Família

“A vida de comercial de margarina não é real”, relata pai sobre ter dois filhos

Rafael Andrade não teve tempo de se preparar para ser pai, tudo aconteceu meio atropelado. Mas o que ele não sabia é que, na verdade, essa sempre foi sua vocação

Jennifer Detlinger

Jennifer Detlinger ,Filha de Lucila e Paulo

 

(Foto: Arquivo pessoal)

(Foto: Arquivo pessoal)

Rafael Andrade não teve tempo de se preparar para ser pai, tudo aconteceu meio atropelado e sem ser planejado. Mas o que ele não sabia é que, na verdade, essa sempre foi sua vocação. Pai de João, de 10 anos e Marcelo, de 10 meses, ele tem um portal de conteúdo, o Sem Choro, para pais e mães em Belo Horizonte, onde além de divulgar informações de lugares para a família, escreve crônicas sobre paternidade.

Ele enviou seu depoimento por meio do projeto Lá em Casa é Assim — parceria da Pais&Filhos com a Natura Mamãe e Bebê — e nos contou como é exercer a paternidade conciliando tudo com a rotina do dia a dia. Vem conhecer essa história:

“Tenho dois filhos únicos”. Escutei essa expressão ao contar que eu tinha um filho de 10 anos, que eu criei sozinho, e outro de 10 meses. O João e o Marcelo, respectivamente. Me apropriei dessa frase. Eles são dois filhos tão diferentes em tantas circunstâncias que fazem deles filhos únicos. Não tive tempo de sonhar em ser pai, queimei a largada e tive meu primeiro filho jovem demais. Já tinha certa responsabilidade na vida, mas a chave muda quando se trata de uma criança. João nasceu de um parto bem complicado e como consequência ficou em coma durante alguns dias e internado tantos outros.

Eu nunca me senti pai durante a gestação. Talvez pela idade e imaturidade, mas a verdade é que eu não tinha ideia do que estava por vir. Durante o parto, depois de minutos de silêncio, após ele nascer sem oxigenação e lutar pela vida com muito esforço, ele conseguiu respirar e deu um choro curto e alto. Esse choro foi uma “súplica”, soou como um aviso e um pedido: “pai, eu vivo. Sou forte e vou lutar muito pra ficar com você. Não desiste de mim!”.

Soube nesse momento que eu seria protagonista na vida dele. Desde que ele foi pra casa, sempre fiz tudo que um bebê exige. Nunca parei para refletir no contexto cultural que crescemos de que quem é responsável por todos os afazeres é a mãe. Essa reflexão viria anos mais tarde.

Depois que o João fez um ano, passei a cria-lo sozinho e, com uma rotina pesada de consultas e exames decorrentes do parto, vivi ainda mais intensamente essa paternidade. Marcelo nasceu em setembro de 2017 e ao final do ano passei a trabalhar em casa em tempo integral. Poucos têm essa possibilidade e me sinto privilegiado.

Durante a semana, fico algumas noites sozinho com os dois. Minha esposa é pediatra e dorme algumas noites em hospitais. Ela prefere o plantão noturno. Assim consegue passar mais tempo com o Marcelo acordado durante o dia. E, ficando com as crianças, consigo ajuda-la. Ajudar? Não, não. Cuidar dos meus filhos não é ajudar a mãe. É minha obrigação. Nosso papel é “invertido”, mas a divisão não. Depois que ela voltou a trabalhar, demorei um pouco para me adaptar, mas hoje já conseguimos conciliar trabalhos e cuidados com os filhos.
 Mas verdade seja dita, a vida de comercial de margarina não é real. Nem tudo são flores ao passar tanto tempo com os filhos e tem dias que é enlouquecedor. Ainda mais com duas demandas de idades tão distintas. Mas alguns detalhes recompensam tudo: conseguir fazer o Marcelo dormir no cochilo da tarde é uma terapia, quase uma meditação. Já com o mais velho, sei que esse laço já se eternizou. Ele deve ter poucas lembranças de momentos que não estávamos juntos. Tanto é que quando o caçula nasceu, ele ficou bem enciumado. Pela primeira vez na vida, viu que eu não estava mais disponível. Mas ele compreendeu e com os risos do pequeno ficando mais constantes, ele virou um irmãozão!
Aqui em casa é assim. As lições de casa são feitas, em sua maioria, com os gritos e risadas do Marcelo que não sai do meu colo. É corrido e bagunçado como a maioria. Com amor e carinho como tem que ser. Com faíscas e impaciência que são inerentes a infância. Mas, acima de tudo, todos no mesmo barco. Remando juntos a gente consegue chegar mais longe. Assim é minha família.”

Leia também:

Pai perde a mulher em acidente e cuida sozinho do filho: “É difícil, mas não precisa ser triste”

Pais pintam a casa como um quadro de Van Gogh por causa de filho autista

Que exemplo! Mãe precisa ficar internada após o parto e pai ‘amamenta’ filha

Você gostou desse conteúdo?

Sim Não