Mãe de atípico e gêmeas conta como concilia maternidade com vida profissional: “Muita fé”

Roberta Alvarez tem 40 anos e sempre sonhou em ter uma família. Para a Pais&Filhos, ela contou um pouco mais sobre as surpresas, esperanças e rotina de uma mãe de atípico e gêmeas com idades tão próximas

Resumo da Notícia

  • Roberta Alvarez tem 40 anos e é mãe do atípico Rafael e das gêmeas Gabriela e Helena
  • Ela conversou com a Pais&Filhos sobre a conciliação da carreira com o cuidado com os filhos
  • Roberta ainda contou como tanto a gravidez planejada de Rafael quanto a não planejada das meninas surpreendeu completamente a família

Roberta Alvarez provou que a vida é capaz de surpreender – mesmo quando acreditamos estar preparados para cada momento. Aos 40 anos de idade, é mãe das gêmeas Gabriela e Helena e do pequeno Rafael – que possui uma síndrome rara que afeta parte do desenvolvimento e a visão. Por isso, em conversa exclusiva com a Pais&Filhos, a mãe e executiva conta como se desdobra para manter a rotina de cuidado com a família, o trabalho e a esperança de um futuro cada vez melhor.

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Casada com Frederico, Beta relata que a vida já lhe mostrou outros planos logo antes de conhecer o companheiro. Aos 37 anos, depois de uma temporada morando no México e apenas alguns meses antes de ter o primogênito, ela chegou a congelar óvulos: decisão cada vez mais comum para mulheres que querem adiar – mas não desistir – de gerar os próprios filhos.

Beta é mãe de Helena, Gabriela e Rafael (Foto: Arquivo Pessoal)

“Eu era executiva, solteira e independente, tinha morado no México e era diretora de Recursos Humanos”, conta Beta, sobre os desafios da carreira na época.  “Já tinha meus 37 anos e falei ‘bom, agora eu quero voltar para o Brasil e construir minha família. Não quero ser independente que roda o mundo. Eu quero formar minha família’”.

E assim o fez: sozinha. Beta foi por indicação de uma amiga a uma clínica de congelamento de óvulos para iniciar o primeiro tratamento. Contudo, a vida já mostrava que os planos eram outros. “O tratamento que eu fiz não foi bom”, relembra ela. “Eu injetei os hormônios, fiz tudo o que tinha que fazer, mas o resultado foi muito aquém do esperado por mim e pelo meu médico: eu só consegui congelar três óvulos, quando queríamos ter colocado 12”.

Apenas meses depois, e algumas boas conversas, ela percebeu que a futura família estava diante dela. Segundo Beta , ela e Fred se conheceram no Instagram, tiveram o primeiro encontro às cegas em um casamento no Rio de Janeiro e não se desgrudaram mais. Quase como uma peça do destino, a dupla já tinha os caminhos cruzados desde a infância: as famílias eram amigas, e o casal chegou a morar na mesma vila militar.

“Apostei certo, porque dois meses depois o Rafael veio!”, conta Beta. A mãe fala ainda que a surpresa do filho atípico apareceu só nos primeiros seis dias de vida do primogênito, quando ele recebeu o diagnóstico da Síndrome de Morsier – ou displasia septo-óptica. A doença afeta diretamente um nervo do cérebro que, dentre as muitas funções, é responsável direto do desenvolvimento e da visão. Por isso, os pais ainda não sabem exatamente o quanto o filho consegue enxergar, porém, entendem que essa será uma preocupação para a vida toda.

Rafael foi diagnosticado com uma síndrome rara com apenas 6 dias de vida (Foto: Arquivo Pessoal)

“Eu jamais serei hipócrita em relação a isso. Eu acho que ninguém espera um filho atípico ou especial. Acho que nenhuma mãe e nenhum pai em sã consciência pedem um filho especial. É um desafio muito grande. É uma missão de Deus  realmente, e eu acredito muito nisso, mas a gente precisa encarar que o dia a dia é atípico”, desabafa Beta. Mesmo assim, descreve que a fé, a esperança e os aprendizados dessa fase são as maiores recompensas trazidas pelo Rafael.

“A maternidade atípica é linda na sua natureza”, conta a mãe. “Quando a gente fala de missão de aprendizado e de evolução, o Rafa até ensina pra gente muito mais do que a gente ensina ele – é impressionante o que aprendemos! É muito difícil e muito desafiador. O país, a sociedade e o dia a dia não estão preparados, e a gente se preocupa com a qualidade de vida e a autonomia dessa turma”.

