Infertilidade imunológica: quando a dificuldade para engravidar pode ser causada pela imunidade

Se preparar para aumentar a família é uma grande responsabilidade do casal, pois exige planejamento. Mas alguns planos podem sair do controle devido à infertilidade sem causa aparente. Conversamos com um especialista da área, que explicou tudo sobre o assunto que pode ter relação com alterações do sistema imunológico

Resumo da Notícia

  • A infertilidade sem causa aparente pode estar relacionada também às alterações do sistema imunológico
  • Cerca de 30% dos fatores de aborto espontâneo são masculinos
  • Nesses casos, o casal deve procurar a ajuda também de um imunologista

Quando o casal decide aumentar a família, começa também a preocupação para saber todos os detalhes e qual é o primeiro passo. Apesar de parecer simples, nem sempre é, pois exige planejamento, condição financeira e, principalmente, os exames de rotina em dia, tanto para o homem, quanto para a mulher.

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A infertilidade sem causa aparente pode estar ligada também a alterações do sistema imunológico (Foto: iStock)

Seja para uma gravidez natural, ou até mesmo para quem já passou pelo processo de fertilização, diversas questões devem ser levadas em conta, inclusive nos casos de uma infertilidade sem causa aparente. Para o Dr. Ricardo Manoel de Oliveira, imunologista, fundador e diretor clinico responsável da RDO Diagnósticos, cada um dos pacientes precisa ser investigado.

Mas afinal, o que é infertilidade sem causa aparente?

O especialista explica que, na verdade, a infertilidade sem causa aparente não existe, pois “são abortos ou falhas de implantação muito precoces”. A cada 10 mulheres, 6 podem engravidar sem saber: “É muita coisa. São abortos que são imperceptíveis à menina e, lógico, a sensação é que ela não consegue engravidar”, explica.

Por que alterações do sistema imunológico podem causar problemas na gravidez?

Isso pode acontecer porque o ser humano é o único vivíparo que carrega um bebê, diferente de equinos e bovinos, por exemplo. Mas, pensando nisso, o sistema imune materno passa a enxergar o embrião como um transplante semi-alogênico, na qual metade da carga genética embrionária que vem do pai é estranho no corpo da mulher. “Então, se o sistema imune materno não mudar através de mecanismos imunológicos extremamente complexos, ela vai rejeitar o embrião. Esse é o primeiro grande fator de abortos precoces”.

O outro caso é a autoimunidade, quando pelo menos três autoanticorpos atacam a placenta causando doenças como tireoide, inflamações placentárias, entre outros. “Isso pode causar desde falhas de implantação até abortos mais precoces, que ocorrem em até quinze semanas”, comenta o médico.

O que fazer para tratar as alterações do sistema imunológico que atrapalham a gravidez?

Após identificar qual é a causa, é preciso tirar essa inflamação da placenta a partir de medicações que não causam danos ao bebê. Vale lembrar que os remédios devem sempre ser orientados pelo seu médico, pois a automedicação pode causar problemas sérios à saúde.

“Um outro grande grupo que observamos com frequência em casais inférteis, principalmente naqueles que têm aborto clínico, ou seja, aqueles que sabem que abortam, mas também naqueles que têm infertilidade sem causa aparente, são as chamadas trombofilias. Elas se dividem em dois grandes capítulos: as trombofilias herdadas, que são genéticas, e as trombofilias adquiridas, que no seu amplo espectro nós chamamos de anticorpos anti-fosfolíticos. Essa patologia talvez seja uma das mais incidentes da infertilidade e, inclusive, ela pode aumentar com a incidência de aborto e piorar”, comenta o imunologista.

Para tratar as trombofilias adquiridas, o especialista pode recomendar uma medicação específica, que também é anticoagulante. Dessa maneira, evita-se a migração de células do organismo, os granulócitos, que atacam a placenta, “enganando” assim o organismo materno para driblar o problema.

