Colunistas

Diálogo entre pais e filhos: com um piscar nós sabemos, nós queremos e ambicionamos a felicidade um do outro

Podemos nos comunicar de várias maneiras sem precisar falar. Nós temos o nosso diálogo sem dizer palavras

O verbo não basta, não chega, não alcança. E eu preciso ter você sempre perto do meu coração (Foto: Getty Images)

Com as pontas dos dedos podemos conversar. Os meus deslizam pelas suas costas, escrevendo amor noutra língua. Você compreende. Sem dizer palavra, temos nosso diálogo. Chamo seus olhos, abro braços e pernas e lhe convido para um colo-ninho.

Você se deita em meu peito, abrigo sua cabeça quente e ponho pra dormir as minhocas que ali habitam. Você dorme junto, eu monto vigília. Viajo para o tempo em que você cabia nos meus braços.

Com a colher de pau, conto minhas histórias. Eu, você, a panela no fogo e algumas ervas de Provence. Confesso o que não sei, ensino sem ter aprendido. Descobrimos juntos as coisas de que temos medo. No riso inventado, nos consolamos dos perigos do mundo.

Você pergunta por que e vamos juntos procurar entender. Na procura, nos achamos. Minhas mãos dizem bom dia ao aquecer suas costas pela manhã. Recomendam cautela e prometem estar sempre ali, mesmo que dentro. Com meu sono até mais tarde em pleno dia útil, comunico a minha conquista: você cresce, caminha, descobre. Já nos podemos dar as mãos.

Com as piadas que invento ao longo do dia, demonstro minha não desistência. Você conta comigo pra rir ao seu lado ou, se for preciso, para apontar a região sensível a cócegas. Para o garçom digo o ponto da sua carne em mais uma declaração de amor. Para a vida, digo que fico, enquanto for. Gosto, quero, insisto. Merecemos.

Com meu jeito estranho de caminhar, reafirmo minha convicta imperfeição. Confesso a alegria de ter me tornado a mulher em crescimento, aprendiz de mãe que anda com o rascunho do diploma debaixo do braço.

Com minha ausência, lhe conto do que você é capaz. Por telefone falamos nada, afinando a voz feito dois palhaços. Importante é o respirar. Tomo sua desatenção como tranquilidade. Quando meu telefone toca é diferente. Tem um desejo ali, eu sei. Saudade, insegurança, falta de mim ou de si mesmo, talvez. Volto. Você me olha, reconhece o amor de sempre, aquieta e sorri.

Com a música lenta e calma na estrada, enceno um assobio da melodia suave da vida. Meu ouvido sabe tocar. Você se entrega. Acordes tristes comemoram minha calma. Reporto o que vai dentro. Em silêncio, explico o que não cabe. Trocamos olhares de quem não pergunta nem responde.

Com um piscar nós sabemos, nós queremos e ambicionamos a felicidade um do outro. Esta que é inexata e inconfessa. Essa que fica invisível para rir-se de nós dois. Com a nossa ironia antiga, nos vingamos dela. Aprendemos um com o outro a não nos levar a sério.

É nossa linguagem, o dialeto que há doze anos viemos construindo. Vocabulário e gramática que crescem e se renovam dia após dia. Memes particulares, jeitos de corpo, siglas. O verbo não basta, não chega, não alcança. E eu preciso ter você sempre perto do meu coração.

Leia também:

Cris Guerra desabafa: “O mercado de trabalho não aprendeu a ser mãe” 

Cris Guerra conta como lidou com a morte do marido quando estava prestes a ter o filho

“A culpa toma um café lá em casa, mas ela não tem quarto de hóspedes”, afirma Cris Guerra