Entenda 4 comportamentos ‘estranhos’ do seu filho

Acredite ou não, os hábitos repetitivos de seu filho – de chupar uma camisa e até cheirar objetos- podem estar ajudando ele a regular os sentidos

Resumo da Notícia

  • Muitas crianças têm o hábito de cheirar coisas, colocar tudo que vê na boca, ficar girando por aí, entre outros comportamentos 'estranhos'
  • Essas 'peculiaridades' frequentemente confundem, irritam e preocupam os pais
  • Apesar de parecer estranho aos seus olhos, todos esses hábitos tem uma explicação

“Meu filho de 6 anos ama apertar as coisas”, diz Amanda Ponzar, de Alexandria, Virgínia. “Ele costumava apertar as axilas flácidas de todas as mulheres que encontrava: eu, sua avó, seus professores”. Às vezes, ele acidentalmente apertava com muita força ou às vezes apertava um estranho. “Eu estava sempre me desculpando por ele, e seu pai acabava dando uma bronca nele”, diz Ponzar. “Não sabíamos por que ele estava fazendo isso”.

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O comportamento estranho do seu filho pode estar relacionado as emoções (Foto: Freepik)

Já a filha de Erin Haskell é agitada. “Desde que Mollie tinha 2 anos, ela se deitava com as mãos cruzadas sobre o peito e balançava para frente e para trás por uns bons 20 minutos antes de dormir. Eu não sabia o que fazer com isso!”, diz Haskell, de Windham, Maine.

“Eu estou sempre falando para meu filho mais velho tirar de sua boca o Lego, o controle remoto ou o pedaço aleatório de um brinquedo. E ele não é um bebê. Longe disso. Ele está quase no fim dos dez anos, ainda assim, Legos estão na boca o tempo todo”, diz outra mãe.

Essas ‘peculiaridades’ frequentemente confundem, irritam e preocupam os pais. “Hoje em dia, se você pesquisar ‘balançar para frente e para trás’, pode dar resultados sobre doenças mentais. Ou você descreve alguns comportamentos peculiares em um conselho de pais e, a próxima coisa que você sabe, uma mãe ‘prestativa’ está diagnosticando seu filho com autismo, distúrbio de processamento sensorial ou ansiedade“, diz Lindsey Biel, terapeuta ocupacional pediátrica e co-autora de ‘Criar uma Criança Sensorialmente Inteligente’.

Embora ninguém queira voltar a uma época em que os pais não estavam cientes dos primeiros sintomas das diferenças neurológicas, o pêndulo sem dúvida arrebentou algumas crianças simplesmente peculiares ao passar para o outro extremo.

Na verdade, até 70% das crianças com desenvolvimento típico se envolvem em movimentos repetitivos e aparentemente sem propósito, como sacudir as pernas, roer as unhas ou mexer no cabelo, de acordo com um relatório de 2018 na revista Seminars in Pediatric Neurology. Essas peculiaridades não são apenas normais, mas também existem por uma razão: são maneiras de autorregular os sentidos.

“Depois de entender por que seu filho faz esse tipo de coisa, você não verá mais isso como um hábito peculiar, mas como um comportamento com um propósito”, diz Amanda Bennett, médica, pediatra de desenvolvimento das Crianças, no Hospital da Filadélfia.

Colocar coisas na boca

“As crianças que gostam de falar, mastigar e sugar podem estar fazendo isso porque sua boca é um tanto insensível”, diz Biel. Em outras palavras, se seu filho começar a chupar a camisa pode significar que a sensibilidade sensorial oral tenha diminuído e isso exige mais estímulos na boca para satisfazer essa necessidade. “Para essas crianças, é provável que esse comportamento de boca libere neurotransmissores reconfortantes e reconfortantes como a serotonina e a dopamina, que os ajudam a se sentir calmos, menos entediados e mais engajados”, explica Dr. Biel.

