo dedo é o chamado reflexo dos pontos cardeais. Tocando nas beiradas da boca ele procura o que está tocando e tenta sugar. São reações reflexas que seguem no primeiro mês de vida e vão se extinguindo lentamente”, explica. No entanto a percepção de que tem mão, que ela é uma parte do seu corpo e que ela pode ser controlada acontece bem depois, lá pelos 3 meses de vida. “Aqueles primeiros movimentos eram pré-funcionais, e, mais tarde, irão se modificar para dar lugar aos atos motores maduros. Assim, à medida que o cérebro amadurece, os movimentos vão dando sinal de atos motores adequados às intenções”, explica Maria da Glória Cruz, mãe de Bento e Maitê, pediatra, chefe do setor de fisioterapia do Centro Pediátrico da Lagoa, no Rio de Janeiro. O desenvolvimento se dá aos poucos . Aos 3 meses, segundo a pediatra, a gente já vê os bebês puxando a roupa da mãe enquanto são amamentados. Pouco depois, já conseguem fechar as mãos, no movimento de bater palmas. “Aos 4 meses, eles conseguem segurar objetos por um breve período de tempo”, acrescenta Maria da Glória. É também nessa época que eles começam a aprender a passar objetos de uma mão para a outra e também a levar objetos à boca. “É um misto de reflexos primitivos e movimentos em fase de organização. Por meio das atividades reflexas e espontâneas, ele capta e percebe as diferentes áreas e texturas do próprio corpo.”

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Não é só bonitinho

Esses movimentos são muito importantes para os bebês. É através deles que meninos e meninas começam a descobrir o mundo. “A partir dessas sensações é que ele vai constituindo uma imagem sensorial do movimento, que, se for agradável, passará a repetir, gravar e aprimorar”, explica a pediatra. Ou seja, descobrir a mão é conhecer a si mesmo. Porque é entendendo que a mão lhe pertence e que você pode controlá-la é que o bebê tem uma grande sacada: “Ele vai começar a perceber que ele e a mãe são pessoas diferentes e que ele é separado dela”, conta o neurologista infantil. Não pense que isso é pouca coisa. Notar que não é grudado à mãe é um passo muito grande do desenvolvimento humano. “Num primeiro momento, o neném entende que, quando ele chora, a mãe atende. À medida que vai se dando conta de que a mãe é outra pessoa, separada dele, acaba o reinado”, brinca Cypel. Ou seja, é nesse ponto da vida que cai a ficha de que nem sempre vamos ter o que queremos.

Querer pegar é fundamental

Quando o bebê deseja um objeto que está à frente dele, sua primeira providência é se incomodar e chorar. Mas digamos que, até que a mãe perceba o que ele quer, esse bebê perde a paciência e resolve buscar ele mesmo seu objeto de desejo. Pronto! Está feita a passagem de etapa. Daí para a frente, quando quer algo, o ser humano vai batalhar para alcançar, e a ferramenta para conseguir é a mão. “A mão vai ajudando que ele desenvolva uma autonomia. E, à medida que cresce, não precisa mais esperar a mãe dar o brinquedo. Ele reconhece a própria mão e tenta alcançar o que quer”, explica o neurologista infantil.

É também nessa fase que aprende a usar as mãos para fazer carinho. Em si mesmo e nos outros. Há uma cena clássica que representa bem: enquanto mama, o bebê gira a mão sobre o colo, ou o pescoço da mãe. Ou seja, do ponto de vista afetivo, notar para que servem as mãos é fundamental. E, por fim, do ponto de vista motor, as mãos, os dedos e, em especial, o polegar – que nos diferencia e nos dá vantagens em relação a outras espécies – têm uma função de estimular o cérebro. O dedo polegar, na área motora do cérebro, tem uma das maiores representações. Trabalhar as mãos é exercitar o cérebro e, assim, estimular outras habilidades motoras.

Para estimular

Os pais devem fazer essa estimulação desde o nascimento, ao posicionar os bebês no berço, deixando as mãozinhas alinhadas à linha média, ou durante a amamentação, trazendo os bracinhos para a frente do corpo. “Os objetos leves, coloridos, com bordas arredondadas, que emitem som e com diversas texturas, são os mais indicados. Dessa forma, facilitamos o aprendizado e contribuímos para um equilíbrio funcional”, ensina a pediatra Maria da Glória. As brincadeiras podem acontecer com os bebês em várias posições: de prona (barriga para baixo), colocando o objeto ou brinquedinho à frente da cabeça e movimentando de um lado para o outro, ou em decúbito lateral (deitado de lado), estimulando o bebê a esticar os braços para alcançar o objeto. Mais adiante, sentado com apoio, colocando os objetos à frente, embaixo e acima da linha dos olhos, fazendo com que os bebês se interessem e inicie a busca pelo objeto. E na posição supina (barriga para cima), colocando o objeto no centro, lado direito, esquerdo e acima.

O banho também é um excelente momento para descontração, brincadeira e estimulação. Saul Cypel explica que os pais podem usar objetos bem simples. “Brinquedos de encaixe, com peças em formatos e cores diferentes, como triângulo, círculo e quadrado.” E lembra de duas opções bem tradicionais: carrinho e chocalho. Mostre o movimento e o som que os brinquedos fazem e ofereça ao bebê. Ele vai se esticar e fazer força para pegar. Quando conseguir, faça carinho. Assim, provocando o desenvolvimento das habilidades, vamos garantir que as mãos desempenhem seu papel ao longo de toda a vida.

Por Isabela Kalil 

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