A voz que não fala, mas diz

Uma charada que aos poucos vai sendo decifrada. Será?

**Texto por Vanessa Dwek, mãe da Maya, fonoaudiólga e escritora

A maternidade traz muitos desafios e autoconhecimento
A maternidade traz muitos desafios e autoconhecimento (Foto: Shutterstock)

– O que diz sua voz? – perguntou a mim a professora, para introduzir a primeira aula sobre voz para as futuras fonoaudiólogas.

– Diz aquilo que eu quero que ela diga – arrisquei responder.

– Resposta certa, mas incompleta. Sua voz me diz muito mais que isso. O timbre me sugere que você é mulher, a forma lenta com que você pronunciou as palavras me sugere uma personalidade mais romântica, pelo prolongamento das pausas entre uma palavra e outra, eu diria que você não esta totalmente segura de sua resposta e pela sua reação no momento que eu fiz a pergunta, eu diria que você achou um tanto quanto estranha.

A professora não era vidente, mas voz para ela era todo um corpo que diz, muitas vezes inconscientemente.

Curioso… Choro de fome, choro de sono, de incomodo, de dor. Poucos códigos, muito a dizer. O choro que segue ritmado, o que fica cada vez mais alto, o que surge de repente como um grito, o choro que começa com um resmungar, o mais nasalizado, o que acompanha “aquela carinha”, bocejo, esfregar de olhos ou aquele corpo subitamente arremessado para trás. Estava longe de dominar o código e seus significados por completo, mas ao menos eu estava mais atenta aos diferentes sinais.

Hoje à tarde estávamos em uma praça próxima a minha casa quando encontrei outra dupla, mãe e filha. Logo começamos a conversar, um minuto já parecíamos amigas intimas. Mãe é mãe. Falando de filhos, não importa a idade ou estilo de vida são muitas emoções e aflições em comum. O papo estava bom, mas logo uma começou a chorar e a outra seguiu no embalo.

– Está com fome – falamos no mesmo instante.

Em certo ponto, essa tal voz que não fala é muito eficiente em dizer. Apesar de não estar mais dentro da minha barriga, para mim estávamos mais próximas que nunca… Horas mais tarde, acordou, mamou e começou a chorar escandalosamente. Parecia ainda cansada, não queria mamar, não ficava no berço, não se acalmava no colo, nada parecia resolver.

Mesa posta para o jantar, família reunida. Vieram os palpites: Cólica? Refluxo? Dor? Frio? Ligar para o pediatra? Olhei, escutei e não soube entender.

– Podem ir comendo, não se preocupem – dissemos eu e o meu marido fingindo estar tudo sob controle.

Pois é, dois adultos esclarecidos, não fomos capazes de dar fim ao choro de um bebê. Uma e meia da manhã. No momento que a tensão estava chegando ao limite, aceitou mamar um pouco e sorriu. Ainda acordada, coloquei-a no berço, apagamos as luzes e não ouvimos mais reclamações. Tivemos nosso jantar romântico às duas da manhã e caímos na cama, exaustos.

Pensando bem, mães merecem ser aplaudidas de pé, pela extraordinária habilidade de ouvir, observar e decifrar essa tal linguagem sem palavras. Esse artigo é um pedacinho da segunda edição do livro “Mãe de Primeira Viagem” da autora Vanessa Dwek em parceria com a Editora Blucher.