A história do Menino Hulk: para respeitarmos e celebrarmos as diferenças

O assunto racismo deve ser abordado em todas as famílias para, de fato, incentivarmos a luta antirracista

**Texto por Daniela Pio, psicóloga, professora universitária e executiva de RH. Pós-graduada em Psicodrama, Gestão do Conhecimento, Liderança e Gestão de Negócios. Há 22 anos cuidando de gente em grandes empresas. Filha da Alita e do Pedro.

Criar crianças antirracistas é urgente
Criar crianças antirracistas é urgente (Foto: Arquivo Pessoal)

Neste espaço aberto pela Revista Pais&Filhos para escritores e escritoras negros quero contar uma história. Infelizmente não é uma história feliz, mas ela precisa ser compartilhada. Era uma noite de semana, eu havia chegado cansada do trabalho, eis que recebo uma mensagem da minha irmã dizendo “já descobri o que o Menino Hulk* tem!”.

Havia duas semanas que meu pequeno sobrinho de 5 anos vinha apresentando problemas de saúde, recorrentes idas ao médico, exames e por consequência perdendo aulas na escola. Suspeitávamos que pudesse ser algo emocional, os próprios médicos diziam isso, mas ele não falava nada, na escola as professoras não observaram nada fora do comum, seguimos investigando até que um dia ele perguntou para a sua mãe: “Mãe, ser macaco é ruim?”.

E naquele momento as peças se encaixaram, entendemos que aos 5 anos ele estava vivendo seu primeiro episódio explícito de racismo. Uma colega de classe, toda vez que ele estava por perto dizia que ele não poderia brincar com ela porque ele era preto e macaco. Não foi um episódio único, ela repetia isso com frequência.

Até o dia em que ele começou a desconfiar que sua cor fazia dele um ser que poderia ser ruim, ele não sabia o que fazer com aquela rejeição, ele não sabia se o errado ali era ele por ser preto ou a sua colega por sua rejeição, suas emoções não deram conta de tamanha agressão e estavam se manifestando em sintomas físicos.

5 anos… meu Menino Hulk não MERECIA passar por isso. 5 anos… também era a idade daquela menina que talvez só estivesse reproduzindo o que adultos próximo a ela falavam e faziam. Na noite em que minha irmã me relatou essa história nós choramos, gritamos de raiva, choramos mais um pouco, mas conseguimos montar um plano de ação.

O tema racismo tem que ser abordado por todos os tipos de famílias
O tema racismo tem que ser abordado por todos os tipos de famílias (Foto: Arquivo Pessoal)

O fato foi levado para escola que prontamente construiu seu próprio plano de ação, revisou seus materiais para garantir representatividade negra, imediatamente incluiu o tema diversidade e inclusão nas atividades curriculares, chamou os pais da aluna que cometeu o ato de racismo para orientação, e aí encontramos mais uma grande (e comum) realidade.

Pais racistas assumidos que não queriam uma atitude diferente de sua filha. Que acreditam que pessoas da nossa cor não deveriam fazer parte do universo social deles. Este episódio me doeu em um lugar muito profundo… Eu senti o banzo, aquela dor dos nossos antepassados que corre no nosso sangue e que na ciência é explicada pela epigenética.

Me lembro que naquela semana eu abordei meus amigos e amigas brancos, que já eram pais ou mães dizendo que eu precisava contar-lhes uma história e ao final eu pedi a cada um que conversassem com seus filhos sobre racismo, que estivessem atentos às suas atitudes e discursos, pois seus filhos os tinham como espelhos. Foram conversas desconfortáveis, alguns se surpreenderam com a minha atitude, muitos choraram e outros me pediram desculpas em nome dos pais daquela menina. Eu precisava que eles soubessem que eles são parte fundamental da luta antirracista.

Menino Hulk hoje está bem, se interessa por conhecer pessoas diferentes, é um menino sensível e que acolhe a diversidade da humanidade de uma maneira inspiradora. E eu, sua tia, no auge dos meus 42 anos, já perdi a conta de quantas vezes eu vivi o racismo na pele. A primeira vez eu tinha meses de vida e a mais recente foi há poucos dias. Nem sempre consigo reagir, em todas elas, eu choro, mas fato é que eu não quero que os meus sobrinhos cheguem na minha idade tendo passado pelas mesmas situações que eu vivi. Por isso, eu trabalho todos os meus dias, no âmbito profissional e nas minhas relações pessoais, em prol da construção de uma sociedade com mais respeito às diferenças e mais equidade de oportunidades. E faço isso por eles: meus sobrinhos, minhas maiores riquezas, minhas inspirações diárias.

Escrevo este artigo por eles: Guilherme, Julia, Arthur, Yasmim, Luiza, Heitor, João Pedro e Lucas. Além dos sobrinhos indiretos, os filhos e filhas dos amigos e amigas, e toda essa nova geração de crianças pretas que merece viver em um mundo melhor. Pais, Mães, Tios, Tias, Avós de todas as cores, raças e etnias: precisamos todos intencionalmente educar nossas crianças e adolescentes para serem antirracistas, para respeitarem as diferenças de cor e etnia, para enxergarem a riqueza da diversidade etnico racial e aprenderem com estas diferenças. Tenho certeza que nossas crianças e adolescentes terão suas capacidades e inteligências ampliadas por conhecerem e respeitarem diferentes perspectivas.

Afinal, somos diferentes sim! A cor de cada pele e a origem de cada etnia carregam histórias e características diferentes e a soma dessas diferenças é que traz riqueza para as relações e para o mundo.

*Menino Hulk é a forma carinhosa que eu decidi nomear meu sobrinho para preservar sua identidade e ao mesmo tempo homenageá-lo com o nome do seu herói preferido.