As crianças que têm esse tipo de hábito, geralmente são as mesmas crianças que babaram após a primeira infância, tiveram um atraso na fala ou na introdução alimentar. “Elas costumam ter problemas para dominar movimentos precisos de seus lábios e boca porque simplesmente não processam essas sensações táteis tão bem quanto as outras crianças”, diz Dr. Biel.

Embora esses comportamentos sejam geralmente inofensivos, você ajudar o seu filho entender o comportamento e redirecioná-lo para que ele não corra nenhum risco de asfixia ou de outra forma prejudicial. Por exemplo, se a sucção no dedo continuar após os 4 anos, isso pode afetar o formato da boca da criança ou causar um problema de sobremordida, de acordo com a Academia Americana de Pediatria.

“Quando vejo minha filha de 10 anos mastigando um colar ou uma tampa de caneta distraída enquanto assiste à TV, tento me lembrar de dar a ela um chiclete – e não pedir para ela parar”, diz o Dr. Bennett. “O chiclete preenche a mesma necessidade oral, provavelmente por isso que muitas escolas progressistas agora permitem que as crianças masquem chiclete durante as aulas”.  Vale lembrar que mascar chiclete é uma alternativa segura para crianças com mais de 4 anos, e que o ato aumenta o estado de alerta e melhora a cognição, de acordo com um estudo no Journal of Behavioral and Neuroscience Research.

Balançar e girar

Embora uma criança que se balança para dormir possa parecer muito diferente daquela que gira em círculos após um longo dia de escola, ela não é. Ambos estão trabalhando duro para empurrar o fluido, os cabelos e os minúsculos cristais de carbonato de cálcio em suas orelhas internas que compõem o sistema vestibular, que monitora o movimento e o equilíbrio, de acordo com a Dr. Lucy Jane Miller, diretora da clínica STAR – Institute for Sensory Processing Disorder, em Greenwood Village, Colorado.

Crianças que balançam, giram, ou pulam naturalmente provavelmente têm um sistema vestibular que requer mais movimento do que a maioria, porque têm uma sensibilidade aos estímulos abaixo da média. A chave para parar essas peculiaridades? Saber quando é o suficiente. “Há algo chamado curva em U invertido. Quando uma criança gira, sua excitação aumenta e sua capacidade de permanecer calma e focada melhora. Mas isto é bom até que ela chegue ao topo da curva, quando a excitação continua a aumentar, o desempenho diminui”, explica a Dra. Miller.

Por isso, você pode tentar limitar a quantidade de vezes que seu filho gira, como por exemplo no máximo dez rotações e, em seguida, mudar de direção. “Parar e reiniciar beneficia as crianças ao dar mais informações aos receptores vestibulares, que processam as informações de movimento”, explica Dr. Biel. Outra coisa que pode ajudar é ter brinquedos especiais em casa que atendam às necessidades sensoriais do seu filho, como um cavalinho de pau, pula-pula ou outros brinquedos do tipo.

Ao ver que a filha Mollie se balança para dormir, a mãe fica preocupada se ela terá o mesmo comportamento mesmo quando crescer. Provavelmente, ela não vai. À medida que as crianças envelhecem, seus hábitos também se transformam. “Uma de minhas jovens clientes era segurança e rolava na cama quando criança. Ela acabou indo para a faculdade após ganhar uma bolsa por praticar equitação. Por conta do comportamento quando criança, ela procurou coisas voltadas para o atletismo que lhe ofereciam muitos estímulos sensoriais de todo o corpo, incluindo estimulação do sistema vestibular”, explica Dr. Biel . Além da equitação, a ginástica e a natação têm efeitos semelhantes.

Cheirar as coisas

“Meu filho adora cheirar as coisas. Ele está sempre carregando um pato de pelúcia, que está sempre cheirando com respirações profundas dignas de ioga. Quando contei, Dr. Biel não ficou surpreso, mas me perguntou se ele faz isso quando está com sono ou quando está chateado. E claro, respondi que sim”, diz a mãe.

