A delicada missão de empoderamento para meninas afrodescendentes

É necessário muita conversa e sabedoria para gerar informação e autoafirmação evitando críticas vazias e prejudiciais

**Texto por Joana Barros, personal trainer, mãe de Valentina

A criação antirracista acontece desde o ventre (Foto: reprodução/Catarina Monteiro)

Ser vítima de preconceito dói, mas presenciar isso, sendo sua filha a vítima e estando ela ainda no ventre, dói infinitas vezes mais. Quando cortei os cabelos para assumir meu crespo, mal sabia que ali começava uma fase da minha vida de autoaceitação, autoconhecimento e aprendizado. Não imaginava que passaria por tanto preconceito. E sem dúvida, o maior deles foi quando a minha filha, ainda no meu ventre, foi vítima de preconceito junto a mim…

Naquele momento pedi a Deus que eu soubesse educá-la para ser empoderada e saber se amar o suficiente para se defender desse tipo de gente sem que isso afete a sua autoestima. Ela nasceu tão perfeita. Ao longo dos anos, seus cachinhos foram tomando forma, vi que sua pele é mais clara do que a minha, mas a nossa semelhança é incrível.

É verdade que quando nasce uma criança, nasce uma mãe. Porque quando ela nasceu, me vi inteiramente capacitada para ensiná-la sobre a vida e que o cabelo dela é bom, é bonito, não é duro, nem deselegante, como já me disseram uma vez. Já me vi em algumas situações sem saber como agir, o que falar… E isso é normal. Acho importante nos mostrarmos humanos pros filhos também, mas sempre buscar as respostas ideais, nem que elas venham depois.

Ajuda a ensinar sobre racismo da forma certa, ler livros infantis com personagens negros e que falavam sobre a temática, assistir filmes e animações com protagonistas negros, na intenção de mostrar que negros também podem ocupar papéis principais. Também gera identificação, comprar bonecas com características afro, conversar sobre beleza negra, sobre negros com histórias de bravura ou que obtiveram sucesso na carreira profissional e ser exemplo, em palavras e atitudes, afinal, criança é esponja, absorve tudo, desde os nossos costumes até o nosso jeito de ser.

É importante que meninas e meninos reconheçam sua beleza (Foto: reprodução/Catarina Monteiro)

Tudo isso, aos poucos, faz com que se quebre na mente da criança naquela imagem que se construiu, de que o negro é ladrão ou pobre. Coisa que muitas vezes é ensinada sem querer, por diálogos em casa, atitudes dos pais ou subliminarmente, pela sociedade. Porque nós sabemos, que a desigualdade social existe, mas precisamos ensinar, na época certa, que não é uma regra que se aplique a todos.

Acho importante que famílias brancas também façam isso para que as novas gerações cresçam vendo igualdade entre as raças, vendo que ninguém é mais do que ninguém por conta das características físicas. Vi meu peito aliviado, com a certeza de que Valentina, aos 5 anos, já havia aprendido, no dia em que eu estava com os cabelos soltos, extremamente volumosos, sem definição de cachos e ela, muito docemente, se dirigiu a mim, falando: “Mamãe, você é tão linda! Você é linda do jeitinho que você é”.

Sorri, agradeci pelo elogio, falei que ela também é linda do jeitinho que é e mesmo se alguém falar o contrário, que ela nunca duvide disso. Tempos depois, ela chegou tristinha em casa, dizendo que a coleguinha da escola disse que o cabelo dela era feio. Eu respondi com uma pergunta: “Você acha seu cabelo feio?”. Ela respondeu que não. Aí eu disse a ela que essa é a opinião da coleguinha sobre o cabelo dela naquele dia, mas o importante mesmo, é que ela própria ache lindo. Ela enxugou as lágrimas e foi brincar.

Seguimos fortes e unidas (Foto: reprodução/Catarina Monteiro)

Empoderamento é liberdade. Você não precisa  se sentir aceito por ninguém se você se ama. Isso deve ser ensinado à criança também. Empodere seus filhos, para um mundo menos violento, mais igual e mais feliz para todos. Ensine à criança que ser negro é bom, que a história dos nossos descendentes é rica e digna de filme de super-herói, cheia de bravura e coragem.