Autonomia, aliás, é o grande sonho de Beta – não só para Rafa, mas para Gabriela e Helena também. A mãe se orgulha em contar que os filhos crescem em parceria desde muito cedo e que as meninas, mesmo tão pequenas, já aprendem a lidar com a diversidade e inclusão do irmão.

“Eu digo para o Fred que as meninas vão crescer com uma vantagem muito grande, que é a questão de ter a paciência, de ter a empatia e  de ter o relacional muito forte dentro de casa”, diz Beta. “Elas vão aprender a lidar com o diferente e com o atípico. Não tem nem melhor nem pior – são perspectivas distintas”.

Para além da síndrome de Rafa, Beta ainda descobriu 5 meses depois do nascimento do primeiro filho que esperava gêmeas: as caçulas Gabriela e Helena. Ao contrário do primogênito, a dupla não era planejada – pelo menos, não por enquanto.

Beta ainda estava amamentando Rafael quando descobriu a gravidez de gêmeas (Foto: Arquivo Pessoal)

“A gente queria um segundo filho com idade próxima. Enfim, por causa da idade próxima, criar filhos que fossem realmente amigos um do outro para brincar. Até para que o Rafa crescesse junto e pudesse conviver. A gente só não esperava que fosse tão rápido ainda assim, nossa!”, relembra Beta, brincando. “Depois de cinco meses [que Rafael nasceu], a gente se mudou de São Paulo para o Rio de Janeiro em função da carreira do meu esposo. Eu estava amamentando Rafael quando veio a pandemia e eu engravidei quando ele estava com cinco meses”.

A amizade dos filhos é, desde então, um grande sonho de Beta e Frederico. A mãe se orgulha em contar que os filhos crescem em parceria desde muito cedo e que as meninas, mesmo tão pequenas, já aprendem a lidar com a diversidade e inclusão do irmão.

“Eles se dão bem”, ela ainda esclarece. Contudo, com filhos tão novos, alguns desentendimentos são normais. “O Rafael, pela deficiência visual, precisa se sentir seguro em alguns momentos. Eu acho que isso é um baita desafio: não só na questão hormonal, mas também na questão neurológica que a doença traz. Então ele precisa se sentir seguro, e precisa saber o que vai acontecer no ambiente e às vezes as meninas não avisam com os barulhos e gritos e com as falas e com as passagens de mão ali no cabelo que acabam assustando um pouco ele”, relembra ela. “Mas na mesma hora a gente conversa, ele entende e tem momentos muito agradáveis entre os três, interações muito lindas de se ver”.

Gabriela, Helena e Rafael são irmãos e muito amigos! (Foto: Arquivo Pessoal)

“Sou muito otimista que o Rafa vai conseguir ter essa autonomia e qualidade de vida da forma dele. Eu não tenho dúvida, sinto muito essa missão das meninas. Não vamos depositar a responsabilidade nelas, mas sei que naturalmente elas vão acabar assumindo esse papel”, se orgulha ainda Beta. Depois de um período de muita adaptação, aprendizado e, principalmente, fé, Roberta finalmente entende que a maternidade com três filhos e com uma rotina atípica pode ser assustadora no início: mas é necessário persistir.

“Eu acho que a gente não lê sobre uma maternidade atípica. A gente tem uma série de expectativas como ser humano em relação a toda nossa vida, e precisamos ter muita fé. Temos que ser muito firmes, e acreditar que as coisas são porque são em tudo o que está no nosso caminho porque a gente merece, e a gente precisa disso para evoluir”.

Beta também ressalta a importância de uma rede de apoio de familiares, amigos e profissionais que estejam dispostos a entender os detalhes por trás da rotina corrida da maternidade. “É uma possibilidade se cercar de informações que nos deixem mais seguras e com a sensação de que de fato a gente não está sozinho no mundo – tem muitas outras síndromes de crianças e mãe atípicas e precisamos dessa troca”, relembra. “A gente precisa de fato dessa ajuda porque é diferente e mais desafiador – é necessário encarar isso”.

Beta e Fred possuem uma família linda (Foto: Arquivo Pessoal)

Roberta sempre cresceu rodeada de uma família unida e cheia de amor para dar. Por isso, não faz diferente com os filhos. “A família é a base de tudo. Graças a Deus, eu cresci numa família estruturada, unida e forte por gerações e gerações. Meus pais vão completar agora quase 50 anos de casados. Meus irmãos são os meus melhores amigos. E acho que o pai ou a mãe só dormem tranquilos quando sabem que os filhos estão bem, felizes e se encaminhado”, finaliza ela, esperançosa.