Afroempreendedorismo: representatividade e investimento nos hábitos de consumo das famílias

É preciso repensar a forma como encaramos as necessidade de igualdade racial nos espaços e equidade racial nos acessos

**Texto por Ana Claudia Silva, Mãe Preta, Pedagoga, Pós graduada em Filosofia e em Gestão Escolar, CEO da Afra Design – 1ª Marca de Papelaria Étnico Inclusiva do Brasil Formadora e Mentora em Empreendedorismo Feminino e Empreendedorismo Negro.

Representatividade importa! É preciso reavaliar a forma de enxergar o empreendedorismo (Foto: iStock)

Em meio a uma pandemia histórica, entramos na “Primavera Antirracismo”. A humanidade está efervescendo em consciência racial; pessoas negras e não negras conversam sobre e articulam pela necessidade de igualdade racial nos espaços e equidade racial nos acessos. Esse discurso ecoa no campo da intelectualidade e se expande para o campo das políticas públicas. Urgimos que este movimento recaia impactando principalmente na educação dos nossos filhos, das nossas crianças e adolescentes. Estamos criando uma nova geração com conhecimento, acessos e valores que ressignificam a existência da Raça Humana.

Em meio a este processo de autoreconhecimento, pertencimento étnico e racialmente identitário, inclusão e equidade de acessos e espaços na sociedade, há uma questão comercial que colabora e agrega esforços a todo este processo de emancipação da população negra – isto é, pessoas pretas e pardas – o afroempreendedorismo.

Esse viés mercadológico que transborda o ato de empreender e adentra a cultura, a valorização histórica e o futuro de um povo, busca atuar na mudança, na inclusão da diversidade por meio dos produtos, das experiências de consumo, do atendimento primando a conscientização racial, cultural e educacional. Um  diferencial do mercado afroempreendedor em geral, é agregar valor ao que já temos e valorizar a busca por tornar especial as pessoas (desde o processo até o consumo).

Como mulher, preta, mãe, educadora, empresária e afroempreendedora, me vejo no lugar de fala de mais da metade dos empreendedores nacionais. O afroempreendedorismo, segundo resultado de  pesquisa divulgado pelo SEBRAE e Pnad no ano de 2019, representa 51% do total das pessoas que empreendem no Brasil. O afroempreendedorismo teve uma crescente relevante nos últimos anos, porém ainda carece da diversidade de produtos e de parcerias estratégicas para o crescimento dos negócios.

Aproximando a realidade afroempreendedora dos impactos nos hábitos de consumo das famílias pretas, e da construção social que o mesmo acarreta na contemporaneidade e gerações futuras, podemos compor uma análise da relevância de se iniciar na infância o trabalho com a identidade, por meio de hábitos de consumo autoafirmativos. Quando pensamos em produtos étnicos ou materiais afrocentrados, vimos a oportunidade de fazer acontecer um movimento de base, que facilite inclusive o trabalho com a Lei 10. 639/03 dentro das escolas e lares. Isso já com o intuito de conscientização racial, representatividade e empoderamento das crianças negras; tal como a consciência da equidade racial e do combate ao preconceito para crianças não negras de outras etnias e raças.

Pensar nestes produtos afrocentrados, como necessários a todos: a população negra se faz essencial no desenvolvimento da identidade, no consumo de pertences que caracterize sua versão de si, na possibilidade de aquisição que fuja as estéticas impostas há décadas dentro de um padrão eurocêntrico. Para a população não negra é crucial o incentivo ao antirracismo. Quanto mais diverso for o mercado, mais as pessoas aprendem a conviver e respeitar as diferenças. Levar esse contexto por meio dos materiais escolares é  uma visão que eu, Ana Claudia Silva – mulher, preta, mãe, educadora, empresária e afroempreendedora, por meio de estudos contínuos, aprendi e ensino que urgentemente se faz necessário.