A importância da histeroscopia diagnóstica

O exame, que funciona como uma endoscopia, permite a observação da cavidade uterina por dentro, além do colhimento de uma biópsia do endométrio para análise. “O que nós temos encontrado é uma incidência muito alta de alterações que nós chamamos hoje de endometrite crônica“, explica Ricardo. Antes, existia a teoria de que o problema era quase sempre infeccioso, mas a partir de pesquisas, notou-se que essa é a causa de apenas 30% dos casos, sendo os outros 70% mecanismos imunológicos. “Se nós tratarmos todo o resto e não cuidarmos do endométrio, nós vamos ter insucesso gestacional, porque é impossível para o embrião mudar, implantar ou evoluir com um endométrio doente”, completa.

A partir da histeroscopia, o especialista pode identificar também fatores macroscópicos como, pólipos e sinéquias, que também podem atrapalhar na gravidez. “É um exame tão importante quanto os imunológicos. Eles se complementam”, reforça o diretor clínico responsável da RDO.

Com reduzir os abortos espontâneos por causas imunológicas

O primeiro passo, de acordo com o especialista, é sempre a partir de uma investigação laboratorial bem feita. “Nesse sentido, nós adotamos o perfil que, praticamente, afasta todas as causas imunológicas e uterinas. Nós fazemos o exame chamado crossmatch, que é a prova cruzada, do marido e da mulher para ver se a rejeição não está sendo pela parte genética. Depois disso, as células que atacam o embrião, chamadas natural killers (NK) são investigadas”.

As causas de abortos espontâneos também podem acontecer por causa da fragmentação do DNA do homem (Foto: iStock)

No caso das NKs aumentadas, Ricardo comenta que as chances de abortos e complicações podem piorar muito: “Não é uma investigação grande, ela é básica, mas é importante entender por que esses abortos acontecem”. Ao todo, 98% das mulheres que tentaram engravidar e tiveram um ou dois abortos conhecidos pode ter sido por causas imunológicas. “Mas, esse mesmo perfil serve para as mulheres que têm infertilidade sem causa aparente, porque elas abortam e não sabem, e esse é o grande problema”, defende.

Infertilidade com causa imunológica tem cura?

Antes de iniciar qualquer tratamento, é superimportante diagnosticar o paciente. No caso da realização do crossmatch, que mostra rejeição genética, ou ainda de células NK muito elevadas, o procedimento é realizado por uma suspensão lipídica, que bloqueia as atividades das células NK e permite que o embrião continue se desenvolvendo até nove ou dez semanas. “O problema é quando ele ainda é muito pequeno, porque a quantidade de antígenos para a mãe é menor”.

Para os casos de autoimunidade, o tratamento pode ser feito a partir de anti-inflamatórios que não atravessem a placenta e sempre em dose baixa. Geralmente, os medicamentos podem ser usados até as 20 semanas de gestação. “Depois disso, os perigos desaparecem com relação e esses anticorpos”, explica o especialista. Já para as trombofilias, pode ser necessário medicar por toda a gestação e também no puerpério, já que a mãe corre o risco de ter uma trombose, o maior índice de morte materno no mundo inteiro.

30% dos fatores de aborto são masculinos

Para o homem, o imunologista explica que também há um exame muito importante para identificar as causas de infertilidade: o índice de fragmentação do DNA espermático. Geralmente, o problema não é visto no espermograma, por isso pode ser interessante realizar a pesquisa à parte. “Normalmente, 30% dos fatores de abortos são masculinos e isso acontece por causa da fragmentação do DNA”.

Pensando na parte genética, o especialista pode pedir também o cariótipo, mas se o casal apresenta um fenótipo normal, Ricardo comenta que raramente esse cariótipo irá ter alterações. Para as situações especiais, apesar de não ser um exame de rotina de investigação para infertilidade, ele deve ser realizado.

“Em uma pesquisa realizada com 1200 casais que tiveram dois ou mais abortos e todos foram submetidos ao cariótipo, o bebê foi analisado para possíveis alterações. A diferença dos que tinham o cariótipo alterado para o normal era estatisticamente insignificante. Só em 10% dos casos do que estava presente nos pais foi transmitido para o bebê. Então, esse trabalho diz o seguinte: a presença de alterações no cariótipo, evidente alterações leves, não prediz aborto subsequente. Mas a fragmentação do DNA espermático é muito importante”, conclui.