“O olfato é o único sistema sensorial que se conecta diretamente com o sistema límbico, que é responsável pela emoção, a memória e o centro de prazer do cérebro”, explica Dr. Biel. “É tudo uma questão de associação, e as crianças muitas vezes cheiram coisas que evocam memórias agradáveis ​​que elas consideram reconfortantes”, completa.

Esses cheiros suaves podem simplesmente ajudar a criança a se sentir mais segura e protegida – ou relaxada o suficiente para facilitar o sono. E quando você pensa sobre isso, todos nós temos cheiros que sempre recorremos para uma espécie de abraço olfativo. “É por isso que os corretores de imóveis usam o cheiro da torta de maçã para ajudar a vender casas”, compara o Dr. “É que algumas crianças estão procurando mais informações sensoriais do que outras; eles têm uma sensibilidade menor que a normal e às vezes procuram cheiros que não são tradicionalmente considerados reconfortantes, como um pano ou giz de cera”, diz Dr. Biel.

Criança inquieta

“Tocar, sentir, apertar, cutucar, girar o cabelo e todas as outras formas semelhantes de agitação geram sensações que alimentam a vontade de toque de uma criança – e muitas vezes sua necessidade de um tipo muito específico de pequeno movimento também”, explica o Dr. Miller. O corpo libera o neurotransmissor de bem-estar ocitocina em resposta aos movimentos de busca tátil dos dedos e das mãos, como tocar repetidamente uma superfície macia ou acariciar suavemente o cabelo, de acordo com um estudo na revista Frontiers in Psychology.

Além de causar um efeito calmante, a agitação pode ajudar as crianças a se concentrarem também. “Sabemos que todas as crianças se movem mais durante atividades mentais desafiadoras do que durante as menos desafiadoras”, diz o Dr. Michael J. Kofler, professor associado de psicologia Florida State University, em Tallahassee. “As crianças usam pequenos movimentos para estimular o cérebro. Para algumas crianças, especialmente aquelas com TDAH, a inquietação ajuda a manter o cérebro engajado e aumenta a memória de trabalho”, completa.

A mãe Ponzar, conta que o filho adorava apertar braços na escola. “Os professores da pré-escola do meu filho se encarregaram de fazer balões de pressão caseiros cheios de bicarbonato de sódio. Eles os mantinham nos bolsos do avental e entregavam um ao meu filho quando ele queria apertar. E seu aperto no braço diminuiu”, lembra.

Quando saber se um comportamento ‘estranho’ é um problema

Se o comportamento do seu filho interfere no seu dia-a-dia – digamos, ele está tão incomodado com o barulho que odeia o recreio ou não quer pegar a van escolar – pode ser um sinal de um distúrbio de processamento sensorial, segundo Sara O’Rourke, uma profissional terapeuta do Hospital Infantil Nationwide, em Ohio, EUA. Crianças com a condição não podem responder adequadamente aos sinais vindos de seus sentidos, enquanto aquelas com peculiaridades normais encontraram uma maneira de se autorregular.

Se você estiver preocupado, converse com o pediatra do seu filho, que pode encaminhá-lo a um terapeuta ocupacional para estratégias. E saiba: tudo bem se você ficar envergonhado com a peculiaridade de seu filho. “Esse é um sentimento válido que os pais às vezes sentem”, diz a Dra. Lucy Jane Miller, do STAR Institute. “Queremos que nossos filhos se encaixem e não queremos que outros os julguem”. Embora uma peculiaridade em si provavelmente não seja nada demais para as crianças, um estudo nos Seminários de Neurologia Pediátrica descobriu que a frustração aumenta quando pais e professores tentam impedir seu comportamento.

Portanto, antes de fazer isso, pergunte-se: meu filho está com vergonha? Se não, e se a peculiaridade não interfere em outros aspectos da vida, ignore-a e saiba que outras crianças atendem às suas necessidades sensoriais também. Mais ou menos como você masca chiclete em vez de colocar Legos na boca.

Tradução feita por Camila Montino, filha de Erinaide e José, estagiária na Pais&Filhos e estudante de jornalismo na Universidade São Judas Tadeu.