Um volta às aulas diferente para as crianças e pais (também)

O lugar que antes passava tanta segurança agora traz um certo receio. É uma nova rotina e demanda tempo para se adaptar

Vamos gente, acorda! Já se vestiu? Larga seu irmão! Filho, se você está falando é porque a boca está vazia. Vamos comer! Pois é, essa é uma pequena amostra da nossa manhã. A vida parece ter voltado ao normal aqui na Inglaterra, não fossem as máscaras que brotam das bolsas e bolsos vez ou outra e nos lembram da pandemia.

Pais na porta, cadeiras afastadas, novos hábitos (Foto: iStock)

Assim como no Brasil, por aqui também os estabelecimentos comerciais, restaurantes e até cinemas (nem todos) abriram antes mesmo das escolas. Mas esta semana, acabadas as férias de verão, começamos um novo ano letivo. As crianças saíram debaixo das nossas asas e pediram transferência da escola montada em casa para aquela antiga, de seis meses atrás. Nem eles aguentavam mais. Mas não se engane. As paredes são as mesmas, mas muita coisa mudou.

Filho, como foi hoje na escola? Foi bom, mas a gente lavou a mão “27 vezes”. Achei graça. Eu vi a primeira dessas 27 vezes acontecer. A turma dele levou pelo menos 10 minutos na fila do pátio para que todos lavassem as mãos antes de entrar na sala de aula. Será que sobrou tempo para algum conteúdo? (Rs). Hoje o que importa mesmo é que eu não precisei fazer o almoço das crianças (aqui elas almoçam na escola) e o que vier é lucro! Mas, honestamente, não sei o quanto isso tudo é viável a longo prazo.

Tem solução? Não, realmente não há uma fórmula ideal. A escola de fato adotou inúmeras medidas para proteger seus alunos e isolar um ano do outro, o que deixou os pais até mais seguros quanto ao retorno – apesar de o retorno à escola ser obrigatório neste momento. Pintaram círculos no chão para organizar as filas com distanciamento, adotaram carteiras individuais em todos os anos, separaram o horário e espaço para cada grupo usar no recreio. Anos diferentes não se esbarram, não brincam mais juntos, não compartilham espaços e comem em horários diferentes. A higiene foi reforçada e as escadas agora ganharam mão única.

Mas medida de prevenção a covid-19 e vida normal não dividem o mesmo espaço. É como cobertor curto: ora cobre os ombros, ora cobre os pés. A escola buscou se blindar e fechou seus portões aos pais. Por enquanto, os pais se amontoam do lado de fora da escola para, assim, garantir o distanciamento dentro da escola. Oi? Sim, porque agora os pais não podem mais levar os filhos até dentro do pátio como faziam e precisam ficar nos portões, todos juntinhos, até as crianças serem chamadas para entrar. As crianças menores, que tinham lanchinhos fornecidos pelo governo, passaram a ter que levar seus próprios lanches por conta do coronavírus. Ué, mas eles não tinham acabado com o distanciamento dentro da sala de aula? Humm.

É preciso nos adaptar novamente (Foto: Getty Images)

Algumas regras ficaram estranhas. A bola de futebol não deve ser manipulada. Tipo, com as mãos, mesmo. Só pode com os pés. “Mas e o Netball, professora? Minha mãe me matriculou nesse clubinho”, lembrou a Duda, minha filha, ontem durante a aula. Eu até virei o rosto para ela não me ver rindo da situação. “Bem pensado, filha. O que a professora respondeu?”. “Ah, que o professor do Netball acharia uma solução”. Genial. O netball é um esporte muito conhecido aqui e mistura basquete e handball. E precisa usar as mãos!

Enquanto tudo se ajusta e enquanto tentativa e erro se revezam, a gente vai levando a vida e fingindo que está tudo bem. Que está tudo normal. O negócio agora é focar na magia e alegria que é o retorno da rotina louca em casa, no perrengue da saída para a escola, na corrida para pegar o ônibus, e até, vejam só, na hora de dormir. Vamos nos deliciar enquanto precisamos colocar as crianças cedo na cama! Vamos viver e valorizar as mínimas coisas até os números subirem ou até o próximo anúncio do governo. A gente sabe que essa hora vai chegar.

Viver perigosamente hoje é mandar os filhos para o lugar que antes era o mais seguro de todos: a escola. E não é porque eles aqui comem pizza e hambúrguer no almoço (sim, aqui rola isso no almoço oferecido na escola. Não era balela do Jamie Oliver). Mas as crianças estão seguras lá dentro. Na hora da saída, o Tom veio com cara de chateado me mostrando o joelho. “Nossa, filho, o que aconteceu?”, perguntei já pegando ele para abraçar. Ele estava ótimo, mas é só me ver que vem a vontade de chorar. “Ah, mãe, não conheço o menino, mas ele botou o pé na frente na hora do recreio e eu caí”. “Sei. Mas filho, como você não conhece se são todos do seu ano e você só pode encontrar crianças do seu… Bom, deixa pra lá!”.